Quioto já começa diferente pelo que não tem: aeroporto. Talvez aí esteja a primeira pista do seu modo de existir. Para chegar, é preciso passar por outro lugar, confiar no sistema, entrar no fluxo coletivo. No nosso caso, foi deixando Tóquio para trás que inauguramos a experiência do Shinkansen — o trem-bala japonês — e do JR Pass, esse passe quase utópico que permite cruzar o país de trem por dias a fio. Foram mais de mil e quinhentos quilômetros percorridos com uma naturalidade impressionante e os 450 km entre Tóquio e Quioto se resolveram em 2h15. Para todos os destinos que experimentamos, há trens de hora em hora. Não é só eficiência: é a prova de uma aposta bem-sucedida no transporte coletivo como espinha dorsal do território. Rápido, seguro, confiável. Um pacto silencioso entre milhões de pessoas.
Quioto é também a chance de tocar a cultura milenar japonesa sem abrir mão da vida urbana cotidiana. Apesar de seus 1,5 milhão de habitantes, a cidade acontece na escala de uma cidade média. Nos bairros predominam casas e edifícios baixos, raramente acima de seis andares. Prédios mais altos aparecem apenas em algumas avenidas e, ainda assim, não passam dos quinze pavimentos. A cidade é majoritariamente plana, abraçada por montanhas onde se espalham templos e santuários, como se a paisagem natural participasse ativamente da vida urbana.
Na parte plana, a organização urbana chama a atenção Quadras de cerca de 100 por 200 metros se agrupam em uma malha de dez por dez quadras, formando o interior dos bairros. As avenidas bordeiam esse desenho, garantindo que se esteja, no máximo, a cinco quadras de uma via estruturante. O traçado lembra Nova York, mas a comparação termina no mapa. Dentro da malha, a vivência é outra: ruas estreitas, poucos carros, muita gente a pé ou de bicicleta, parquinhos, escolas, pequenos comércios, restaurantes de bairro, minimercados. Tudo misturado em ruas onde o ambiente residencial predomina.
O mais surpreendente, para nós, é que muitas dessas ruas sequer têm calçadas. Há apenas a pavimentação e faixas pintadas que delimitam a circulação dos carros e das bicicletas. Não existe iluminação pública tradicional. Cada casa, edifício ou comércio ilumina a própria fachada, e assim, coletivamente, a rua se ilumina. Pode soar estranho num primeiro momento, mas logo parece fazer sentido: talvez a educação para a responsabilidade civil comece aí, no cuidado cotidiano com o espaço compartilhado. Os térreos são luminosos, convidativos. E, numa cidade com transporte público abundante e estrutura para ciclistas, a maioria dos edifícios oferece apenas estacionamento para bicicletas. O carro aparece como exceção, um utilitário ocasional, às vezes estacionado ao relento, sem qualquer solenidade.
O cuidado com a cidade se reflete, de forma comovente, no cuidado com as crianças. Não é raro ver pequenos, a partir dos cinco anos, circulando sozinhos a caminho da escola. Levam mochilas amarelas que os identificam. Caminham concentrados, não puxam conversa, mas são observados por todos. A comunidade inteira parece assumir, silenciosamente, a tarefa de garantir que cheguem ao destino. Um símbolo poderoso de confiança e responsabilidade coletiva — algo que só se sustenta em sociedades onde as necessidades básicas estão atendidas. Mesmo numa cidade grande, cuidar das crianças é um dever compartilhado.
Para quem visita o Japão, Quioto, na minha opinião, é imperdível. Talvez seja onde o turista se sinta mais acolhido. Hospedagem e alimentação oferecem boa relação entre preço e qualidade. No coração histórico da região leste está Higashiyama, onde fica o Templo Kiyomizu-dera, com vista para a cidade. Mas o que mais me marcou foi o percurso até lá, pelas ladeiras Sannenzaka e Ninenzaka: ruas de pedra, casas históricas preservadas, lojinhas de artesanato, casas de chá. Pelo caminho, pequenos comércios oferecem petiscos para provar ali mesmo a culinária tradicional. Biscoitos, temperos, doces e salgados que desafiam nosso paladar. Só depois de experimentar é possível escolher. Voltei com um tempero para arroz que até hoje carrega a memória daquele lugar. A paisagem e a hospitalidade não são individuais: são um gesto coletivo dos comerciantes de cuidado com o patrimônio arquitetônico e culinário que tornam a experiência verdadeiramente especial.
A caminhada terminou às margens do rio Kamo, cuja borda funciona como um parque linear generoso. Pessoas sentadas, em silêncio, observavam a mudança de cor do céu no fim do dia. A canalização do rio chama atenção: muito mais larga do que o curso d’água em si, reservando espaço para grandes cheias. São cerca de 80 metros destinados ao rio urbano. Um contraste gritante com muitas cidades brasileiras, onde rios confinados dividem espaço com avenidas de seis ou oito pistas. Aqui, o respeito ao rio é também uma estratégia de segurança coletiva. Áreas verdes reduzem a velocidade da água nas cheias. E esse cuidado não é pontual: aparece em diferentes cidades, visto da janela do trem. Afinal, rios não obedecem a limites municipais. Cuidar deles é um acordo regional, um gesto de responsabilidade compartilhada.
Quioto reúne alguns dos lugares mais marcantes da viagem ao Japão: o Santuário Fushimi Inari Taisha, com seus milhares de portais torii vermelhos; o Pavilhão Dourado Kinkaku-ji que se reflete no lago; a Floresta de Bambu e a ponte Togetsukyom em diálogo com o rio. Toda essa riqueza cultural e ambiental atrai muitos turistas.
Como em outras cidades turísticas do Japão, o Airbnb em Quioto deixou de ser um arranjo doméstico e virou um negócio profissional. Há prédios inteiros operados por grandes investidores, com padrões semelhantes aos da hotelaria. Atendimento rápido, limpeza eficiente, manutenção constante. Guias informativos nos quartos, espaços para guardar malas, check-in automatizado no térreo. O que se vê é uma organização corporativa dominando o mercado de hospedagem por plataformas. O mesmo já está ocorrendo no Brasil, o icônico edifício Copan de São Paulo já possui agências operando muitos imóveis do complexo.
Esse cenário inevitavelmente leva à discussão sobre a taxação dos aluguéis de curta temporada — tema que vem ganhando espaço em cidades do mundo inteiro. No Brasil, porém, o debate costuma se concentrar no pequeno proprietário: aquele que herdou um imóvel ou fez um investimento pontual como complemento de renda. O problema é que, como em quase tudo no capitalismo contemporâneo, quem detém mais capital se adapta mais rápido, profissionaliza a operação e passa a dominar e expandir o mercado. Modelos corporativos são mais eficientes, mais lucrativos e, justamente por isso, precisam ser tributados de forma proporcional. A legislação já prevê diferenciações conforme o perfil do proprietário; o desafio é aplicá-las com clareza, fiscalização efetiva e coragem política.
O modelo de hospedagem por plataformas já apresenta impactos concretos. Muitas cidades vêm enfrentando o esvaziamento de áreas centrais impulsionado pela expansão desse setor, que acelerou o aumento dos aluguéis em regiões bem servidas por infraestrutura e equipamentos públicos — construídos com recursos coletivos —, expulsando moradores permanentes e enfraquecendo a vida cotidiana dos bairros. O resultado é uma cidade que funciona bem para quem passa, mas cada vez pior para quem fica. A regulação, nesse contexto, é fundamental para equilibrar essa conta.
Quando o coletivo perde espaço para o ganho corporativo, a cidade — enquanto projeto comum — se fragiliza. Não se trata apenas de uma disputa de mercado, mas de valores. No fim, quando o urbano deixa de ser pensado como bem público e passa a operar apenas como ativo financeiro, quem perde é a população local.
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Foto da Capa: Quito / Acervo da Autora.

