E se Romeu realmente encontrasse Julieta após sua morte? Teria valido a pena morrer? E se não precisassem morrer para viverem seu grande amor? Teria valido a pena viver? Vida e morte. Vida antes da morte, morte após a vida, vida após a morte. Morte antes da vida, morte andando na vida. O vizinho, dia 2 de novembro deste 2025, celerado como dia dos finados, provoca-me a pensar na vida quando me desafia a refletir sobre a morte. “A morte, surda, caminha ao meu lado e eu não sei em que esquina ela vai me beijar”, cantou Raulzito, imaginando que a morte, talvez, “seja o segredo desta vida”. E eu caminho por entre vivos, arrastando meu cadáver, experimentando a morte a cada respiração, no perluzir de suor, no turbilhão de emoções causadas pelos humores, na teimosa busca de completude que não termina.
Abraço minha vida como o pimpolho que agarra a bola num jogo que me surpreende a cada passo. Minha participação no esporte depende, porém, da minha destreza em jogar. Tenho a bola, mas sou uma negação como atleta. Sou aquele animal incompleto. Nem a vida que tenho pode ser chamada de minha. Sou servo de leis fatais e nelas está fincada minha corporeidade. Sou um corpo sem sê-lo unicamente. Eu não estou, no entanto, em um corpo; eu sou um corpo! Um corpo sou que morre para poder nascer: abre mão do aconchego amniótico para ser parido quando a natureza convoca, sem levar em conta meu murmúrio. Sou um corpo que chega desprovido de um repertório a um mundo dos outros. Esse corpo cumpre o desiderato de chamar-se corpo, de produzir sentidos, de entender os próprios impulsos. Vejo-me, entretanto, como um corpo para além de meu próprio corpo. Há algo que não posso controlar e que me puxa para fora, para um depois, para um além. Minha imanência flerta e deflagra concomitantes tensões com minha transcendência. Coloco a questão do eu: quem sou? Se sou, cheguei de que lugar? Se estou aqui, estou apenas para uma passantia cheia de inutilezas. Ou há uma tarefa a ser realizada? Se sim, quem a determina? Eu? Quais, de fato, são as diretrizes dessa coisa de estar para algo? Posso chamar de existência? Sim, contudo, ao final e ao cabo, resta-me morrer. Novamente partir! Minha chegada foi uma partida chamada nascer. Minha outra partida chama-se morrer. Blanchot (1987) refletiu que a experiência da morte atravessa a existência humana do início ao fim. Estou parindo a morte no contínuo ato de parir a vida, mas amo viver. Amor como falta, originado do desejo por algo que não se usufrui, uma tentativa de suprir um vazio. Busca de completude. Amo a vida que posso vir-a-ser e dou de mim toda energia para constituí-la em mim.
A morte é um tema fundamental, e, explorando-a sob diversas perspectivas, que vão desde a aniquilação absoluta até a passagem para outro estado de existência, filósofos como Montaigne relacionaram-na à liberdade, enquanto Heidegger definiu o ser humano como o “ser para a morte”. Outras correntes filosóficas a interpretam como a cessação de toda a consciência e existência, ou como uma parte natural do ciclo de vida e morte, como na filosofia de Schopenhauer. Os filósofos cristãos postulam que a morte não é um fim definitivo; ao contrário, é uma passagem para a vida eterna, guiada pela fé e pela promessa da ressurreição. O pensamento agostiniano ressalta que o falecido passa para a “morada do Criador”. Tomás de Aquino defende a imortalidade da alma humana. Kierkegaard considera o desespero uma “doença mortal do espírito”, que se manifesta quando o indivíduo não consegue relacionar-se com Deus. A morte, para ele, é uma possibilidade real que deve levar o ser humano a confrontar sua finitude e a tomar decisões existenciais que o direcionem para uma vida de fé e sentido, ao invés de entregar-se ao desespero. Boff, por sua vez, alcança a morte como “o lugar do verdadeiro nascimento do homem”, quando o fim torna-se o início de uma nova vida. Essa visão existencialista cristã considera a morte não como aniquilação, mas como uma meta alcançada que leva a um novo processo de existência, um novo começo.
Morte e vida, um único laço que se desdobra. Amo a vida que é fluir, deploro a morte que já é, que está como permanente devir. Gil cantou que “se a morte faz parte da vida; e, se vale a pena viver, então morrer vale a pena, se a gente teve o tempo para crescer”, convocando a abraçar a morte como “uma linda ninfa nua”. Pode ser correto postular que a partida da vida é a morte. Se a vida é só expressão biológica, nada mais é certo. Como diria Pessoa, “viver não é preciso”. Não há bulas, regras, normas que determinem a priori a experiência do viver. Viver é, na verdade, fascinante, e as potencialidades que habitam a carne e o espírito movem-na em uma perspectiva de fazê-la sempre mais. Por isso, viver é um desafio permanente, e o pensamento da morte quase sempre alimenta tristeza. Eu estou a desvencilhar-me das fezes e urinas dentre as quais fui parido e devo tornar-me verme, adubando o útero da mãe-terra. Natureza, pura natureza. Vida fincada na vida… uma hora, chamada morte. Então, apego-me a professar fé no infinito no qual tudo se transforma.
Eu penso que assumir o desafio de construir a vida e mover-se pela vontade de viver não implica renunciar à morte – o que, aliás, é impossível. Essa não é uma prerrogativa nossa, já que mobilizamos o próprio cadáver onde habitamos. Só uma vida assumida com toda consequente angústia e sofreguidão possibilita, no entanto, produzir um sentido para si e, consequentemente, para a morte. Talvez, por isso, Kierkegaard enxerga dureza na decisão de lutar pela vida.
Esse movimento do transitar vivente, na ciranda de produzir vida, parece-me detalhe profundamente sedutor, pois nos induz a buscar mais vida desde o nosso lugar de inconclusão, desde a dor que atravessa a existência, desde a morte que é sua companheira. Nietzsche avisava que “tudo vai, tudo volta; a roda da vida gira sem cessar. Tudo morre; tudo volta a florescer; correm eternamente as estações da vida”. Em Dostoiévski, a morte não é apenas um fim, mas um evento catalisador que revela os aspectos mais profundos da natureza humana, da fé, do desespero e da possibilidade de redenção.
Celebramos os mortos em contrita oração, rogando a um Deus imortal que seja benfazeja a vida no além. O ingresso para o espetáculo da eternidade é, afinal, a morte. Chama-se “vida eterna”? Dessa nada sabemos, nada podemos dizer. Não temos nada de nosso. A natureza nos produz em simplicidade. “Olhai os lírios dos campos”. Esse estar despido e desprovido não é uma condenação, é uma condição. Pensar a morte é talvez uma forma de libertar-se. A psicanálise captou na busca da morte uma busca pelo gozo. Um gozo libertador. Possivelmente naquilo que Aristóteles chamou de bem aparente. A questão é, porém, que a morte recorda nossa condição de esboçamento. Questiona o apego, os caprichos, a vaidade, as ilusões. Não conseguimos programar a morte e dela não somos senhores. Nós a carregamos de empréstimo. De igual forma, o planejamento da vida não passa de simples indicação de intentos. O pensar a morte pode constituir-se um novo modo de gozar, imensamente sedutor, por aquilo de enigmático que ela significa. Se o transitar, de fato, implica travessia sob o nada. O nada implica nosso próprio vir-a-ser. Lembro a melodia na qual o artista registrou jurar mentiras e seguir sozinho… “E o que me importa é não estar vencido”.
Hoje, quando o planeta geme e chora, todos são instados a colocar a vida em questão. Dizem os cientistas que o cérebro nos protege de pensar a morte; a morte seria o impensado da vida. O previsível mais imprevisível. Segundo Lino (2019): “Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas, descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia”. Pascal considerava muito difícil pensar na morte sem morrer. Não se propõe certamente pensar a morte pela morte. Eu penso que a reflexão sobre o impensado da vida dá-se em função de mais vida. A meditação sobre a morte coloca-se na direção de uma vida mais plena de sentido, de simplicidade e de busca de felicidade. Quiçá nos coloque na consciência do serviço. Como bem lembrou um amigo: “non serviri, sed servire nascimus!”
Verdade! Somos essa terra a agonizar, o ar a esvair-se, a água a acabar-se. E o fogo! É ele que queima o último respingo de hipocrisia de um vivente supostamente feliz. Somos a mãe que chora a agonia do filho nos Orientes destruídos pelas ganâncias, nos Ocidentes acidentados pelas soberbas. Enfim, somos também o suspiro do poeta, o delírio do embriagado, a voz do seresteiro, a mão estendida procurando vida.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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