Minha fala na VI Conferência Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres, no dia 13 de setembro, às 9h30min, no Hotel Ritter, não aconteceu. Cheguei às 9h, conforme o combinado, bem animada. Até o meio-dia foi muita discussão. E as palestrantes ali, à deriva. Então, me retirei. Mas não quero perder o que pensei e escrevi para dividir com o público.
Breve reflexão sobre a Construção de Políticas Públicas para as Mulheres, o que envolve mais Democracia, mais Igualdade e, claro, Acessibilidade,
Inclusão e Diversidade.
É um desafio estimulante compartilhar experiências, desejos, necessidades e inquietações que cercam a vida das mulheres. E, certamente, de mulheres que, como eu, têm uma diferença marcante. A pergunta que faço é: Como falar em democracia, igualdade e conquistas sem falar em direitos, diversidade, inclusão e respeito? Sem falar de políticas públicas efetivas – que combatam o machismo, o preconceito de qualquer
natureza e contribuam para a segurança e a dignidade do universo feminino? O que dizer do feminicídio que cresce assustadoramente? Só no primeiro semestre deste ano mais de 36 mulheres foram assassinadas no RS e foram registradas duas agressões a cada hora – um empurrão, um tapa, um grito, um deboche são sinais que precisam ser observados com atenção e denunciados. As microagressões, muitas vezes disfarçadas, são cotidianas e perigosas. Mas os agressores negam, ameaçam, jogam a culpa nas vítimas e, muitas vezes, o medo de denunciar se instaura. A Lei Maria da Penha está aí para mostrar, combater e denunciar esta cruel realidade.
As mulheres precisam de força e coragem para não cair nas ameaças e justificativas que minimizam as denúncias.
Os espaços de legitimação do universo feminino ainda são pontuais e frágeis. É fundamental entender que as mulheres hoje, assim como estão na cozinha, no cuidado da casa e dos filhos, estão no mercado de trabalho, ocupam cargos e muitas, sozinhas, garantem o sustento, a saúde e a proteção da família. São determinadas, mas seus direitos ainda são percebidos de modo superficial. Precisamos respirar fundo e seguir estimuladas pelo desejo de viver em uma sociedade que respeite as pessoas, independente do sexo, da condição física, intelectual e social, da idade, aparência, raça, cor da pele, gênero. Uma sociedade que respeite todas as diferenças. Ninguém é igual a ninguém e não queremos a “normalização” que enquadra e segrega. O que há de concreto no cotidiano das mulheres? O que dizer da busca por respeito diante do capacitismo que permeia os ambientes e muitas vezes nos vê como seres inferiores ou menos capazes?
São muitas as inquietações e muitas as perguntas. Mas o que percebo efetivamente é a exigência de normalização para a vida em sociedade. Uma cruel inversão de valores porque não são as mulheres que devem “normalizar-se”, “submeter-se” ou “superar-se” para a sua integração social. A sociedade é que precisa agir para atender às necessidades de sua gente múltipla. Mas o que aparece é uma inércia, proposital ou não, no sentido de esperar que nós superemos barreiras, sejam quais forem. Falo de pessoas adultas que precisam ser respeitadas para exercer seus direitos e deveres com autonomia e em condições de igualdade.
Queremos dignidade para viver a nossa condição.
Esta é uma questão que deve ser assumida pelos governos, em todas as esferas públicas, em parceria com as empresas, as comunidades, as famílias e as escolas. Mas para isso precisamos desacomodar conceitos seculares e mostrar que a sociedade é o resultado da soma das diferenças e não de indivíduos hipoteticamente iguais. Possibilitar a independência das pessoas é efetivar um direito social. Nós, mulheres, não podemos nos violar nem física nem emocionalmente ou nos submetermos ao narcisismo masculino na busca de um lugar que já nos pertence desde o nascimento. Viver sob a expectativa da superação é viver sob uma contínua cobrança. Não há o que superar! Há que se viver!
A grande tarefa é educar para a diversidade. Falar, ensinar, dialogar e dividir experiências é um compromisso que não pode ficar para amanhã. Alertar e sensibilizar a sociedade para as limitações das pessoas e reivindicar direitos e políticas públicas que priorizem o respeito, a inclusão, a acessibilidade, por exemplo, é fundamental. Uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa, na escola, no
trabalho, na rua, nos espaços públicos. É um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades. É preciso entender os limites de uma mulher – uma mãe ou uma pessoa com deficiência. Estimular sua inserção no trabalho, acolher e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.
Ver o outro com sensibilidade é transformador.
É importante lembrar que tijolo por tijolo desta construção que chamamos VIDA é resultado de muitas cabeças, braços e pernas, que devem andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Se não tivermos anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita, o que será de nós seres humanos? Ninguém é inferior a ninguém. Por que nos é tão difícil o pensamento
coletivo, livre de preconceitos? Queremos ou não viver em uma sociedade que derrube barreiras ao invés de erguê-las? Uma sociedade capaz de construir políticas públicas voltadas para as mulheres, que respeite suas conquistas e suas singularidades? Falo de mulheres que precisam ser inseridas no mercado de trabalho com igualdade para exercer seus direitos e deveres com autonomia. Não estamos em competição! O que buscamos é viver em uma sociedade democrática, diversa, inclusiva e acessível. Para finalizar, trago o poema de um amigo mineiro psicanalista, Altair Sousa, que diz muito do que é SER.
– “Ser o melhor pra quê? / Pra quem? / A qual custo? / Ser a gente já é tarefa árdua demais, / já é o bastante! / Na tarefa do ser ‘o melhor’ / o parâmetro é quase sempre o outro, / Já no exercício do ser ‘o que nos toca’ / a medida é sempre a gente”.
Esta deve ser a nossa medida.
Trago também a frase de uma canção de Caetano Veloso que desde que ouvi pela primeira vez transformou-se em um mantra para mim.
– “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Sabemos! E queremos que nossas andanças e conquistas, que não são poucas nesta jornada, sejam respeitadas.
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