Foi um fim de semana diferente. Daqueles em que a cidade parece conspirar a favor do teatro, e a gente aceita o convite sem muita resistência, valorizando os preços promocionais do festival cultural de verão. Duas peças em dois dias: sábado e domingo. Um pequeno mergulho cultural, desses que começam despretensiosos e terminam deixando marcas.
No sábado, a saída já valia por si. Serviu de desculpa perfeita para reencontrar amigos queridos, rir da vida, das relações meio tortas que insistimos em construir e desconstruir. Saí leve, embora com a sensação de que algo poderia ter ido além. Talvez não tenha sido só impressão minha — a peça não virou assunto no bar que veio depois, e isso costuma dizer bastante.
No domingo, o clima foi outro. Fui com a família assistir A Sbørnia Kontra Atracka, com Hique Gomez, Simone Rasslan e sua magnífica trupe. A compra do ingresso, confesso, já carregava um peso simbólico: ver com meus filhos adolescentes uma peça inspirada em outra que me emocionou, pela primeira vez, há mais de 35 anos. Comprei sem grandes expectativas, achando que o significado maior seria apenas o gesto. Para minha sorte, foi muito mais do que isso.
Havia ali um vazio inevitável — o deixado pelo inesquecível Nico Nicolaiewsky —, mas ele foi preenchido de um jeito bonito: com amor. Amor explícito no palco, espalhado pelo elenco, estendido também a tantos outros artistas fundamentais da nossa história. Entre as homenagens, Rita Lee, rainha revolucionária, permaneceu comigo por razões muito pessoais: foi meu primeiro show na adolescência. Referências simbólicas, musicais, que ultrapassavam a cena e me conduziam a outras ausências, outras saudades. Tudo isso sem tristeza. Porque celebrar quem tocou nossos corações é, no fundo, celebrar a vida.
A peça deixa claro por que o estilo da Sbørnia atravessa quase quatro décadas. Temas atuais — alguns duros — são tratados com inteligência e leveza. Há uma brincadeira preciosa sobre a coragem de pensar diferente da maioria, sem que isso signifique estar certo o tempo todo ou não poder mudar de ideia. Um lembrete necessário, especialmente em ano de eleição, quando parece que vencer o debate importa mais do que saber escutar.
O formato da dupla explode em cena, ampliado pela chegada de outros visitantes da Sbørnia. Entre eles, o professor Ubaldo Kanflutz, especialista nas ciências fictícias daquele país improvável, nos lembrando da importância de conhecer nossa história, nosso território e do papel fundamental da pesquisa na sociedade.
Um dos momentos que mais me tocou foi o canto do hino da pátria sbørniana. A emoção dos “sbørnianos” em cena me causou uma ponta de inveja. Depois de viver doze anos fora do Brasil, lembro vividamente do choque ao retornar e ouvir o hino nacional em um evento, entoado sem fervor, sem paixão pelos meus compatriotas. Eu vinha da Catalunha, onde o nacionalismo pulsa forte. Fiquei pensando: como se constrói uma nação sem paixão?
A canção sobre o planeta Terra trouxe uma beleza plástica rara, intensificada pela bailarina Gabriela Castro, interpretando a Lua — essa observadora silenciosa, um tanto atônita. Como pesquisadora, lido diariamente com dados sobre sustentabilidade e com a dura constatação de como nosso modelo de produção e consumo afeta a única casa que temos. Tratar desse tema por números costuma ser pesado e pouco sedutor. A arte, ali, fez o que os gráficos não conseguem: sensibilizou.
A música final reforça o essencial. Um refrão repetido, insistente — como precisa ser para que repensemos nossa forma de existir. Em tom leve, quase brincando, dizia:
Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais.
Necessário, somente o necessário, por isso essa vida eu levo em paz.
Não quero entregar mais detalhes. Basta dizer que o espetáculo cumpre — e supera — expectativas. É a prova de uma companhia teatral madura, consciente de seu papel não apenas como entretenimento, mas como provocadora de debates fundamentais. A incorporação de novos atores, especialmente o coral das meninas da Sbørnia, acrescenta outra camada importante: a formação de novas gerações.
Em tempos meio tortos, em que a arte precisa se justificar economicamente para quem ignora que ela movimenta bilhões de reais, gera milhões de empregos e cresce dentro do PIB brasileiro, é bom lembrar: seu valor maior é cultural. Cultura é poder. É linguagem, é identidade, é presença no mundo. Talvez por isso crescemos admirando os Estados Unidos, e talvez por isso as novas gerações estejam encantadas com a cultura oriental, especialmente a coreana. A cultura atravessa fronteiras, atrai turismo, fortalece quem somos. Quando não é isso, está em construção, tudo que é bom leva tempo, mas ainda assim, no mínimo, é motivo para deixar a alma mais leve e nos reunir com os amigos e, hoje em dia, isso tem grande valor.
Num futuro em que máquinas farão o trabalho mecânico — e até imitarão a arte do passado com aparência de novidade —, o que fará falta será o contato humano e a criatividade viva. Somos um país riquíssimo em diversidade cultural. As cidades que entenderem isso, que investirem nisso, serão as mais interessantes de visitar — e de habitar. A questão não é a altura dos prédios, mas como é a vida no andar térreo da cidade.
Que nossos espaços públicos sejam como o final da peça: um convite aberto para que todos cantem juntos, do lado de fora do teatro.
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Foto da Capa: Nilton Santolim / Divulgação

