Woman is the nigger of the world… yes, she is
(John Lennon & Yoko Ono)
[1] O trio sentou-se diante de mim a partir da estação de metrô Barro, no metrô de Recife, na linha Camaragibe-Centro. Tratava-se de uma mocinha, de no máximo uns 16 ou 17 anos, com uma criança de colo no braço, um rapazote de uns 17 ou 18 anos a seu lado, com certo jeitão de ser o pai da criança, e mais outro rapaz, provavelmente um amigão, um “brother”, com quem o primeiro conversou durante todo o percurso até o Terminal Rodoviário, onde todos descemos. No trajeto, a mocinha olhava para os dois rapazes, completamente alijada das conversas e da atenção, olhava para a criança, olhava vagamente para os demais passageiros, olhava para os rapazes de volta, e em nenhum momento nenhum deles lhe deu a mais mínima atenção ou consideração. Outrora, provavelmente havia sido alvo de atenção, mas esse tempo claramente havia passado: com a gravidez e a criança, tornara-se um estorvo, uma não-pessoa, esgotada em suas possibilidades e encantos. Presença silenciosa, perfil baixo, criança no braço, uma vida sequer começada e já esgarçada pela grosseria do mundo, pelo egoísmo infantil de um companheiro só circunstancialmente digno desse nome. Na rampa do Terminal Rodoviário, saindo do cais do metrô em direção à estação de passageiros dos ônibus, os rapazes seguiram na frente, loquazes e ruidosos, e a mocinha atrás, criança num braço, sacola no outro, arrastando uma perspectiva de vida medíocre, sabe lá pra onde, sabe lá por quê, sabe lá pra quê.
We insult her everyday
And wonder why she has no guts or confidence
[2] Meus colegas do que na época se chamava ginásio costumavam contar que circulava pelas ruas recifenses próximas da Igreja da Soledade, da então fábrica dos guaranás Fratelli Vitta e do então Ginásio de Aplicação da UFPE, a figura lendária da Cega Dedé. A Cega Dedé era o seguinte: perto dela, Geni (aquela cantada por Chico, e na qual as pessoas jogavam bosta) era uma princesa… A Cega Dedé era velha, feia, doida, meio preta e, naturalmente, cega. Quando bebia (ainda mais essa…), desfiava uma série de palavrões, pragas e insultos contra a coorte de crianças (“maloqueiros”, na acepção mais delicada que a Cega Dedé lhes dava…) que se divertiam achacando a pobre. Eu nunca a vi com meus próprios olhos; provavelmente por conta disso construí em meu imaginário uma figura de ogro-fêmea terrível, dantesca, satânica; o que os olhos não veem, o coração não só sente, como amplia incontrolavelmente. Um dia, de pura maldade, um colega de turma me disse à queima-roupa que, considerando meus parcos encantos pessoais, minhas pernas finas, minha cara de rato dentuço e meus cabelos de vassourão, nem a Cega Dedé me escolheria para dançar quadrilha de São João, quanto mais as meninas do Colégio das Damas Cristãs, com as quais deveríamos dançar num longínquo São João de pesadelo. A imagem passou a me perseguir: eu, e diante de mim, a Cega Dedé a me olhar de cima abaixo, um meio sorriso desdentado e desdenhoso, a sentenciar “com isso daí não danço de jeito nenhum”. A história não teve final feliz, porque efetivamente nenhuma das meninas quis dançar comigo (oras, se nem a Cega Dedé…). Naquela noite, sonhei que a Cega Dedé finalmente se apiedava de mim, me passava o braço pelancudo pelos ombros e dizia “vamo dançá, coisinha, chegue aprender a pegar uma mulé…”. E a gente bailou pela noite deserta do Parque 13 de Maio, ou pelos recônditos do Sítio da Trindade, e foi ficando bom dançar com ela, foi ficando muito bom, e eu já não sabia que dança era aquela. Achei, no sonho, que a Cega Dedé tinha ficado grata e feliz com a experiência, e eu também: não tínhamos, nem eu nem ela, muitas expectativas de parcerias para danças, fizemos um bom par. A Cega Dedé, descobri naquela dança onírica, era de fato criatura de minha própria argila feiosa e canhestra, e ter bailado com ela me resgatou nela e por ela, me permitiu finalmente olhar de frente, e pela primeira vez com carinho, a Cega Dedé que eu fora e tanto temera ter sido.

Mulheres:
Metade gente, metade sereia, metade emoção.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

