A noção que recebemos da modernidade é que a cultura sempre muda para melhor, acompanhando o progresso da história. Isto é, mudando o exterior onde os sujeitos vivem, progredimos também suas formas de desejar e de sentir. Daí, se acreditou que a modernização da Ciência e da instrução individual (Iluminismo) e o desenvolvimento das forças econômicas e da liberdade de mercado (Liberalismo), em outras palavras, o avanço intelectual e material, corresponderia ao progresso da cultura em geral, significando que as ideias, os sentimentos, os modos de racionalização ou representação se expandiriam na cadência do desenvolvimento racional ou financeiro. Todavia, a recorrência do racismo, xenofobia e machismo, que absurdamente se manifesta em feminicídio, nos faz abandonar qualquer credo no progresso moral civilizatório fiado no desenvolvimento intelectual e econômico.
A reincidência do racismo, da xenofobia e do machismo escancara-nos uma odiosa realidade: a independência da evolução do conhecimento (e do acesso a ele) e da prosperidade do capital em relação a outros campos da vida em sociedade, por exemplo, os afetos e os sentimentos.
É fato que a necessidade econômica de incorporação de segregados segmentos étnicos no horizonte do mercado consumidor, da inserção da população feminina no contingente da força de trabalho e do imperativo de qualificar massa trabalhadora nos bancos escolares trouxeram consigo ganhos sociais. É fato também que se ascendem alguns degraus na escala civilizatória quando temos as demandas por direitos e igualdade efetiva de minorias e segmentos subalternizados, representadas nos currículos escolares, nas pautas da imprensa, nas demandas de governo e nas propagandas eleitorais… Entretanto, a repetição de barbáries acende os sinais de alerta para a possibilidade de que tais conquistas podem não estar atingindo os estratos mais afundados da cultura circulante na sociedade, isto é, nas impressões mais arraigadas. Assim, infelizmente, a educação formal (escola, colégios, universidades) e o crescimento econômico talvez não sejam plenamente eficazes para impactar nos modos mais profundos da vida em sociedade. Por conseguinte, esvazia-se o suposto otimismo advindo da crença segundo a qual a escolarização e o código legal mais progressista poderiam ser ferramentas para a plena conversão da natureza sensível bárbara numa sensibilidade supostamente mais humana.
A pergunta que fica é: enquanto sociedade, estamos impossibilitados de pensar e propor processos e ações de transformação nos modos de formação subjetiva? Em suma, há alguma possibilidade de se pensar processos e ações que impactem na cultura de afetos e sentimentos, seguindo um determinado projeto de sociedade?
Continuo acreditando que sim… Não negando a importância da educação formal e do aprimoramento do ordenamento jurídico, creio que as artes (música, literatura, cinema) e, principalmente, o entretenimento midiático (TV, streaming, internet) têm um papel fundamental na constituição de outros modos de vivência e experiência na sociedade que possibilitem outras formações subjetivas.
Neste sentido, não se estaria negando a possibilidade da formulação de projetos e, consequentemente, de intervenção na vida social: resgata-se a importância da educação (para além da instrução escolar) e dos processos de formação que impactem nas matrizes mais profundas e estruturais da cultura, aquela que comporta a recorrência de modos anacrônicos de atuação na vida social. Em suma, ainda cremos que, se é na vida em sociedade que o racismo, xenofobia e machismo são gestados, é nela também que estão as chaves da superação da barbárie que ainda persiste.
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