Ultimamente, os conceitos de “racismo reverso” e “genocídio branco” têm sido frequentemente utilizados em debates políticos e sociais, principalmente nos campos menos progressistas e liberais, liderados pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump. Com isso, torna-se perceptível um recrudescimento de pautas progressistas demarcadas pelos direitos humanos e sociais. Entendo que ambos os argumentos são frágeis e podem ser amplamente contestados.
Vamos explicitar com mais uma pílula sobre letramento racial, fundamental para estruturar nossa linguagem antirracista, fundamentando e analisando criticamente o que é racismo reverso e genocídio branco.
O racismo reverso é a ideia de que pessoas brancas podem sofrer racismo da mesma forma que pessoas negras. No entanto, o racismo é um sistema estrutural que historicamente marginalizou grupos racializados, especialmente negros e indígenas, por meio de sistemas de violência, opressão e discriminação sistemática e desigualdade social. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) do Brasil rejeitou, em fevereiro de 2025, a tese de racismo reverso, argumentando que o racismo é um fenômeno estrutural que não se aplica a grupos historicamente dominantes, no caso, a população branca.
Já o genocídio branco é uma narrativa promovida por alguns grupos políticos, geralmente os mesmos que se fortalecem com a ideia de racismo reverso, alegando que há uma perseguição sistemática contra pessoas brancas, especialmente em países como a África do Sul, e essa perseguição resulta em altos índices de homicídios.
É importante destacar que não há evidências concretas de que um genocídio esteja ocorrendo na África do Sul. O governo sul-africano rejeitou essa alegação, recentemente em uma reunião na Casa Branca, em Washington, afirmando que a violência racial no país afeta principalmente a população negra, especialmente desde o período do Apartheid (sistema de segregação racial e discriminação legalizada que vigorou na África do Sul entre os anos de 1948 e 1994).
Colocando esse recente acontecimento no contexto do segundo mandato de Trump, cabe citar que seu governo suspendeu verbas humanitárias da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) para o Plano de Emergência do Presidente para o Alívio da Aids (PEPFAR) que, entre outras funções, fornece tratamento antirretroviral a cerca de 680.000 mulheres grávidas com HIV para cuidarem de sua saúde e evitarem a transmissão do vírus para seus filhos. O impacto levou ao fechamento de 40 projetos de saúde na África do Sul, impactando mais de um milhão de pessoas, de acordo com informe do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids. O corte dos recursos, ocorrido em fevereiro, foi uma das obras do então chefe do Departamento de Eficiência dos EUA, Elon Musk, atualmente “ex-amigo” de Trump.
Ainda este ano, no mês de março, o governo estadunidense declarou o embaixador sul-africano em Washington, Ebrahim Rasool, “persona non grata”, por criticar a política de supremacia branca adotada no país. Por se manifestar, foi expulso dos EUA. Em publicação na rede social X, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que Rasool é um “político racista que odeia os Estados Unidos e Donald Trump” e que ele “explora questões raciais”.
Retomando a questão do Apartheid na África do Sul, vale recordar que essa lógica vem sendo desmantelada desde que Nelson Mandela – primeiro presidente eleito em pleitos livres – e Desmond Tutu – arcebispo e mediador político – dois ícones da luta anti-apartheid – propuseram um modelo de reconciliação e unidade nacional no país, focando um futuro inclusivo e democrático para todos, independente de raça, a partir da filosofia “Ubuntu – eu sou por meio dos outros”.
A articulação entre os argumentos do genocídio branco e do racismo reverso geralmente ocorre em discursos que tentam inverter, enfraquecer, banalizar ou relativizar a questão racial, sugerindo que pessoas brancas estariam sendo vítimas de discriminação ou violência sistemática da mesma ou maior forma que as pessoas negras, por serem brancas. Essas narrativas frequentemente ignoram o contexto socioeconômico, histórico e, portanto, estrutural do racismo, especialmente em uma nação onde, durante séculos, a comunidade branca foi enriquecida, fortalecida e não racializada. Penso que esse discurso é uma reação para deslegitimar políticas de reparação e justiça social, tão em voga e crescentes no mundo todo.
Como em outros textos que apresentei aqui na Coluna Odabá, na plataforma Sler, o racismo é um sistema estrutural que historicamente marginalizou determinados grupos raciais, especialmente pessoas negras, por meio de discriminação sistemática e desigualdade social. O termo “racismo reverso” não se enquadra na definição do racismo, pois não há um histórico de opressão sistemática contra pessoas brancas e nem mesmo que isso se perdure estruturalmente promovendo sistemáticas desigualdades sociais para as pessoas brancas como um grupo.
A ideia de um “genocídio branco”, que tem sido amplamente difundida por figuras como Elon Musk, que também compartilhou informações falsas sobre o tema, faz parte de uma estratégia complexa que inclui a teoria de conspiração neonazista e de supremacia branca. Isso incide diretamente nos processos de imigração africana, que ocorrem em todo o mundo por conta de várias questões que envolvem inclusive o racismo ambiental. Criar narrativas que fortaleçam a ideia de racismo reverso poderá, posteriormente, enfraquecer argumentos jurídicos sobre o tema.
A guerra racial, que há séculos é impetrada contrariamente às vidas negras, ganha novas narrativas, sempre com o mesmo objetivo de oprimir e enquadrar essas vidas em propósito de recolonização, de capitalização e de exploração. Não significa que estou legitimando ofensas ou discriminação a pessoas brancas. Acredito que qualquer forma de preconceito é condenável. Debato aqui a utilização ideológica de discursos que negam a história e seus reflexos sociológicos, jurídicos e econômicos.
Nas Ciências Sociais, área da qual sou oriunda, entendemos o racismo reverso como inexistente. Atos de discriminação racial de minorias contra maiorias (sociais) podem ocorrer, mas o racismo não é apenas individual. É, sobretudo, institucional e estrutural. Está ancorado em um domínio político e econômico que define quem é maioria e minoria social, não necessariamente numérica.
A ideia de racismo reverso é, inclusive, de ordem contraditória e inapropriada ao uso da linguística, pois a etimologia de racismo implica numa hierarquia de poder de um grupo dominante e opressor sobre outro. Sugere uma inversão nesta dinâmica de poder, que não só parece como é inconsistente.
Em suma, as ideias de “racismo reverso” e a narrativa de “genocídio branco” são construções (fake news) que buscam desviar o foco da realidade histórica e estrutural do tema racial, seja no Brasil, nas Américas, Europa e na África. Essas noções são frequentemente promovidas por grupos específicos e não encontram respaldo em evidências. Servem, em última análise, para enfraquecer as lutas dos movimentos sociais negros, indígenas e de mulheres por justiça social e igualdade racial, perpetuando um sistema que marginaliza esses grupos historicamente oprimidos e numericamente maiores se for se somando negros, indígenas e mulheres, cis ou trans.
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)
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