O meio ambiente de trabalho sempre foi um contexto de responsabilidade do empregador, sujeito a aplicação de multas administrativas pelos auditores fiscais do trabalho. As discussões sobre saúde mental neste espaço, ante as alterações da Norma Regulamentadora NR1 do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2024(1), no entanto, não contemplam as particularidades da população feminina e, tampouco, das mulheres negras.
As mulheres são as mais atingidas, por fatores sociais amplamente conhecidos, como a sobrecarga de trabalho, a menor remuneração, a responsabilidade do cuidado familiar e a violência.
Inquieta com esse conjunto de informações, me vi provocada a trazer essa discussão “à mesa”, para conhecimento e fortalecimento de outras mulheres negras. Convidei amigas e profissionais que pudessem contribuir para esse debate: Clélia Natalina Paim, pesquisadora e responsável pela Biblioteca do Negro(2); Aline da Silva Oliveira, advogada especialista em Direito do Trabalho; e Vanessa Aquino Garcia, psicóloga e assessora de gestores na área da Educação. Juntas, fizemos uma live com o título ‘Saúde Mental da População Negra’, a partir das perspectivas pessoais e profissionais de cada participante. A ação integrou a Semana do Afroempreendedor de 2025, promovida pela Odabá.
Clélia compartilhou sua experiência, que passa por dores inevitáveis a todas as mulheres negras, mesmo que não queiram ou não as saibam identificar, além de aprendizados e lições para manutenção da mente saudável. Tudo isso emoldurado em sua particularidade que admiro profundamente: o sorriso acolhedor e cativante no rosto, uma verdadeira demonstração de afeto e resiliência. Para quem assistiu à live, irá lembrar seu relato de como a Enciclopédia de Contabilidade(3) virou símbolo de motivação e resistência.
Aline, por sua vez, trouxe o alerta para a necessidade das informações sobre violência doméstica alcançarem mais mulheres. As diversas perspectivas de agressão, que vão muito além das marcas físicas, foram trazidas de forma objetiva para despertar nossa atenção. Esse assunto – complexo e exigente – foi compartilhado num momento de conversa quase despretensiosa, quando minha colega no Direito divagava sobre o que seria advogar com propósito.
Vanessa, mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, contribuiu ricamente, a partir do seu olhar acurado e cotidiano profissional, para fazer o fechamento desse diálogo denso e, ao mesmo tempo, acolhedor. Ela trouxe uma fala que consegue harmonizar um olhar combativo – que leio como uma forma de defesa que todas nós desenvolvemos com o tempo – com a atenção amorosa da qual precisamos para prosseguir a vida.
Todos esses aprendizados fazem parte de um contexto macro, que nos leva do indivíduo à coletividade e vice-versa – a todo momento. Dados da Organização Mundial de Saúde(4), amplamente divulgados, estimam que 12 bilhões de dias úteis são perdidos globalmente, todos os anos, devido à depressão e à ansiedade, o que representa um impacto de US$1 trilhão por ano.
Aproximando esses dados da realidade brasileira, o psicólogo e mestre em Psicologia Social (PUC-SP), Emiliano de Camargo David(5), ainda num contexto de pandemia, alertou sobre a dinâmica psicológica de morte em vida. Ele destaca a submissão da população negra, por exemplo, a condições precárias de saneamento básico e de moradias, situações que têm interferência direta na saúde mental, provocando medo, ansiedade e desânimo.
Notícia do site Alma Negra(6), de junho deste ano, refere que, em um Brasil marcado pelo racismo estrutural, a saúde mental da população negra brasileira segue negligenciada e desassistida. Segundo o Boletim Epidemiológico Saúde da População Negra, elaborado e divulgado pelo Ministério da Saúde em 2023, essa parcela da sociedade enfrenta mais dificuldade de acesso a serviços de saúde mental e é mais suscetível a transtornos como ansiedade e depressão.
No âmbito regional, a Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul(7), orienta que o atendimento às pessoas negras considere o racismo como um fator histórico, que se apresenta como um determinante do processo saúde-doença.
A partir destas perspectivas, conversas como a que fizemos na live são essenciais, pois promovem informação, conhecimento e inspiram a promoção de ações efetivas.
Como estratégia, todas nós concordamos, durante o diálogo, ser imprescindível a participação, também, de pessoas brancas nesse cuidado, que se inicia por meio de letramento. Vislumbramos, ainda, a importância dos coletivos, para fortalecimento de outras mulheres negras.
A mudança legal, por certo, não encontra eco sem o movimento coletivo, que ampara o indivíduo, e o indivíduo, por sua vez, vulnerável ou fortalecido, ampara e compõe o coletivo para multiplicar indivíduos que promovem mudança de fato.
Responsabilizar a pessoa – individualmente – pela depressão e ansiedade que desenvolve no ambiente hostil – promovido por todos – é desresponsabilizar-se, como coletivo. Promover saúde mental é algo imprescindível a toda coletividade para exercício de suas potências.
A consciência sobre qual a sua participação na efetividade desta alteração, não somente no ambiente de trabalho, pode ser provocada pelo recebimento de uma autuação do Ministério do Trabalho ou, preventivamente, pela busca voluntária de informações e desenvolvimento de ações individuais e coletivas.
Qual a sua escolha?
Referências:
- Promovidas pela Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024, NR 01 – DISPOSIÇÕES GERAIS e GERENCIAMENTO DE RISCOS OCUPACIONAIS Publicação DOU.
- A Biblioteca do Negro está localizada na Casa Odabá, Rua João Alfredo, 782 – Porto Alegre/RS.
- Acesse o conteúdo da live em @odaba.br, no Instagram.
- G1: Crise de saúde mental: Brasil tem maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos.
- Portal Geledés: A saúde mental da população negra importa! Por que ainda precisamos afirmar?
- Alma Preta: Pesquisas sobre saúde mental da população negra são premiadas em congresso internacional em SP
- Secretaria da Saúde alerta que o racismo é fator de risco para suicídio entre a população negra
Denise Ribeiro Denicol é entusiasta da saúde mental no ambiente de trabalho e tem se ocupado de provocar esse cuidado também com o recorte racial. Sempre disposta a conversar sobre temáticas relacionadas ao fortalecimento de mulheres, maternidade, trabalho e dinheiro, é Advogada Trabalhista, Diretora Jurídica da ODABÁ - Associação de Afroempreendedorismo e parceira do escritório Baladão e Fagundes.
Instagram: @deniseribeirodenicol
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Foto: Marcelo Brandão (Agência Brasil)

