Chega a ser surreal. No Brasil, quanto mais se faz política, quanto mais a democracia entrega resultados positivos, menos a população confia nos partidos. E menos, parece, os políticos fazem para reverter esse jogo…
Ou, mais provável, não sabem – ou, ainda, não querem se comunicar, já que, também, nunca se falou tanto como se fala agora em marketing político, comunicação, criação de reputação, gestão de crises, e nunca os políticos tiveram tantos meios de conversar com o povo e contar o que fazem com transparência e credibilidade. Isso, sem falar na grana dos fundos partidários que enchem os cofres deles…
Será que os políticos não aprenderam a lição que o Chacrinha repetia ao Brasil inteiro, todos os domingos, lá na década de 80 do século passado, com o famoso chavão “quem não se comunica se trumbica”?
Nestes tempos de verdadeiros tsunamis de desinformação, ruídos, memes transbordando nas redes sociais e pouca informação valiosa entregue ao povo, as instituições políticas – partidos, o Congresso, as Assembleias Legislativas, as Câmaras Municipais – precisam, com urgência, mostrar para que servem e o que fazem. Com transparência, verdade e presença constante na mídia. Seja na tradicional, seja nas redes, nos grupos de mensagens…
E precisam, os partidos, os políticos, entender que comunicar não é só falar, como se vê na maioria dos anúncios no horário político no rádio e na TV, naqueles, muitas vezes, chatos, pouco didáticos e quase nada críveis monólogos de 30 segundos.
Comunicar é emocionar, criar pertencimento. Que atenção os partidos dão aos filiados além de procurá-los para assinar o manifesto de criação e depois nas vésperas de eleições? Como ganhar confiança desse jeito?
Neste mundo de quase total automação, criatividade e sensibilidade são fundamentais para garantir confiança.
Olha o bolo que nem os políticos conseguem pegar nem um pedacinho. Temos o menor desemprego da história; o rendimento mensal médio do trabalhador, em março deste ano – de acordo com o IBGE – chegou aos R$ 3.378. É o maior desde 2012, impulsionado pelo aumento do trabalho formal e pelos programas oficiais de transferência de renda.
A corrupção tem sido combatida, corruptos estão sendo presos… Tem participação dos políticos nessas coisas boas. Não são exclusividade do Executivo e do Judiciário.
Mas uma pesquisa Quaest mostra que 63% das brasileiras e brasileiros não confiam nos partidos. Foram ouvidas 12.150 pessoas entre os dias 13 e 17 de agosto. Só 36% confiam e 1% não soube responder. Os números são exatamente iguais aos da mesma pesquisa realizada em 2022.
O índice de confiança no Congresso Nacional é pior. Pesquisa do portal Poder 360, também em agosto deste ano, mostra que 81% dos brasileiros não confiam naquela instituição, tida como o pulmão da democracia.
E motivos não faltam para essa desconfiança generalizada. Cada vez que têm a bola no pé, a maioria dos deputados, joga contra a Câmara. Parece não entender que o povo está mais atento, apesar de todas as tentativas de mantê-lo alienado, principalmente com a pandemia de fake news nas redes.
Temos dois exemplos recentes. No dia 16 de setembro, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a Proposta de Emenda Constitucional que ficou conhecida como PEC da Blindagem, que proibia o STF de abrir investigação contra parlamentares sem aprovação do plenário de uma das casas legislativas e garantia foro privilegiado aos presidentes de partidos, além de outros escudos, inclusive anistia aos golpistas do 8 de janeiro de 2023…
Mas o povo reagiu forte à tentativa de blindar criminosos. Num domingo, 21 de setembro, milhares de pessoas foram às ruas em várias cidades repudiando a decisão da Câmara. Quando chegou ao Senado, a PEC da Blindagem, também chamada PEC da Bandidagem, nem foi ao plenário. A Comissão de Constituição e Justiça, numa inédita unanimidade, rejeitou.
E eis que, passado pouco mais de uma daquele tiro nos dois pés, chega à Câmara dos Deputados o Projeto de Lei Antifacção, endurecendo o combate às organizações criminosas.
Para relatar o projeto do governo, o presidente da casa, Hugo Motta, nomeou o deputado Guilherme Derrite, também conhecido dos eleitores como Capitão Derrite (da PM paulista). Derrite é secretário de Segurança do governo de Tarcísio de Freitas, do Republicanos, mesmo partido de Motta. Tarcísio é apontado como provável candidato da direita contra Lula em 2026.
O capitão Derrite deixou a secretaria e reassumiu o mandato na Câmara. Poucas horas depois de nomeado, já apresentou o primeiro relatório a ser debatido na casa. Tinha desidratado tanto o projeto do governo que até a oposição desconfiou. De lá para cá, já foram quatro versões do relatório.
E já tem gente dizendo que Derrite está apresentando uma blindagem light. Ele propõe que a Polícia Federal só atue nos estados depois de comunicar eventuais operações às PMs e Polícias Civis… Isso quando se sabe da infiltração do crime organizado nos órgãos de segurança é caso contado… Como se viu no vazamento da Operação Contenção, que acabou com 121 mortos no Rio…
O PL Antifacção está parado na Câmara. Há mais tempo, está parada por lá a PEC da Segurança Pública, que promove integração dos órgãos de segurança federal, estaduais e municipais. Os governadores do campo da direita são contra. Alegam que vão perder autonomia.
Ao propor que a Polícia Federal peça licença aos governos estaduais para agir, o Capitão Derrite, sem usar as mesmas palavras, concorda com os governadores. Entre eles, seu chefe.
Recuperar confiança assim??? Mesmo que a democracia entregue, como está entregando, resultados positivos, essa desconfiança nos políticos, essa descrença na política pode gerar ceticismo em relação ao processo democrático e favorecer modelos mais autoritários, como temos visto em alguns países mundo afora.
Democratas, fiquem espertos!
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais

