Morreu o Paulo. Publiquei uma fotografia de seu rosto em um story do Instagram. Trezentas pessoas viram. Poucas dentro dos parâmetros da minha rede. E doze se manifestaram. Afinal, Paulo não era ninguém no sentido de nunca ter desfrutado de quinze minutos de fama por ter feito sei lá o quê. Por isso mesmo não vou trazer o sobrenome dele. Os que o conheceram sabem o quanto ele foi ético, sensível e afetivo, um bom ser humano. Conquista rara. No mundo em que vivemos, bondade é um aprendizado árduo e um esforço moral. O ato de nascermos não a garante a ninguém, e o sistema, embora civilizatório, adora o mau, se alimenta de maldade e se diverte e enriquece com ela. A luta que o Luke Skywalker, por exemplo, trava, no Star Wars, para não passar para o the dark side acontece o tempo todo com quase todo mundo e em todos os quatro cantos redondos do planeta. A tentação é grande, é muito mais fácil ser ruim do que bom.
Star Wars entrou na minha mente quando eu era menina. George Lucas é um diretor que admiro por uma série de razões. A declaração de uma nova ordem feita pelo Chanceler Supremo Palpatine, anunciando o fim da República Galática e o começo do Império, nunca saiu da minha cabeça. Domingo passado, apesar de dita de forma rude, para não dizer grotesca, ouvi, aqui da minha casa, a tarde toda, uma versão gritada dela. Mito, mito, mito, gritavam, entre outras coisas, os participantes. Não gosto de gritos. Gosto da série de quatro pinturas, do Edvard Munch, um homem nascido no século 19, em que uma figura andrógina expressa angústia, desespero, desolação. Gosto porque a escuto. E é preciso ouvir o que está sendo dito. E o que também não está, e mais do que tudo, é preciso dizer não ao silêncio e aos ruídos perigosos da vida.
Chega um momento em que ela, apesar de muito dizer ‘sim’, nos diz ‘não’ e desaparece. A vida que somos, não só a que nos rodeia e tampouco se apresenta em uma única dimensão. A palavra única acho meio falaciosa. Quando alguém diz que alguém foi o único amor de sua vida, sinto uma espécie de desconforto. Meu coração não entende. Não posso dizer que ele é superhabitado, mas, sem dúvida, se inclina para uma espécie de pluralidade afetiva. Sigo, mesmo não tendo um relacionamento íntimo e sexual, amando a quem amei que tinha um bom caráter. E gosto de quem faz o mesmo. Gosto quando um homem ainda ama uma mulher que fez parte de seu percurso e zela por ela mesmo que ela já viva com outro, outra. Tanto faz. Penso que esse homem está a um passo à frente, conectado tanto com sua grandeza quanto com sua insignificância. E que isso de nenhuma forma o impedirá de amar também a mim. Pelo contrário.
Depois do A Insustentável Leveza do Ser, A Festa da Insignificância é o meu Milan Kundera favorito. Somos todos insignificantes. Com raríssimas exceções, ninguém terá sido relevante para a humanidade, ela em si mesma muito menos significativa do que se imagina. O universo não está nem aí para nós. O conceito de Pálido Ponto Azul, poético e sedutor, divulgado pelo Carl Sagan, mas já presente nas meditações do imperador romano Marco Aurélio, não deixa de ser um exagero. A Terra é bem menos que um pálido ponto azul e não é eterna. Assim como seus habitantes, dos melhores aos piores, um dia, ela sumirá do mapa. Dizem alguns cientistas que o universo está com os dias contados. Em um documentário sobre ele, entre vários astrônomos, um diz que só conseguiu suportar essa realidade a partir do momento em que se apaixonou por uma pessoa. É o amor a boia que nos salva da deriva. Não necessariamente do mar. Não existe terra firme para a existência.
Terminei de ler, nesta semana, o Esculpir o Tempo, do cineasta Andrei Tarkovski. Um livro sobre cinema, é claro, mas também sobre literatura e sobre o que nutre a ambos, ou seja, sobre nós: eu, tu, até ‘ele’, vós, eles. Todos os sujeitos que pisam sobre o chão e, por vezes, uns aos outros e que são capazes de construir e de preservar, em alguma medida, o que ele chama de ‘atmosfera emocional’, uma parente próxima da poesia ou do estado poético de existir. Os artistas, sabe-se lá o porquê, têm facilidade para recriar e compartilhar recordações. “Há alguns aspectos da vida humana que só podem ser reproduzidos fielmente pela poesia”, ele escreve, não deixando de citar as tristes palavras do escritor Hermann Hesse: “Você pode ser um poeta, mas não pode transformar-se num poeta”. Um poeta, como o amor, é um mistério. No filme Solaris, também do Tarkovski, lá pelo final há uma reflexão sobre a importância de nem tudo ser desvendado, iluminando a discussão que a trama traz sobre quem pode mais, se a ciência ou o amor, e sobre o quanto ambos, a gente aceite ou não, perdem para a finitude se não tiverem já antes sucumbido nos abismos de cada um.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

