Gosto de números. Planilhas, comparativos, gráficos coloridos que prometem organizar o mundo em colunas bem alinhadas. Os números me acalmam. Eles parecem dizer a verdade — ou, pelo menos, uma verdade. Sei que também podem ser editados, enquadrados, maquiados. Basta escolher o que mostrar e o que esconder. Mas deixemos essa conversa para outro café.
A economia, essa sim, não nos deixa em paz. Está no financiamento da casa, no parcelamento do carro, no material escolar comprado em doze vezes “sem juros”. Está no cartão que dá pontos, no banco digital que promete facilidade, no empréstimo que chega pelo celular. Durante muito tempo, confundi números com economia. Achava que bastava somar e dividir para compreender o mundo. Depois percebi que entre ambos há um abismo — e que é nesse abismo que a cidade se constrói.
Embora minha formação seja no urbanismo, sempre tive a sensação de que o sistema econômico planeja a cidade com mais força do que qualquer urbanista. Zoneamentos, planos diretores, códigos de obras — tudo isso parece pequeno quando confrontado com os fluxos de capital. Na tentativa de entender melhor essa engrenagem e a desigualdade que ela materializa no território, fui ler Eduardo Moreira e seu livro Desigualdades e caminhos para uma sociedade mais justa. Encontrei ali algo desarmante: conceitos básicos, explicados com clareza, capazes de iluminar o que vejo todos os dias na paisagem urbana.
Comecemos pelo essencial: riqueza não é dinheiro.
Riqueza é aquilo que a natureza oferece e que transformamos com nossa capacidade de trabalho — terra, água, minérios, energia, conhecimento, técnica. É o alimento, é a casa, é o abrigo. Dinheiro é apenas o meio, a ferramenta criada para facilitar trocas e organizar a redistribuição. O problema começa quando o meio passa a ser confundido com o fim. Quando o dinheiro vira sinônimo de riqueza, a própria ideia de riqueza se embaralha.
E a cidade sente esse embaralhamento.
Se riqueza é aquilo que extraímos da natureza e transformamos com trabalho, então a moradia é riqueza concreta: resultado de recursos naturais, tecnologia, conhecimento e esforço coletivo, destinada a abrigar pessoas. Em tese, a equação parece simples: produzimos o necessário para atender à demanda, com responsabilidade ambiental e social. Qualquer excesso — retirar mais recursos do que precisamos, construir além do que a população requer — poderia ser chamado de desperdício.
É aqui que entra a palavra da moda: sustentabilidade. Equilíbrio entre o que necessitamos e o que produzimos. Um pacto delicado entre desenvolvimento, preservação ambiental e justiça social. Um tripé que deveria sustentar nossas decisões.
Agora, olhemos para alguns números.
Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil possui mais de 74 milhões de moradias regularizadas. Somos cerca de 213 milhões de habitantes. Façamos uma conta simples: considerando três pessoas por residência, precisaríamos de pouco mais de 71 milhões de unidades para abrigar toda a população.
À primeira vista, poderíamos comemorar. Construímos o suficiente. A riqueza material necessária para garantir moradia estaria, em tese, disponível. Poderíamos desacelerar, preservar recursos naturais, concentrar esforços em qualificar o que já existe.
Mas basta caminhar pela cidade para perceber que a conta não fecha.
Casas vazias com placas de “vende-se” há anos. Apartamentos recém-lançados com valores incompatíveis com a renda média local. Novos loteamentos brotando nas periferias e nas cidades médias, enquanto imóveis ociosos se acumulam nas áreas centrais. Estoque de salas comerciais esvaziadas após a consolidação do trabalho remoto. Hotéis e hostels que tampouco entram nas estatísticas habitacionais.
Se a riqueza construída existe, por que falta moradia adequada?
Talvez porque estejamos olhando para o dinheiro — e não para a riqueza.
Nos últimos anos, comecei a me interessar mais por economia justamente porque os números urbanos já não bastavam. Eles não explicavam o fenômeno da abundância de imóveis coexistindo com o déficit habitacional. A economia, diferente da matemática pura, trabalha com expectativas. Com apostas no futuro. Com incentivos.
Quando investidores acreditam em um setor, injetam recursos. O mercado se aquece, a produção aumenta, os preços sobem. Enquanto a confiança permanece, todos parecem ganhar. Mas há momentos em que a aposta se revela maior do que a necessidade real. E o acúmulo artificial de capital faz ruir toda a pirâmide.
A crise imobiliária de 2008 nos Estados Unidos, retratada no filme A Grande Aposta, mostrou como a engrenagem pode girar movida mais por expectativas financeiras do que por necessidades concretas. Quando a confiança ruiu, não foi apenas o mercado da construção que sofreu. Toda a cadeia produtiva foi arrastada: materiais, transporte, crédito, empregos.
O que me inquieta é perceber que, muitas vezes, produzimos não porque precisamos, mas porque o capital precisa circular. Fundos de investimento podem estimular a construção de estoques imobiliários que mantêm preços elevados — mesmo que a demanda real seja outra. A cidade vira ativo financeiro. A moradia vira aplicação.
E então voltamos à pergunta inicial: o que é riqueza?
Se riqueza é aquilo que garante abrigo, dignidade e permanência, talvez precisemos reordenar nossas prioridades. Talvez o desafio não seja construir mais, mas distribuir melhor. Não seja acelerar, mas calibrar. Não seja apostar cegamente na autorregulação do mercado, mas de perguntar que projeto de país — e de cidade — estamos de fato construindo.
Gosto de números. Continuo gostando. Mas aprendi que, sozinhos, eles não contam a história inteira. Você pode perguntar: qual é a solução? Talvez não haja resposta simples. Talvez o primeiro passo seja desconfiar da lógica que naturalizamos, entender seus mecanismos, reconhecer onde ela falha. Compreender o problema não resolve tudo — mas é condição para que qualquer solução seja mais do que um improviso otimista.
A cidade é feita de concreto e expectativa, de cálculo e desejo, de planilha e política. Entre colunas de Excel e colunas de edifícios, escolhemos diariamente que tipo de futuro queremos sustentar. E essa escolha nunca é apenas técnica; é também ética.
Talvez o verdadeiro desafio não esteja em produzir mais números ou mais prédios, mas em decidir quais valores queremos ver materializados no território. Porque, no fim das contas, a cidade revela aquilo que priorizamos — e expõe, sem filtros, aquilo que preferimos não enxergar.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

