Na coluna anterior, falei das marcas intangíveis que a ditadura deixou em Santiago do Chile. Faltou dizer que a ditadura, pautada pelo neoliberalismo extremo – verdadeiro balão de ensaio da Escola de Chicago –, deu liberdade total ao capital para moldar a cidade ao seu gosto. A propaganda elogiosa que eu lia na nossa imprensa em relação à política chilena criou em mim a expectativa de encontrar uma cidade de riqueza e qualidade arquitetônica e urbanística ainda inexistente na América Latina. Que nada! Deparei-me com uma metrópole igualzinha às nossas. Lembrei muito da caótica São Paulo. Multidão nos metrôs, ruas entupidas de carros, apesar das autopistas e túneis sem fim, poluição, caos visual e prédios gigantescos formando uma paisagem amorfa e pouco acolhedora.
Passada a primeira impressão, e já acostumado a respirar Pinochet, comecei a buscar, nos interstícios desse caos, as belezas da cidade exatamente como estou acostumado a fazer no Brasil. E as encontrei em abundância! E mais, percebi o esforço que a cidade está fazendo para se qualificar como cidade caminhável. Andei por muitas ruas onde já não existe meio-fio e os automóveis nitidamente se sentem intimidados de circular no meio dos pedestres. Uma inversão de valores necessária que ainda não chegou aqui. Também uma preocupação com o transporte público (tem cartão de mobilidade universal), mobiliário urbano de qualidade, arborização e valorização do patrimônio histórico.
Uma avenida, larga, bonita e caminhável, corta a cidade no sentido leste-oeste. Perdi a conta de quantas vezes caminhei por ela ou me socorri, quando cansado, do metrô que corre abaixo dela. Para o turista, ela serve de guia para mostrar toda a cidade, o que é muito confortável. Junto ao Centro Histórico e, na direção oeste, chamam-na simplesmente de Alameda – Alameda Libertador Bernardo O’Higgins –, na direção leste, tem o nome de Av. Providência, mesmo nome do bairro contíguo ao centro, que na verdade é uma comuna independente. Este bairro tem muitos hotéis e restaurantes e é mais agradável e seguro para caminhar à noite. Fica um pouco mais longe do centro histórico, 4km, mas muito caminhável, além de ser servido pelo metrô que já citei. O que fiz muito foi caminhar por ela até cansar e depois pegar o metrô. No primeiro dia, claro, fiz todo o percurso a pé para não perder nada.
A Av. Alameda tangencia o centro histórico, onde estão os principais edifícios públicos de interesse arquitetônico e cultural. Museus, Catedral, Teatro Municipal, Mercado Central, que merece uma parada para o almoço, e muitos edifícios governamentais de arquitetura eclética, entre eles o famoso Palácio de La Moneda. Na própria avenida está a maravilhosa igreja e convento São Francisco. Uma ilha de paz.
Seguindo por ela, na direção Providência, chega-se à base do Cerro Santa Lúcia, de onde se podia admirar a cordilheira que fica nos limites da cidade e o centro nevrálgico da cidade ali ao lado. Hoje, edifícios sem graça obstruem a vista. A gente fica imaginando como devia ser lindo observar a paisagem quando a vista era total. Eu não fui, mas, para quem gosta de mirantes, pode-se subir o Cerro San Cristóbal pelo funicular ou teleférico ou ainda ao topo do edifício Costanera, símbolo da propalada modernidade chilena. As duas vistas rivalizam com seus 300m de altura.
Voltando para a Avenida Providência, mais adiante, temos as sedes históricas da Universidade Católica e da Universidade do Chile. Esta última construiu uma maravilhosa Sala Sinfônica para a Orquestra Nacional do Chile. Tive o prazer de desfrutar do segundo concerto da nova sala. Acústica impecável, sala agradável aos olhos, faz acender meu sonho de ainda ver uma sala similar para a OSPA. Para quem gosta de se deleitar com arquitetura contemporânea, recomendo conhecer o lindo campus da Católica. É longe, fica quase no pé da Cordilheira. Fui de ônibus, que corre por uma canaleta exclusiva e mostra bem a vida ainda dura do povo que sofreu na carne as teorias da Escola de Chicago.
A Av. Providência passa ainda na frente de um gigantesco e estranho edifício construído para uma conferência mundial da Nações Unidas pelo presidente Allende em 1972. Em 1973, Pinochet o transformou em quartel-general depois de ter bombardeado o La Moneda. Em 2001, finalmente, foi adaptado como Centro Cultural Gabriela Mistral. Na minha opinião, ainda carece de um bom trabalho de rearquitetura. As circulações são superdimensionadas e parecem levar a lugar nenhum, apesar de saber que as atividades ali são muitas.
Se já deu para perceber a quantidade de pontos de interesse turístico que a cidade tem, não posso deixar de falar nas diversas ambiências urbanas muito agradáveis que encontrei. São trechos ou conjuntos de ruas que sobreviveram à fúria imobiliária e nos acolhem com bares, restaurantes e feiras de todo tipo. São desses lugares que não precisamos inventar motivos para estar ali. Basta estar.
As ruas nas cercanias do Museu de Artes Visuais guardam esse sabor de cidade anterior à shoppinização do mundo. Ali se misturam a feira com edifícios residenciais, culturais e comerciais. Pode-se andar por horas para lá e para cá, não falta o que ver, comer e beber. Não dá vontade de voltar para o hotel.
Vejam, já falei de tantas atrações e não falei dos passeios à cordilheira e vinícolas, da gastronomia, das casas do Neruda e muitas outras que não fiquei sabendo. E ainda tem o passeio fácil a Valparaíso e Viña del Mar. A cada 15 min sai um ônibus da rodoviária situada na Avenida Alameda. Leva-se 90 min para chegar ao mar.
Santiago é vasta e complexa, não se deixa apreender em uma semana. Nos convida a voltar.
Todos os textos de Flávio Kiefer estão AQUI.
Foto da Capa: Acervo do Autor.

