Um dos novos termos da Novilíngua da contemporaneidade, junto com outros, tais como bullying, stalkeamento, crush (que, em priscas eras recifenses, era uma marca de refrigerante), é o termo burnout. Tal termo, oriundo da língua inglesa, desembarcou no Brasil por volta dos anos oitenta do século passado, primeiro nos círculos mais restritos da gestão de pessoas (e o adoecimento relacionado ao trabalho), e depois chegou às mesas de bar, às conversas familiares, aos videofilmes e literatura, às redes sociais, ao contexto mais amplo da vida social. Em excelente matéria publicada em sua coluna das terças-feiras na Folha de São Paulo (edição de 8 de outubro), sob o título de “Epidemia do sofrimento”, Mariliz Pereira Jorge alude aos tempos atuais em que a preocupação com indicadores de saúde mental ter-se-ia ampliado desmesuradamente, passando a fazer parte do zeitgeist cultural da classe média medianamente informada. Logo na abertura de sua coluna, a articulista comenta a cena psicossocial nos seguintes termos: “Dormiu mal? Ansiedade. Não rendeu? Burnout.”
Tal termo é atribuído ao psicólogo de origem alemã, radicado nos EUA, Herbert J. Freudenberger, mas ele próprio reporta que esta denominação metafórica, oriunda de denominação para tudo aquilo que se consome pelo uso, e por essa razão é descartado – como um palito de fósforo que, após riscado e usado para acender um cigarro, é destinado ao lixo, essa denominação teria sido sugerida por uma das pessoas em atendimento. Esta pessoa se referia a seus próprios sintomas, em contexto de atividade de trabalho, como alguém que havia perdido o ânimo, a motivação, a expectativa de futuro, e rebaixado drasticamente a própria avaliação em termos de desempenho profissional. Alguém desgastado, “queimado” (burn), passível, portanto, de descarte (out). Como bem demonstra o texto de Mariliz Pereira Jorge, o termo burnout rapidamente migrou dos círculos mais técnicos e restritos da gestão de pessoas e da medicina do trabalho para o domínio mais amplo do debate de ideias e perrengues da contemporaneidade.
Em livro excelente acerca do assunto, o médico psiquiatra Estevam Vaz de Lima trouxe reflexões críticas preciosas acerca da síndrome aqui em discussão, já refletidas no próprio título da obra: Burnout: a doença que não existe. Quem percorrer esse livro perceberá que não é intenção do Dr. Estevam negar a gravidade das vivências de depressão, ansiedade e rebaixamento de autoestima que acometem cada vez mais frequentemente as pessoas no contexto de trabalho (e, crescentemente, fora dele). O intuito desse médico e pesquisador é chamar a atenção para dois pontos cruciais para a devida circunscrição da síndrome de esgotamento profissional, aqui em debate. Em primeiro lugar, mesmo antes de o termo em língua inglesa se popularizar e se espraiar por países não anglófonos, os elementos constitutivos da síndrome já se faziam presentes. Nesse sentido, a metáfora do “fósforo queimado” proposta por Freudenberger apenas sistematizou um conjunto de sintomas já existentes, doravante aglutinados sob uma nova etiqueta taxonômica. Algo semelhante, permito-me observar aqui, teria ocorrido com a etiqueta nosológica do bullying. Burnout, portanto, não inaugura o domínio de conhecimento de uma síndrome até então desconhecida, apenas dá mais visibilidade a um conjunto de sintomas indicadores de precarização psicossocial do trabalho e, por aí, fortalece o vínculo de determinadas condições de trabalho e formas de adoecimento mental. Em segundo lugar, a atividade de trabalho tem no indivíduo-trabalhador um polo importante e incontornável, mas não pode se restringir a este indivíduo: há que se considerar, ainda, o contexto de trabalho (seja uma organização que engaja formalmente o trabalhador, seja um ambiente que proporciona ao trabalhador atuar autonomamente); e, além do contexto, não pode ficar de fora o ofício profissional, aquilo que o trabalhador oferece em termos de prática para a qual foi formado, seja em instituições de ensino/capacitação profissional, seja em termos de prática no mundo mais amplo.
A tríade referida acima – indivíduo trabalhador, contexto de trabalho e ofício exercido – está na base de tudo de bom e de ruim, de bem e de mal que possamos associar ao trabalho humano. Aqui incluído o burnout. Nesse sentido, certa tendência de situar no indivíduo a “doença” do burnout representa uma atitude perversa, que circunscreve um fenômeno complexo a algo assimilável à fragilidade, falta de resiliência, falta de “equipamento pessoal” (e a lista poderia se alongar) do indivíduo trabalhador. Nenhuma palavra é dita sobre uma estrutura de trabalho devoradora de gente, diante da qual manifestar sofrimento representa, antes, sinal de vitalidade. Nenhuma palavra é dita sobre eventuais degradações do ofício, em casos, por exemplo, em que este ofício está em franco processo de extinção, ou mesmo em situação de degradação sócio-funcional – como no caso dos “aspones”, os assessores de porra nenhuma.
Burnout não pode ser tratado como uma condição DO indivíduo, NO indivíduo, a ser exclusivamente abordado à base de medicação tarja preta, ou com paliativos clássicos como sessões de ginástica laboral, banhos de ofurô (o “ofurô corporativo”, aludindo aqui ao termo proposto pelo colega Mário César Ferreira), sessões de ioga e outros que tais. Aviso aos apressados que se apressem em coletar pedras a serem jogadas em quem se atreve a sugerir críticas a atividades maravilhosas como ioga, ginástica laboral, banhos de ofurô: longe de mim criticar essas iniciativas efetivamente positivas, valiosas. O problema é usá-las como forma de evitar tratar fontes importantes e EXTRAINDIVIDUAIS de agruras.
O Dr. Estevam Vaz de Lima, quando provocativamente alude ao burnout como uma “doença que não existe”, busca ampliar o escopo crítico de uma condição complexa, que não pode ser vista como um adoecimento DO indivíduo, mas como o comprometimento de uma estrutura organizacional inteira. Assim, se for o caso de abrir baterias em relação à síndrome do esgotamento profissional, popularmente conhecida como burnout, busquemos não perder de vista o caráter necessariamente transindividual, sistêmico do fenômeno.

Burnout não é fragilidade, nem neurose. Nem algo exclusivamente “seu”.
Todos os textos de Jorge Falcão estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

