1 – A primeira coisa que pensei ao pisar na Praça da Alfândega no primeiro domingo desta edição 2025 da Feira do Livro, com os corredores da praça intransitáveis de gente e as bancas enxameadas de tal modo que se aproximar para consultar qualquer livro era uma tarefa cansativa, foi: “Eu não acredito que passei uns 15 anos vindo nesta Feira quase todos os dias”. Porque sim, enquanto fui setorista de literatura em jornal, era parte recorrente do meu calendário profissional passar todos os dias úteis e algum fim de semana na Feira – e quando eu folgava no final de semana, eu acabava indo de novo na Feira, desta vez não para trabalhar, mas para andar, olhar, comprar livros. Devo estar ficando mesmo inapelavelmente velho, porque hoje o burburinho e a multidão e o empurra-empurra, o acotovelamento me incomodam, eu e minha companheira andamos um pouco pelos corredores intransitáveis, compramos dois livros na Banca do Senado e dali fomos tomar cerveja.
2 – Tendo experimentado a Feira com tanta intensidade e recorrência ao longo de tanto tempo, confesso que meu trânsito por ela este ano produziu uma certa melancolia indefinida que transcende a explicação mais simples de minha senilidade precoce e impaciente. Eu já vi a Feira passar por poucas e boas, mas sempre me impacta quando ela está mais para a fase das “poucas” do que para a das “boas”.
3 – Vocês lembram da tônica de boa parte das discussões sobre a Feira ali pelo fim dos anos 2000 e início dos anos 2010? Claro que a maioria de vocês não se lembra, mas eu acompanhei bem de perto, então posso contar. A Feira iniciou a década de 2010 em uma condição de desconforto na sua ligação com a Praça, seu lar ancestral. Estava em andamento naquele tempo um projeto longo e complicado de restauração e remodelação da Praça da Alfândega: árvores eram transplantadas de lugar, as pedras portuguesas do calçamento foram recolocadas e realocadas, algumas das veredas foram modificadas, tudo para que o espaço voltasse ao desenho original dos anos 1940, por aí. Morbidamente cheguei a pensar na época que a Praça voltaria a ser aquela vista nos últimos momentos de vida de Joana Karewska, a balconista que se atira para a morte do alto de um edifício na obra O Resto é Silêncio, de Erico Verissimo. Só pensei, claro, não escrevi. Até porque o livro de Erico foi inspirado por um suicídio no mundo real, testemunhado ali na praça por ele e seu irmão, em 1941.
4 – Bom, o fato é que a Feira, ali pelos primeiros anos dos anos 2010, foi realizada em um espaço coberto de tapumes e desvios devido à execução da obra de reforma na Praça. Num desses anos você precisava passar por um túnel de compensado para chegar até ali, onde ficam as estátuas do Drummond e do Quintana. Como eram também anos de uma feira em expansão vertiginosa, não tardaram a surgir vozes discutindo se a Praça seria ou não o melhor lugar para a Feira no futuro. A Feira crescia exponencialmente, havia já registrado 160 bancas espraiadas tanto pela praça da Alfândega quanto pela travessa fronteira da Sepúlveda, indo parar no cais, onde estavam instalados a Feira Infantil e o Teatro para grandes eventos. Muita gente na época chegou a dizer que talvez o modelo que a Feira devesse seguir, por mais que o charme de uma festa ao ar livre tivesse seu valor, era o de eventos maiores como as Bienais do Rio e de SP, realizadas em pavilhões fechados. Se o número de bancas continuasse crescendo tanto, haveria como acomodar todo mundo ainda na praça?
5 – Feliz e infelizmente, nem se fala mais dessa ideia hoje. Felizmente, porque é uma ideia de jerico. Uma das coisas que diferenciam o espírito da Feira é seu caráter rigorosamente democrático. Sem ingresso, sem portão, sem grade de restrição. Trocar isso pela conveniência discutível de ser a milésima feira e o milionésimo evento cultural realizado num galpão é simplesmente uma ideia ruim e merece ser relegada com mérito ao esquecimento. Infelizmente, porque mesmo o desaparecimento dessa ideia ridícula é um indício claro das dificuldades da Feira ao longo da última década: diminuição do espaço, diminuição do número de expositores, virtual desaparecimento dos descontos de 20%, diminuição da bibliodiversidade nas bancas, etc., etc. A Feira passou os últimos 10 anos um pouco como todos nós: sobrevivendo como podia aos percalços gigantes da economia, da política e da história.
6 – Em 2018, imagino que vocês lembrem, a Feira recebeu um boleto de aluguel pelo uso da Praça. Depois de 60 anos sendo realizada na Praça, a Feira recebeu um boleto de cobrança de quase R$ 180 mil, enviado às vésperas da abertura do evento, já sem tempo algum para que o valor fosse de algum modo lançado nas previsões de gastos com os recursos de leis de incentivo. Acho válido mencionar que o prefeito da cidade na época era Nelson Marchezan Jr., um político com ligações abertas com o MBL – naquele momento, já havíamos passado pela pressão feita pelo então recente movimento para encerrar a mostra Queermuseum no ano anterior no Santander. Um acontecimento que produziu ondas de choque que reverberaram na própria Feira, já que naquele ano mesmo um evento sobre literatura queer que seria realizado no próprio Santander foi trocado duas vezes de lugar por “preocupações com segurança” – era a época dos minions locais do movimento invadindo debates com postura agressiva e câmera na mão para gerar um vídeo, uma estratégia que ajudou figuras ligadas ao MBL a ganhar visibilidade e criou o padrão repetido até hoje por outros nomes com pretensões políticas na direita nacional. Marchezan Jr. deu a justificativa de que a conta estava errada e que o boleto foi enviado por engano. Tá bom, então.
7 – Em 2020, tivemos a pandemia e a Feira foi digital, toda ela com palestras transmitidas via rede. Um formato que voltou, mais ou menos, na Feira de 2021, mas em variações novas e algo esquisitas. Eu me lembro de naquele ano entrevistar, como parte da programação oficial, Jo Nesbo, nome quente do “noir nórdico” que se tornou popular na última década. Eu fui até à praça e falei com ele por uma ligação de Zoom – eu em Porto Alegre e Nesbo em Oslo. O papo foi também sem público presente, mas transmitido pelo canal da Câmara do Livro. Em 2023, a Feira quase não saiu devido à redução drástica de recursos. A profusão de livrarias digitais também ajudou a ferir a Feira nos últimos 20 anos.
8 – Com tudo isso, ter a Feira na praça, em que estado que for, é sempre um alento. Sinal de uma sobrevivência teimosa às marés do tempo: a ascensão de um comércio digital predatório que inviabilizou a existência de muitas livrarias; a emergência de uma direita raivosa com pendores intelectuais; a digitalização acelerada do mundo provocada pelos efeitos da pandemia de Covid-19; a redução de recursos para a cultura etc. Ainda assim, me angustia que ela esteja outra vez em momento de retração. Quando eu fui setorista de Feira, o número de bancas na Praça nunca baixava dos três dígitos. Hoje, está ali pelos 80 – a área internacional se diluiu tanto que, na prática, talvez nem exista mais, com as bancas correspondentes simplesmente retornadas ao espaço principal da Feira. Mesmo que de volta ao seu espaço original na Praça, se veem ainda grandes vazios onde antes haveria mais bancas. Ao mesmo tempo, o fato de ela estar sempre lotada quando fui lá significa um alento. Conversando com livreiros e expositores, muitos me comentaram de sua satisfação com as vendas deste ano (os números consolidados só são divulgados pela organização ao fim do evento, depois do dia 15. Mas minha pesquisa informal foi feita com vendedores sorridentes, faceiros com a ampla circulação de pessoas e com a impressão de que o número de vendas este ano superará o do ano anterior. Aliás, embora o número de bancas tenha diminuído, me parece que há mais estandes com um perfil mais delineado, ampliando a variedade de títulos nas bancas de editoras com suas próprias propostas bastante específicas, como Zouk, Arquipélago, Coragem, Dublinense, a própria banca da L&PM. E há ainda a mistura rica e deliciosa dos sebos com seu balaio de gatos de títulos novos e antigos.
Parêntese: Aliás, se vocês aí quiserem dar um apoio a um autor local, no caso eu, meu romance Tudo o que Fizemos está na banca da Isasul. Fim do parêntese.
9 – Eu não acompanhei a Feira apenas nos anos em que trabalhei escrevendo sobre ela, claro. Na verdade, minha história com a Feira do Livro é meio que uma história de amor banal igual à de centenas de interioranos transplantados para esta Capital. Um dia, no fim de uma aula na faculdade em 1992, uma turma se formou na saída da Fabico e sugeriu-se uma ida até à Feira para tomar umas no bar do evento, na época localizado numa área cercada bem no centro da praça. Fui na jornada de ônibus com todo mundo e, ao chegar lá, pirei. Deixei os colegas tomando suas cervejas no espaço coberto e fiquei fuçando balaios e bancas. Ainda me lembro dos primeiros dois livros que comprei naquele dia: a coletânea de ensaios De Fato e de Ficção, de Gore Vidal, e Paisagem Pintada com Chá, romance do sérvio Miroslav Pavic – ambas adquiridas no à época mítico baú de saldos da Companhia das Letras, que só havia na banca da Sagra/Luzzatto. Tenho ambos os livros até hoje, diga-se de passagem, ambos sobreviventes de doações, perdas, esquecimentos, divórcios e abandonos. Minha relação com a Feira, cimentada nessa tarde, também.
10 – A Feira é um evento plural, cada frequentador tem a sua. O grande Sergio Faraco, por exemplo, adorava ir à Praça para encontrar amigos nas sessões de autógrafos. Com o crescimento da Feira, a Praça dos Autógrafos mudou de lugar por uns anos e me lembro de ter ouvido Faraco lamentar essa circunstância como um dos motivos pelos quais não ia mais à Praça com a mesma frequência. Algo que mudou, claro, no ano passado, em que Faraco foi patrono e eu o encontrei de passagem no centro da Praça. Tenho a foto para provar. Mas o fato é que ouvi também outros autores comentarem algo parecido ao longo dos anos: a Feira deles, a Feira com a qual estavam acostumados, estava mudando, e eles não eram necessariamente contra essa mudança, apenas tinham um pouco de dificuldade de reconhecerem no presente a memória de suas Feiras do passado. Reconheço que eu, agora com 50 anos, estou fazendo a mesmíssima coisa ao ponderar que já tivemos a Feira maior e mais ampla – não é por mal, a gente apenas tem saudade de quando era jovem e o mundo tinha mais possibilidades. Não importa tanto, acho, que não eu não tenha mais a Feira da qual eu sinto imensa saudade, a daquelas coberturas jornalísticas exaustivas para a qual eu dedicava meu trabalho.
O que me importa é que, por mais um ano, contra muitas adversidades, ainda temos, todos nós, a Feira.
Que a tenhamos por muitas décadas ainda.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Paulo Pinto / Agência Brasil

