Uma nova ordem social entre homens e mulheres* vem avançando no mundo todo, mas ainda está longe do ideal, com diferentes estágios em cada país. A resistência, consciente ou inconsciente, coloca especialmente as mulheres em situação de vulnerabilidade. Mas também pode atingir os homens, especialmente no campo psicológico, pois é mais difícil se adaptar a uma nova ordem que implica perda da hegemonia. As mulheres assimilam mais rapidamente as mudanças, como a transição do lar para o mercado de trabalho, porque a liberdade está atrelada a este movimento. Poder decidir o seu destino é, talvez, a maior das ambições do ser humano e as mulheres foram alijadas deste direito por milênios.
A herança do ambiente social, que começa com nossos pais, mas se estende bem além deles, ao ponto de incluir toda uma cultura, com seus fios estendidos por milhões de anos, deixou marcas em nossos genes, como apontam os recentes estudos de epigenética**. Isto é importante para entendermos a força física do homem como um diferencial entre os sexos, que servia – e ainda pode servir – ao macho para proteger, mas também dominar a fêmea. Carregamos, especificamente, uma cópia dos mesmos genes dos nossos ancestrais de pelo menos 30 a 40 mil anos atrás e essa marca biológica, ainda hoje, pode se manifestar através da força nos atos de estupro, de intimidação e opressão a mulheres.
Em bandos ancestrais, o macho roubava fêmeas dos rivais, violentamente, quando necessitava. A subsistência, no entanto, era dividida igualitariamente entre homens e mulheres, com tarefas distintas para prover alimentos ao grupo. No Paleolítico (o mais longo período da história humana, de 2,7 milhões de anos até 12 mil a.C.), enquanto os homens caçavam, as mulheres dominavam o território próximo das cavernas – estavam limitadas em seus movimentos devido aos cuidados com os bebês, as crianças e os idosos –, identificando e memorizando locais onde obter raízes, sementes, vegetais, cogumelos e frutas, assim como os riachos para o abastecimento de água. Já no Neolítico (entre 12 mil e 4 mil a.C.), as mulheres manejaram as primeiras ferramentas para o plantio das sementes e foram observando as plantas e testando o cultivo, assim como criando mamíferos e aves. Elas fabricaram também os primeiros recipientes para o armazenamento da comida, tecendo redondas cestas e modelando potes de barro. A aldeia em torno das plantações se desenvolveu como o ninho coletivo para o cuidado e a nutrição dos filhos, a proteção dos alimentos e animais domesticados e a segurança, que permitiu muito mais sexo, aumentando o número de aldeões e consolidando um novo padrão de vida, pacato e estável.
Mas foi justamente a partir da agricultura no Neolítico que o papel da mulher na ordem comunitária se enfraqueceu. O macho caçador, que sobreviveu em um novo papel de proteger a aldeia de predadores como o leão, o lobo e o crocodilo, se impôs como um chefe primitivo. Transferiu sua perícia em matar animais ferozes para a vocação mais altamente organizada de arregimentar ou matar outros homens, abrindo caminho para a subida ao poder. Tornou-se o senhor da guerra, o senhor da lei e também o senhor da terra, fazendo surgir a realeza. Fincavam-se as raízes para a sociedade patriarcal, da supremacia masculina e desvalorização da identidade feminina, com todas as suas decorrências.
Saltando para a Revolução Industrial (século XVIII), o uso de máquinas para produção em série viabilizou uma mão de obra que não exigia grande força física e as mulheres – e até crianças – foram recrutadas, com salários reduzidos em relação aos dos homens e ainda enfrentando condições insalubres de trabalho, tanto físicas (as fábricas têxteis, por exemplo, eram tóxicas) quanto morais (abuso sexual e desassistência aos filhos). O que poderia ter sido emancipação, se tornou sinônimo de exploração: as mulheres exerciam apenas as tarefas mais mecânicas e repetitivas, nunca cargos de decisão e responsabilidade. E ainda cumpriam dupla jornada de trabalho, pois continuavam responsáveis pelas tarefas domésticas – o que persiste em nossos dias. Com o fim da I Guerra Mundial e a indústria cada vez mais forte, os homens voltaram a predominar e a mão de obra operária feminina se reduziu à complementação da renda masculina no orçamento familiar.
Uma sociologia urbana começou a ser delineada com foco nas famílias, estabelecendo regras de comportamento, de papéis sexuais, casamento e maternidade. As mulheres passaram a ter suas capacidades físicas e mentais medidas e comparadas às masculinas, sendo inferiorizadas por um discurso científico que visava submetê-las à tutela de uma autoridade masculina, tanto na esfera doméstica como pública. As que se aventuravam a questionar a ordem estabelecida eram rotuladas de histéricas e muitas vezes internadas em hospícios e asilos. O discurso da diferença biológica entre homens e mulheres assumia um caráter universal e imutável, construído e reconstruído no entrecruzamento das narrativas em medicina, psicanálise, religião, direito, etc., atravessando todas as relações sociais e, dessa maneira, legitimando-se. A elaboração dos Códigos Civis e das Constituições de todo o Ocidente acabou por justificar a situação em que o sexo feminino foi colocado. Essa divisão entre público e privado exacerbou as desigualdades entre os gêneros.
No final do século XIX, um grupo de mulheres se organizou através do movimento das Sufragistas na Inglaterra. Inicialmente de forma pacífica, foram ridicularizadas e ignoradas pelos homens. Então, começaram a denunciar o despropósito de leis inglesas, como a Lei dos Pobres reescrita, livre de amarras e restrições, para desenvolver intensivamente o capitalismo industrial, que desprotegia filhos ilegítimos de moças e adolescentes, algumas quase crianças. As Sufragistas passaram a pressionar o governo e a sociedade por direito ao voto para que as mulheres pudessem ser representadas e conquistar um mínimo de direitos civis. Foram agredidas, espancadas, levadas à prisão; muitas adoeceram, outras morreram, mas as inglesas conquistaram o direito ao voto. Nas Américas, a Constituição dos Estados Unidos, promulgada em 1787, só em 1919 definiu o direito de voto para as mulheres. No Brasil, a Constituição de 1934 consolidou esse direito.
Calar a voz atávica que embota nossa consciência e progresso como espécie não é tarefa simples. Mas o ser humano pode se aceitar como um processo de “tornar-se”, muito mais do que de ser um “produto” acabado. O momento é de relevância histórica sem precedentes – já caminhamos muito – e podemos, enfim, nos transformar por meio de relações saudáveis e pacíficas, relações humanas em casa, no trabalho, nas ruas, na comunidade e na política. Com relações humanas, não precisamos de dominadores e dominadas, caminhamos lado a lado, homens e mulheres, ganhando confiança uns nos outros e prezando a paz.
*Aqui estou tratando das questões mais especificamente femininas no quadro tradicional homem/mulher, que eu acredito estarem na origem da disfuncionalidade social e mesmo na resposta que surgiu na virada deste século, com a ideologia de gênero e novas tecnologias, desde cibersexo até uma espécie de fractalização dos sexos: mulheres do sexo masculino, homens do sexo feminino, homossexuais, pansexuais, assexuais, bissexuais, transgêneros, transexuais, etc.
**A epigenética é o estudo de modificações herdáveis na expressão gênica que não envolvem alterações na sequência do DNA. É como se o ambiente pudesse "ligar" ou "desligar" genes, sem alterar a própria sequência do código genético. Essas mudanças podem ser transmitidas de geração em geração e podem ter um impacto significativo na saúde e no desenvolvimento de um indivíduo.
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Foto de capa: Reprodução de ilustração do site Eu quero Biologia

