Cada um interpreta, enxerga e sente o que lê de acordo com sua experiência. A leitura do livro Cecilia, Antonio e eu, da Rosane Tremea, mexeu com várias partes dos meus corpos (no físico, de chorar e arrepiar, inclusive). Se eu, você, nós existimos hoje, aqui, agora, foi porque tive um pai, uma mãe e, consequentemente, avós, bisavós, trisavós e assim por diante. E somos resultado de muitos elementos da ancestralidade. A autora, além de ter gestado o livro com base em muito empenho e perseverança, escreveu uma história que pode ser de qualquer descendente de imigrante italiano que veio parar em alguma colônia no Rio Grande do Sul. Realizou um desejo do pai, mesmo depois de morto, de contar a história dos seus bisavós. Rosane se debruçou a fazer uma extensa pesquisa da trajetória de partida de Lentiai, no Norte da Itália, as paradas e as distintas embarcações que seus antepassados pegaram até se instalarem na Colônia de Dona Isabel, hoje Bento Gonçalves.
Várias coisas contadas na publicação têm semelhanças com a história dos Marcuzzo, Bortoluzzi e tantos outros que me antecederam. Depois de tantas adversidades, acredito que só conseguiram porque estavam em grupos e se apoiavam uns nos outros. E, é bom lembrar, uma vinda que optaram para fugir da miséria, naquele tempo que aquele pedaço de Europa passava. Bem diferente dos africanos, que foram arrancados da sua terra.
Como eu vivi por bastante tempo o lado italiano da família, fui muito a Vale Vêneto (atual Distrito de São João do Polêsine), adoro conviver com primos (todos tios e tias já partiram) na Quarta Colônia e sigo inúmeras práticas que aprendi no dia a dia com meu pai. Foi fácil me render às 180 páginas do livro, lançado em agosto deste ano pela editora Casa de Astérion. A trajetória dos nossos antepassados é algo que a gurizada e a juventude não têm a menor noção. Também vale salientar que eles vieram de navio a vapor, diferente dos alemães, que vieram em navio à vela.
Como tive o privilégio, a dor e a delícia de ser filha temporona, convivi com um pai que contou pra mim inúmeras situações que denotam uma série de dificuldades que nenhum filho ou neto dele passou. Hoje, se a água chega na torneira, qualquer vestimenta está pronta para ser usada, a comida é farta etc., é porque lá atrás eles batalharam para chegarmos onde estamos.
O livro é escrito por uma experiente jornalista e mestra em escrita criativa. Achei, num primeiro momento, as descrições contidas. Perguntei pra autora por WhatsApp: “Mas e não tem um palavrão?” Daí ela ponderou: “Não falavam palavrão na minha casa, minha mãe nunca deixou”. Logo, lembrei que lá em casa também geralmente não se ouvia. Meu pai também foi um homem muito contido, sério.
Rosane se coloca no livro de um jeito suave e, ao mesmo tempo, determinante. Ela conseguiu, ao longo de vários anos, ir juntando peças de um grande quebra-cabeças para montar a narrativa que simboliza a época.
Mulheres passavam quase todo período reprodutivo grávidas. E sobreviviam graças ao apoio mútuo entre elas. Eram as mulheres da vizinhança, comadres que ajudavam (quando não se tinha as filhas mais velhas) no pós-parto, quando a dona da casa ficava doente. Eu inclusive tive tias que são o exemplo nítido do que ela relatou. Minha tia Jandira, por exemplo, irmã mais nova do meu pai (foram 10 filhos de Amábile e Giuseppe, meus avós), teve 16 filhos. E quase todos se formaram em cursos na Universidade Federal de Santa Maria. Eu inclusive escrevi um artigo quando ela partiu lúcida, aos 92 anos. (leia aqui)
A autora conseguiu encontrar certidões de nascimento e óbito dos antepassados em diferentes lugares, já que por um bom tempo isso era trabalho da Igreja Católica; só depois de um bom tempo veio a existir cartório de registro. Revelou ainda o quanto fazia a diferença saber ler e escrever naqueles tempos do século XIX. A bisa dela veio alfabetizada da Itália. Mas, como tantas outras mulheres, aprendeu a ser parteira por necessidade da comunidade. E acabou partindo cedo, justamente no parto do seu décimo filho, aos 39 anos.
Não vou dar mais spoiler do livro, porque vale a pena ler a obra por diversos motivos. A Rosane mostra casos que evidenciam o quanto era comum se trocarem nomes ou se escreverem com grafias diferentes de um documento para o outro.
Eu vivi isso na realidade, pois meu bisavô Giuseppe teve o nome aportuguesado para José. Serviu de motivo para justificativas e atrasos para liberação da cidadania italiana.
Para concatenar as peças, Rosane esteve quatro vezes na Itália e contou com a ajuda de primos que também estavam interessados na compreensão do contexto.
Lendo as páginas de Cecilia, Antonio e eu, brotaram sentimentos difíceis de explicar, como uma sensação de insegurança no tipo de criação que hoje damos aos filhos que recebem tudo ou quase tudo de mão beijada ou pseudo beijada. Eu mesma tive uma criação distinta dos meus outros cinco irmãos. Peguei outra fase da vida dos meus pais, que ralaram muito para educar a prole.
A história da família Tremea só foi conhecida porque a Rosane se empenhou de diversas maneiras para conseguir concretizá-la. De outro jeito, mas também com muito empenho, meu tio Clementino foi um precursor nesse movimento de busca da cidadania italiana e de valorização da trajetória dos nossos antepassados. E como sou a única sobrinha dele jornalista, como ele, volta e meia me vem vontade de também resgatar histórias da família. O livro da Rosane foi um empurrão para que, no futuro, eu me dedique a esse projeto. Até porque eu sou fruto de uma grande mistura; minha mãe é descendente de portugueses e alemães de vida urbana. Realmente espero conseguir ter a mesma determinação da Rosane para conseguir um dia, quem sabe, mostrar outros lados da nossa história.
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Foto da Capa: Museu Etnográfico da Colônia Maciel

