“Quem sou eu, como governo ou qualquer outra pessoa – quem sou eu, como homem, aqui agora – para dizer a vocês o que devem colocar em seus corpos? Quem sou eu para dizer a vocês o que seus filhos devem colocar em seus corpos? Eu não tenho esse direito.”
Quarta-feira, 3 de setembro de 2025. Durante uma entrevista coletiva, o cirurgião-geral Joseph Ladapo, principal porta-voz e chefe de saúde pública da Flórida, afirmou que o estado trabalhará para eliminar todas as obrigatoriedades da vacinação. Em tom messiânico, a “pregação” do afro-americano Ladapo ocorreu em meio a aplausos de uma plateia empolgada. “Cada um deles está errado e transborda desdém e escravidão. Se você quiser aplicar uma vacina no seu corpo, que Deus o abençoe. Espero que tome uma decisão informada. Se você não quiser aplicar qualquer vacina no seu corpo, que Deus o abençoe também. Espero que tome uma decisão informada. É assim que deve ser.”
O discurso de Ladapo seguiu ao anúncio do governador Ron De Santis. A criação de um comitê estadual para integrar-se ao plano “Make America Healthy Again”, idealizado pelo secretário nacional de saúde, Robert F. Kennedy Jr.
Ladapo já havia se manifestado contra vacinas no passado, durante a pandemia do COVID-19, contradizendo as orientações dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Também alertou que os pais deveriam ficar atentos aos sintomas de sarampo durante o surto de 2024. No entanto, afirmou que poderiam decidir se deveriam enviar os filhos à escola e não incentivou a vacinação. Agora foi ainda mais explícito, forçar a obrigatoriedade da vacinação seria “errado e imoral”. Segundo ele, o Departamento de Saúde da Flórida irá trabalhar em parceria com o governador. A exigência de vacinação em escolas públicas deixará de existir e o mesmo deve acontecer em outros estados liderados pelos republicanos.
Enquanto isso, em Brasília, no Supremo Tribunal Federal, acontece o julgamento da tentativa de golpe e desfilam defensores fazendo malabarismos. Dos crimes, o maior — a multiplicação de vítimas na pandemia pelo negacionismo estimulado — ainda não está sendo julgado. Sem falar nas grotescas manifestações de escárnio ao sofrimento, mas que talvez não possam ser classificadas como humanas e passíveis de juízo.
A constatação de que determinados líderes, que desprezam a ciência, o conhecimento e o bom senso, podem contar com apoio e aplausos surpreende e aflige.
Em “O poder e a glória”, o escritor britânico Graham Greene (1904-1991) usou um poema de um conterrâneo, John Dryden (1631-1700), para epígrafe do livro. “Fecha-se o cerco; avança, cada vez mais forte, o solerte poder da opressão e da morte”. Em pleno século 21, a sentença mantém-se imperativa e causa a estranha contundência de um sino em hora incerta.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

