Se debate muito a manipulação de narrativas no contexto atual, mas também há acesso à informação horizontal. Essa que corre solta pelas redes, que não pede licença às redações tradicionais e que, às vezes, pauta o que realmente importa em uma linguagem acessível e direta. Acredito que pode ser revolucionária. Pode iluminar assuntos pouco tratados, mas fundamentais para entender a realidade em que pisamos todos os dias. Aliás, isso já está acontecendo — talvez assim as mídias hegemônicas melhorem suas pautas.
Uma dessas informações que circulam por aí me chamou a atenção: brasileiros espalhados pelo mundo comparando o poder de compra do salário mínimo nos países onde vivem. Fazem contas simples e devastadoras. Quantos salários para comprar um carro? Quantos para encher um carrinho de supermercado? Quantos para pagar o aluguel? Em alguns lugares, a diferença na alimentação chega a dez carrinhos a mais. Dez. Não é detalhe, é abismo.
Mas não precisamos atravessar fronteiras para fazer contas desconfortáveis. Podemos começar dentro de casa.
No Brasil, cerca de 46% da população vive com renda familiar de até um salário mínimo. Aproximadamente 30% recebem até três salários. Somadas, essas duas faixas alcançam 76% da população. O programa Minha Casa Minha Vida atende famílias com renda de até seis salários mínimos. Se incluirmos também esta faixa na conta, chegamos a 84% dos brasileiros potencialmente dependentes de políticas públicas para acessar a casa própria. Quando o número é tão grande, sinaliza que há um erro de cálculo na fórmula existente.
No artigo Riqueza, Dinheiro e Cidade, comentei que há estoque construído suficiente para atender à demanda habitacional. A conta, no papel, parece fechar. Mas, na prática, não. Porque boa parte desse estoque simplesmente não é acessível para quem precisa.
Então, olhemos com calma. Venha comigo.
O último levantamento aponta um déficit habitacional de 6,5 milhões de famílias. Quando se fala nisso, a imagem que surge costuma ser a das favelas. Mas o quadro é mais complexo. Segundo a sistematização da Fundação João Pinheiro, apenas cerca de 20% do déficit corresponde à habitação precária — que inclui moradias irregulares. Os outros 80% estão na coabitação familiar e no ônus excessivo com aluguel. Ou seja: famílias que dividem o mesmo teto por falta de alternativa ou que comprometem mais de 30% da renda para morar. Em ambos os casos, o problema central não é a inexistência física da moradia. É a distância entre renda e preço.
Isso significa que mais de 5 milhões de famílias precisam apenas de uma equação mais equilibrada entre ganho e moradia. Se o limite saudável é 30% da renda, então, para aqueles 76% que vivem com até três salários mínimos, a despesa mensal com habitação deveria variar hoje entre aproximadamente R$ 486 e R$ 1.458.
Agora comparemos com o mercado.
Levantamento do FipeZap indicou que, em 2025, o valor médio do metro quadrado para locação nas capitais mais caras do país — justamente onde se concentram empregos — varia entre R$ 47 e R$ 57. Um apartamento modesto, de 50 metros quadrados e dois quartos, custaria entre R$ 2.350 e R$ 2.850 por mês. Faça a conta. A maioria simplesmente não chega lá. Para compra, a oferta é ainda mais inalcançável, com valores médios que variam entre R$8.500 a R$ 14.100 reais o metro quadrado. Esses valores praticamente inviabilizam o financiamento através do programa Minha Casa Minha Vida, pois extrapolam o teto máximo previsto para aquisição de imóveis residenciais. A matemática não é ideológica. Ela apenas expõe o descompasso.
E é esse descompasso que explica por que as periferias continuam avançando, cada vez mais distantes, como se a cidade respirasse para fora. Cada quilômetro adicional é mais tempo de deslocamento, mais custo de transporte, menos convivência, menos acesso à cultura, à educação, à saúde. Morar longe não é só uma questão geográfica — é um afastamento gradual da qualidade de vida.
Para a imensa maioria, viver na cidade tem um custo muito acima de suas possibilidades. Deixa de ser uma opção.
A crise do acesso à moradia não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Amigos do tempo do doutorado no exterior relatam dificuldades semelhantes. Mesmo em países europeus, o aluguel virou tema de apreensão cotidiana. A diferença é que, lá, o susto que atinge a classe média corresponde a uma grande parcela da população.
E talvez esteja aí o ponto mais interessante. Quando o problema alcança a classe média brasileira — comprimida entre os 76% que vivem com até três salários e os 5% mais ricos —, ele também ganha visibilidade. Esses 19% intermediários são os que têm maior acesso à formação, à informação e tempo para debate público. São também os que mais sentem, dentro do grupo economicamente próspero, os efeitos urbanos: trânsito, insegurança, perda de qualidade de vida. Quando a moradia aperta nesse grupo, a cidade inteira se torna pauta.
Mas vale lembrar que a falta de acesso à moradia digna nunca foi novidade. Antes das favelas, havia os cortiços. Desde o surgimento da ocupação do Morro da Providência, no fim do século XIX, no Rio de Janeiro, o modelo informal apenas se expandiu. A precariedade mudou de forma, mas não desapareceu. Hoje, ela se manifesta tanto na casa improvisada quanto na exaustão de quem trabalha horas a mais para pagar um aluguel que consome quase tudo.
Planejar a cidade, portanto, não é apenas desenhar ruas e definir índices construtivos. É enfrentar essa equação estrutural. É reconhecer que moradia não é mercadoria qualquer: é base para todos os outros direitos.
A cidade não pode se limitar a ajustar seu planejamento aos interesses de grandes investidores. Ter um plano é escolher prioridades. É transformar valores em instrumentos concretos de gestão. É decidir que a cidade deve servir primeiro a quem vive ou deveria ter o direito de viver nela — e não apenas a quem a enxerga como ativo financeiro.
E então voltamos à pergunta que dá título a esta crônica: quanto custa viver na cidade?
Não apenas em dinheiro, mas em tempo de deslocamento, em horas de trabalho, em distância da escola, da cultura, da convivência. Em qualidade de vida. Quando morar perto se torna privilégio e viver longe vira regra, a cidade começa a cobrar um preço alto demais.
Talvez esteja na hora de refazer essa conta. Porque, se continuarmos ignorando os números e suas consequências, o custo urbano será cada vez maior — e talvez, em algum momento, simplesmente não consigamos mais pagar a conta.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

