Hoje eu queria criar essa crônica com um desejo quase leviano: escrever como se eu fosse Clarice.
Não escrever sobre ela. Não escrever como quem a imita. Escrever sendo a mulher que tinha autorização para ser estranha sem pedir desculpas.
Queria acordar com essa liberdade de não explicar demais, a de não concluir, a de deixar a frase pela metade como quem deixa uma porta entreaberta.
Talvez a psicanalista que escuta, talvez a mulher que escreve, anseiam por essa licença de não ser compreendida. De ser lida com um leve desconforto. De provocar aquela pausa silenciosa em que o leitor se pergunta: “mas o que ela quis dizer?”
Há uma coragem rara em sustentar o enigma. No consultório, exercito isso e até disponho disso por entender que não há outro meio possível para desvendar o labirinto do inconsciente. Ainda assim, vejo o quanto as pessoas sofrem por quererem ser claras, coerentes, organizadas e concisas. Preferem ver seu sofrimento catalogado, enquadrado e até medicado. Sofremos por não suportarmos a própria ambiguidade quando viver é exatamente isto: uma frase que começa em um idioma e termina em outro. Tal como um bom encontro.
Ser Clarice por um instante seria me permitir escrever assim:
Hoje eu não estou triste, estou líquida.
Hoje não penso, latejo.
Ser mal entendida não como falha, mas como consequência de ter ido fundo demais.
Talvez o meu desejo de escrever sendo Clarice não seja sobre dar-se permissão para abandonar a didática (essa que tantas vezes precisa me acompanhar nos textos, nas aulas, nos grupos de estudo) e me lançar na experiência bruta da palavra que ainda não sabe o que é.
Clarice não parecia escrever para agradar. Escrevia para sobreviver à própria intensidade. E eu suspeito que todo escritor, no fundo, queira isso: não o aplauso, mas o oxigênio.
Escrever como ela seria aceitar que nem tudo precisa ser traduzido. Que algumas frases são feitas para doer um pouco. Que a estranheza é uma forma delicada de verdade.
Hoje eu queria ser essa mulher que olha para um ovo e vê o universo. Que olha para um silêncio e vê um abismo. Que olha para si mesma e não se resolve. Mas hoje é a primeira quarta-feira de março e eu estou aqui, cumprindo as rotinas de uma vida organizada e necessariamente planejada, mas não sem estar sempre espiando para encontrar por aí, em alguma brecha, minha felicidade clandestina.
Todos os textos de Luciane Slomka estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução

