Visitar Santiago do Chile me fez pensar em como é curiosa essa capacidade da história ficar impregnada nas cidades. Não em sua materialidade, que é o óbvio, mas na sua intangibilidade. Essa dimensão que não vemos, mas que se expressa como nossos corpos expressam, queiramos ou não, estados do inconsciente, ou alma, como gostamos de chamá-lo. Alguma coisa que paira no ar da cidade, que respiramos, querendo ou não.
Situada num vale entre duas cordilheiras, a dos Andes, de vertiginosa altura, e a do Litoral, mais comedida, a movimentação do ar é imperfeita, o que faz a atmosfera ser densa, poluída. Apreciar os picos nevados que cercam a cidade de um dos lados é privilégio para o turista que tem a sorte de ser recebido com céu limpo. Não foi meu caso na semana que passei lá. Via-os opacos, infelizmente.
Não demorou muito para eu me lembrar de Berlim. Sensação estranha porque Berlim, em quase tudo, é o oposto de Santiago. Lá, o ar é leve e não é preciso de muita sorte para ser recebido com um céu azul cristalino, se não for inverno. Cidade plana, sem montanhas à vista em qualquer direção, prédios baixos, muito verde e muito cuidado com sua arquitetura e urbanismo.
Logo me dei conta de que o que me fez lembrar de Berlim era a presença de Pinochet. Sim, eu sei, ele já morreu, bem como Hitler. Mas esses déspotas ficam pairando na atmosfera de suas cidades. Deixam rastros de horror, materiais e imateriais, por onde passam. Não dá para explicar, só contar o que senti.
A semelhança das duas cidades está, agora sim, na consciência de que ditadores não devem ser esquecidos. Em Berlim, o Museu do Holocausto conta os horrores do nazismo. Em Santiago, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos mostra as atrocidades da ditadura mais sangrenta das Américas. Lembrar é vacinar. Elas sabem disso.
No Brasil, os militares também jogaram opositores, vivos ou mortos, no mar. Sem julgamento. Sequestro, tortura e viagem sem volta. A diferença foi de escala, se é que dá para comparar desumanidade assim. Diferente mesmo é nosso jeito de não querer lembrar. A porta segue aberta: tentaram voltar nos quatro anos de Bolsonaro e no 8 de janeiro.
As novas gerações não têm ideia do que foi a ditadura. A culpa é nossa, não lhe contamos. Precisamos levantar museus que contem o que foi a ditadura militar e a tentativa de repique nos quatro anos de Bolsonaro. Tenho arrepios de pensar que só estou escrevendo isso aqui hoje porque, por detalhe, escapamos de um novo período ditatorial. E, dessa vez, com ditador muito mais próximo de Pinochet do que dos generais de 64.
O Museu da Memória foi projetado pelo escritório brasileiro Estudio América, o que mostra que o que não nos falta aqui é capacidade de fazê-los. A arquitetura brasileira está bem preparada. Faltam as encomendas.
Mas Santiago, assim com Berlim, tem muitos encantos. É dos encantos de Santiago que eu queria falar, mas não consegui esconder de vocês o impacto que tive ao chegar numa cidade onde as brasas do fascismo ainda não esfriaram de todo. Por outro lado, a cidade soube vencer o tirano e a alegria dessa conquista também paira no ar. Prometo falar dela na próxima coluna.
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

