Todas as comidas típicas são apetitosas porque são o espírito do seu povo em sabores. E, para aquele que não gostou (e continua não gostando) de algum dos pratos típicos de um lugar, a experiência me diz que, na imensa maioria das vezes, o problema está mais no gosto de quem não apreciou do que no sabor da guloseima.
Há anos, fomos agraciados com um autêntico e lusitano Leitão à Bairrada: um bacorinho assado no forno de lenha e servido a um molho de receita secreta. É bem verdade que, dado o estado de crocância no qual nos servem o suíno miúdo, o caldo de ervas poderia até ser dispensado, mas, regado com ele, é outra experiência também fantástica. Ora, pois… Teve quem detestou.
Noutra feita, tive a oportunidade de provar um cardápio tipicamente heleno, feito com produtos genuinamente gregos, cozinhados por mãos helênicas: foi uma anamnésica mussaca, acompanhada por um tanto de frutos do mar, verdejante salada e regada ao mais fino azeite egeu. Pois é… No grupo, houve quem não aprovou. Sendo o mais emblemático exemplo a confirmar a regra acima defendida, a pessoa é notória por se satisfazer com meia dúzia de rodelas de abacaxi ao almoço, não sendo necessário serem das mais doces: essas papilas gustativas não mereciam aquele desfiado de carne de carneiro escondido entre berinjelas e cebolas.
Das comidas características da minha região, uma das que mais gosto é cuscuz. E, um dos mais inesquecíveis que provei foi no café da manhã do dia de São João, no sertão de Campina Grande (PB). O descendente do magrebino kuskusi tinha sido feito com milho ralado no mesmo dia, cozido numa imensa cuscuzeira de barro e servido à nata sertaneja, um creme derivado do leite, a um ponto anterior da manteiga. O detalhe é que havia um fausto caldeirão de nata sobre um brando fogo a lenha, para que os comensais servissem à vontade de sua gula.
Ontem, mais uma vez sob os auspícios da culinária portuguesa, me serviram uma açorda: um refogado (ao azeite) de suculentos pães ao tempero de alho, coentro e ovos: apenas isso para termos um ensopado com o qual se pode acompanhar de crocantes peixinhos fritos a todo tipo de linguiças.
Hoje, para todos esses pratos, há uma versão turística-gourmet que tenta lhes arremedar. Nada contra: toda fiel imitação tem um quê de honraria.
O cordeiro criado no terreno da casa, o legume cultivado próximo à cozinha; o porquinho desmamado da imensa leitoa cevada às partes não ingeridas dos alimentos humanos; o milho plantado no roçado, o leite batido que não chega à manteiga para render mais; o pão remanescente de outros dias guisado ao óleo tirado do lagar da casa: em comum são alimentos que se transformam em sabores que têm alguma coisa saída do coração do povo que os inventou.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

