Marcelo Gleiser é um astrofísico brasileiro com carreira internacional reconhecida, que coloca nosso país em destaque no campo das ciências e suas diversas ramificações – incluída a da espiritualidade/religião, que ele abraça com extrema lucidez e inteligência, o que elimina qualquer preconceito, como o fazem também vários outros cientistas e pensadores contemporâneos, de diversos países, que já percebem e trabalham por uma nova ordem mundial. Mas é tarefa hercúlea, que exige coragem e empenho absolutos, pois enfrenta a resistência do poder econômico, assim como a falta de conhecimento e a arrogância de parte da população e da mídia. Depois de décadas nos Estados Unidos, Gleiser mudou toda a sua vida e foi para a Toscana, na Itália, onde inaugurou The Island of Knowledge, a Ilha do Conhecimento, em outubro passado. Desde então, vem intensificando suas ações neste sítio histórico, extremamente simbólico e significativo, e trazendo para o Brasil um recorte dessas vivências.
Para tanto, firmou parceria com o Instituto Cultural A-Capivara, de São Paulo, com o projeto Reescrever a Humanidade, que conecta diretamente aos think tanks realizados na Toscana. Com essa rede de pensamento e de florescimento humano, concretiza o propósito de democratizar o acesso ao conhecimento científico e filosófico. As aulas online e ao vivo começaram no início deste ano e são oferecidas a preço acessível, permitindo uma troca direta com Gleiser sobre ciência, espiritualidade, inteligência artificial, meio ambiente e o lugar da humanidade no cosmos. Assisti a todas as aulas e foi sempre enriquecedor. No sábado retrasado (28.06), Gleiser ministrou um formato diferenciado, com duas horas e meia abertas para perguntas. Apresento o questionamento que fiz a ele e a transcrição de sua resposta. A próxima aula será no dia 30.07 e deixo o link no final da coluna. Vale muito a pena se inscrever e participar dessa discussão fundamental para o nosso futuro e o do planeta.
Vera Moreira: Você diz que trilhões de neutrinos do Sol atravessam nossos corpos a cada segundo, fazendo uma ponte direto do coração do Sol para os nossos corações e também que o conhecimento adquirido com a Física no século XX estabeleceu as bases para que a Biologia neste século XXI esteja avançando em estudos importantíssimos. Minha pergunta é: o entendimento da complexidade e mistério dos corpos vivos poderá ser determinante para a consciência do que somos?
Marcelo Gleiser: Ótima pergunta, Vera. Olha, com certeza absoluta, eu acho que não há a menor dúvida, e você falou muito bem, de que a física do século XX, aliada à biologia do século XX e XXI, está transformando o nosso conhecimento do que é vida. Eu acho que não tem nenhum assunto, hoje em dia, mais de ponta, mais com a promessa, vamos dizer assim, de grande desenvolvimento, de crescimento de conhecimento mesmo, do que essa questão da vida. Eu estou escrevendo um livro novo agora, em que eu, literalmente, ontem, escrevi uma frase mais ou menos assim: nós, na escola, aprendemos que existe a física ou a biologia, são matérias diferentes, a física ou a biologia, ou a química, ou a matemática, ou as ciências da Terra, ou as ciências do ambiente, e agora, com a questão da vida, a gente está entendendo que é a física E a química, e a biologia E a matemática, E ciências da Terra, E ciências do ambiente, não existe mais o ou, o outro, aquela compartimentalização do conhecimento que faz parte das nossas escolas, das nossas universidades, dos nossos diplomas, aquela coisa bem tradicional, iluminista e pós-iluminista do século XIX, de dividir o conhecimento em matérias específicas. Está começando a ser ultrapassada justamente por causa desse avanço no que a gente está estudando agora do que é vida. Porque a biologia estuda o que a vida faz, mas não o que a vida é. E essa questão de o que é a vida, de como a vida se desenvolveu, da não-vida, como que química ficou viva – que eu já mencionei aqui antes – é um dos maiores mistérios da ciência moderna e a gente só vai entender isso se a gente fizer esse casamento entre essas várias disciplinas, que é exatamente o que eu estou fazendo agora nos meus projetos de pesquisa. É o que estou desenvolvendo agora aqui e também fora daqui, em colaboração com pessoas de lugares diferentes do mundo, um megaprojeto que é a física da nossa capacidade de agenciamento da vida, como que a vida é capaz de entender que precisa viver e agir para isso. Lembra que eu mencionei a história da bactéria lá no início? Como é que a bactéria sabe que precisa comer açúcar para poder viver? E não só ela sabe que precisa, como ela vai onde tem açúcar, ou seja, ela é capaz de decodificar a informação de onde está o açúcar, “está no armário da cozinha”, e de se mexer naquela direção. Isso se chama quimiotaxia, se mover em uma direção. Como é que uma bactéria, que é uma célula só, não tem cérebro, não tem nada disso, é capaz de fazer isso? Ninguém sabe. E para você entender isso, você tem que entender não só de biologia, de bioquímica, mas de física, de teoria da informação, de ciências do ambiente, porque o ambiente determina as capacidades e os tipos de vida que existirão. Não adianta nada ser um peixe no alto de uma montanha. Então, essa questão de adaptabilidade e como isso determina o tipo de vida que você é e, portanto, o tipo de capacidades que você tem, enquanto ser vivo, é fundamental. Então, é, sem dúvida nenhuma, por aí mesmo, Vera. Boa.
Neste ponto, Ana Marta Cattani, diretora de A-Capivara, comentou: Tem junto a física, química, biologia, tudo, não é?
M.G.: Isso. Hoje em dia tem uma matéria, uma nova disciplina, que surgiu há alguns anos, chamada astrobiologia, que é o estudo da vida no universo, não só na Terra, mas fora da Terra. O último livro que escrevi, Despertar do Universo Consciente, é sobre isso. É o livro sobre o nosso futuro coletivo nesse planeta e para eu contar por que esse futuro coletivo é fundamental, eu tenho que contar toda a história da vida na Terra. Por que a Terra é um planeta especial, e esse tipo de narrativa é um tipo de narrativa que chama todas as outras disciplinas juntas. Você precisa de física, de química, de biologia, de botânica, de astronomia, então, tudo se mistura quando a gente tenta falar um pouco mais sobre a questão da vida, que para mim é fascinante.
Acompanho o trabalho de Gleiser desde que ele lançou A dança do universo – Dos mitos de criação ao Big-Bang, em 1997, um livro lindíssimo, fundamental. No ano passado, escrevi meu TCC do pós-graduação em Ciências Humanas, na PUCRS, inspirada na sua trajetória – era professor no curso – e você pode conferir aqui na Sler, publicado em 13 capítulos, de janeiro a março. Durante a aula na A-Capivara, Gleiser deu uma notícia importantíssima, de que está em fase final de acertos para inaugurar uma filial da Ilha do Conhecimento no Brasil.
Link de inscrição para a próxima aula:
O universo desconhecido: do Big Bang ao Multiverso, com Marcelo Gleiser - online - Sympla
Links dos projetos que Gleiser compartilhou no chat da última aula, A Humanidade em busca de si:
Pense como um Cientista — Island of Knowledge
The Blind Spot com legendas em português
Curso Física para Poetas
Rio Innovation Week 2025 - A Maior Conferência de Tecnologia da América Latina
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: The Island of Knowledge / Divulgação

