Tenho pensado muito que nosso problema maior é não assumirmos a grandeza de ser humano. Chegamos ao ápice da negligência neste tempo de distração permanente e, com isso, atingimos um grau de ansiedade absurdo. Estamos colapsando de angústia porque traímos covarde e brutalmente a nossa natureza. O que vemos, ouvimos e sentimos nos foi ensinado, dentro de um padrão que nos exige pouco esforço cognitivo, para ficarmos “confortáveis” seguindo a manada desatenta, assim não nos sentimos sós, isolados, diferentes. Mas nunca estivemos sós, não somos “indivíduos” isolados, somos um só corpo universal, filhos das estrelas – a separação é uma grave ilusão coletiva, como já atestou Albert Einstein: “Essa ilusão é uma espécie de prisão para nós”. É o que o Sistema quer, pois é a forma mais eficaz de controle, de nos manter alienados, empobrecidos. A nossa natureza é radicalmente outra e está dentro de todos nós, potente, imutável: fomos moldados, desde a primeira célula viva, para podermos ver, ouvir, sentir e perceber além.
Afortunadamente, uma rebelião pela verdade, a la Ghandi, digamos assim, já começou e a força maior está vindo da ciência. De uma celebração da ciência pelo que ela de fato é. A ciência que não serve mais ao poder, ao capital, às armas. A ciência que incorpora a experiência humana e, assim, permite a ruptura da dominação. Uma das iniciativas mais brilhantes está sendo empreendida por um cientista brasileiro, o teórico de física Marcelo Gleiser, que abraçou a busca da verdade em várias frentes e vem realizando importantíssimas experiências imersivas na sua The Island of Knowledge, na Toscana, leia aqui.
Hoje Gleiser está em Porto Alegre para uma palestra na Escola de Direito da PUCRS, Reconstruir e reencantar: ciência, consciência e o cuidado com a vida, a convite do Instituto Cidadania Cabanellos. À noite, fará o lançamento do seu novo livro: O Ponto Cego, por que a ciência não pode ignorar a experiência humana, Editora Record, escrito em parceria com o astrofísico Adam Frank e o filósofo Evan Thompson – sessão de autógrafos na Livraria da Travessa, do Shopping Iguatemi, às 19h.
Este livro se desdobra na fascinante série The blind spot podcast, que já está em seu 11º episódio e pode ser assistida pelo canal de YouTube de Gleiser, com legendas em português. A interação entre os três cientistas é fluida, espontânea, uma delícia de assistir: Marcelo com sua fala ritmada, didática, Adam com seu entusiasmo e humor e Evan com suas serenas explanações, sempre abrindo novas janelas de percepção em nossas mentes. “Quando tentamos compreender a realidade apenas por meio de coisas físicas externas imaginadas a partir dessa posição externa, perdemos de vista a necessidade da experiência. O Ponto Cego vai aonde nenhum livro de ciência vai, incitando-nos a criar uma nova cultura científica que nos veja tanto como uma expressão da natureza quanto como uma fonte de autocompreensão da natureza, para que a humanidade possa florescer no novo milênio”, comentaram.
No primeiro episódio da série, Evan trouxe um pensamento de seu pai – William Irwin Thompson, filósofo social, crítico cultural e poeta, fundador da Associação Lindisfarne, que propunha o estudo e a concretização de uma nova cultura planetária – a partir de uma ideia de ecologia: “Se você tentar criar uma cultura inteiramente fora da ciência, então será como ter um ecossistema com uma pobreza de espécies. Você precisa da ciência, da arte, da filosofia, da biodiversidade, etc. É melhor para a experiência humana. É melhor para a vida. Olhar a lua com um telescópio, escrever um poema, ou pintar, ou criar uma canção sobre a lua, todas essas perspectivas são complementares, é o mistério de quem somos como humanos, que tentamos dar sentido às coisas.” Na mesma hora pensei no compartilhamento também de perspectivas não humanas.
Tenho um gato de 11 anos que gosta muito de contemplar a chuva. Quando percebi isso, passei a me sentar em uma poltrona com ele no meu colo, na varanda, para observarmos juntos a chuva, em silêncio: são momentos especiais, que nos unem ainda mais, tenho certeza. Há também a troca com as plantas, que chega a ser mágica, como já me aconteceu duas vezes: uma orquídea bem seca em um vaso respondeu com floração repentina e intensa, um dia depois de participar de minha conversa transcendental com um amigo filósofo; em outra ocasião, um lírio igualmente seco em um vaso, ao me receber na volta para casa, depois de um retiro zen, captou ondas de minha energia transbordante e me ofereceu suas belíssimas flores, também no intervalo de apenas um dia. Sou profundamente grata por esses momentos raros e reveladores.
Gleiser vem falando bastante nessa interação com as plantas, desde que levou Monica Gagliano para o seu think thank The many kinds of intelligence: animal, human, plant, extraterrestrial, machine, planetary, emotional, na Toscana. Monica é uma ecologista que trabalha o conceito de cognição (incluindo percepção, processos de aprendizagem e memória) nas plantas para expandir a forma como o público as vê, assim como a toda a natureza, em relação à sua subjetividade e senciência. Gosto muito da imagem que Gleiser vem transmitindo da perfeição de nossa troca mais elementar com as plantas, elas nos oferecendo oxigênio e nós devolvendo o gás carbônico, que mal percebemos, mas pode ser o primeiro passo para vislumbramos a infinita beleza da interconexão dos seres vivos neste planeta abençoado.
No décimo episódio do The Blind Spot, Adam e Marcelo exploraram a estranheza da física quântica, desde os experimentos no final do século XIX, que forçaram Max Planck, Albert Einstein, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger a propor uma teoria muito estranha, mas bem-sucedida do muito pequeno. Abordaram também a questão da interpretação: o que a física quântica está nos dizendo sobre a natureza da realidade, se é que nos diz algo? Marcelo falou de Bohr, que usou o princípio de yin e yang para descrever a dualidade/unidade onda – partícula: um elétron não é uma onda e não é uma partícula, mas ele pode ser onda ou partícula, portanto é ambos em um só, dizendo que usamos metáforas para tentar descrever o que não conseguimos colocar as mãos.
Lembrei de Nietzsche: “A ‘coisa em si’ (tal seria justamente a verdade pura sem consequências) é, também para o formador da linguagem, inteiramente incaptável e nem sequer algo que vale a pena. Designa apenas as relações das coisas aos homens e toma em auxilio para exprimi-las as mais audaciosas metáforas. Um estímulo nervoso, primeiro transposto em uma imagem! Primeira metáfora. A imagem, por sua vez, modelada em um som! Segunda metáfora. E a cada vez completa mudança de esfera, passagem para uma esfera inteiramente outra e nova. Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos de árvores, cores, neve e flores, e no entanto não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem.” Ou seja, nossa percepção do mundo é sempre limitada. A objetividade que achamos que temos, na verdade não temos. A representação do círculo nunca será tão perfeita quanto a ideia do círculo, ou da cadeira, etc., etc.
Marcelo e Adam falaram também sobre Gary Zucav, autor de A dança dos mestres Wu Li. Neste livro, Zucav explica que a matéria é uma forma da ordem implicada, assim como um vórtice é uma forma da água – que não é redutível a partículas menores. “Como a ‘matéria’ ou qualquer outra coisa, as partículas são formas da ordem implicada. Se isto é difícil de captar é porque nossas mentes querem saber ‘o que é a ordem implicada e ordem implicada de quê?’. A ‘ordem implicada’ é a ordem implicada daquilo-que-é. Portanto, aquilo-que-é é a ordem implicada. Esta visão do mundo é tão diferente da que costumamos ter que, como Bohr acentua, ‘a descrição é totalmente incompatível com o que nós queremos dizer’. Isto se deve ao fato de nosso pensamento estar baseado numa forma antiga do pensamento grego. De acordo com este modo de pensar, unicamente Ser, é. Em consequência Não-ser, não é. Esta forma de pensar nos oferece uma ferramenta prática para atuar no mundo, mas não descreve o que acontece. Na realidade, Não-ser também é.”
Volto ao que falei no início da coluna: para mim isso é o pior de tudo, pois as metáforas que criamos são a partir de percepções moldadas pelo que nos foi ensinado, percepções baseadas nas expectativas criadas em nossa mente. É esse confronto que está na raiz de nossa angústia, cada vez mais premente. A mágica pode nos servir de exemplo para entender um pouco disso. Está no livro A trama da vida, do biólogo Merlin Sheldrake: “O filósofo e ilusionista David Abram, em shows no restaurante Alice’s, Massachusetts (EUA), fazia moedas rolarem por seus dedos e reaparecerem em outro lugar, então, desapareciam de novo, dividiam-se em duas e sumiam de vista. Uma noite, dois clientes voltaram ao restaurante logo depois de saírem e puxaram David de lado, aparentando preocupação. Quando saíram, disseram, o céu estava incrivelmente azul e as nuvens pareciam grandes e vívidas. Ele havia colocado algo na bebida deles? Ao longo das semanas, isso aconteceu outras vezes – os clientes voltavam para dizer que o tráfego parecia mais barulhento que antes; a luz da rua, mais forte; os padrões da calçada, mais fascinantes; a chuva, mais refrescante. Os truques de mágica estavam mudando a forma como as pessoas percebiam o mundo.” Sheldrake conta que David atribuía isso às percepções baseadas nas expectativas criadas, que nossas preconcepções criam os pontos cegos que os mágicos aproveitam. Por atrito, os truques com moedas diminuem a solidez de nossas expectativas sobre a forma como as mãos e moedas funcionam. Eventualmente, isso se estende a nossas expetativas sobre percepções mais gerais: “Ao sair do restaurante, o céu parecia diferente porque os clientes o viam como ele estava naquele lugar e momento, em vez de como esperavam que estivesse. Trapaceando nossas expectativas, retomamos os sentidos. O que espanta é o abismo entre o que esperamos encontrar e o que encontramos ao olharmos de fato.”
Quero citar ainda A grade de Hermann, a ilusão de ótica relatada pelo fisiologista Ludimar Hermann, em 1870, caracterizada por pontos “fantasmas”, que aparecem e desaparecem dependendo do ponto da grade onde fixamos o olhar. Quando olhamos para um ponto, deixamos de ver outro e assim por diante. Ela é o exemplo perfeito de como nossa percepção está repleta de pontos cegos. Mas podemos abrir a mente e deixar os pontos cegos explodirem nossas concepções cartesianas. Não vou me alongar mais, pois agora já estou na grande expectativa de ler o novo livro de Gleiser com seus parceiros: “Enxergar as rachaduras escondidas sob as lentes daquilo que tomamos como verdade e que está na raiz dos dilemas científicos relacionados ao tempo, à origem do universo, à física quântica, à vida, à mudança climática, à inteligência artificial, à matéria, à cognição, à mente e à consciência”, conforme a descrição da Editora Record.
Todos os textos de Vera Moreira aqui
Foto: montagem digital VM com a contra-capa de O Ponto Cego e imagem de Evan Thompson, Marcelo Gleiser e Adam Frank

