Trago aos leitores e leitoras um olhar da psicologia sobre a saúde mental da população negra para uma reflexão. O texto inclui algumas considerações científicas, pois, como pesquisadora, considero fundamental para a consistência dos argumentos.
O que podemos entender por bem-estar psicológico?
Pelo meu ponto de vista, é o sujeito estar em conexão consigo, com sua identidade, seus costumes e valores, é estar ciente do papel que desempenha na sociedade e estar satisfeito consigo. É poder usufruir dos privilégios que lhe são apresentados e sentir-se em paz.
Opa! Aqui está a questão que me trouxe a escrever estas linhas.
O mundo faz parte do nosso inconsciente e nós fazemos parte do mundo. Isto é, a construção de nossa identidade está pautada na cultura, nos estímulos do meio, nos valores que aprendemos e desenvolvemos e, também, na vivência social. Nossa consciência psíquica é construída a partir de conteúdos que são, de alguma forma, resgatados do inconsciente e que estão guardados “desde sempre”.
A vida atual está pautada no binômio saúde-doença, sendo esta díade vista como um apêndice da identidade.
E por falar em identidade, os negros trazidos do Continente Africano foram ceifados de sua identidade, privados de praticar sua cultura e suas tradições, obrigados a adotar os costumes daqueles que os tornaram cativos. Todo negro escravizado teve sua identidade massacrada, suas expectativas extinguidas, sendo submetido a exigências e alienado de si mesmo.
Essa sensação de não existência e invisibilidade causa um transtorno emocional, passando de geração a geração e se torna difícil de ser diagnosticada. É sabido que o sistema de saúde está focado na doença, usando basicamente a medicalização e a prescrição compulsória para o combate de sintomas. Isso fragmenta o sujeito, colocando à parte da análise os fatores socio-históricos e culturais.
As altas taxas de mortalidade materna e infantil, a grande prevalência de doenças crônicas e infecciosas e os altos índices de mortalidade de jovens e adultos em razão da violência urbana, drogas e álcool, indicam a fragilidade de ações eficazes para atenuar esta situação. Essas informações passaram a ser melhor monitoradas a partir da criação, em 2009, da Política Nacional da Saúde Integral da População Negra (PNSPIN). Doenças na esfera da saúde mental podem, por exemplo, levar a uma depressão profunda, tendo como desfecho o suicídio.
Existe um histórico que é afirmado no dia a dia, começando nos bancos escolares, onde o fenótipo de cada “raça” é descrito. Sobre a pessoa negra recaem sentenças quanto ao formato do nariz e dos lábios, à textura dos cabelos e à largura dos quadris, no caso das mulheres. No tempo do Brasil Império, se dizia que o homem negro de canela fina era trabalhador, enquanto o de canela grossa era preguiçoso; que a mulher negra de “ancas largas” era “boa parideira”, além de muitos outros adjetivos e classificações depreciativas que coisificavam a pessoa negra.
Tudo isso ainda está enraizado no inconsciente coletivo do negro, fazendo sombra, gerando vergonha e raiva quando precisa afirmar sua cor. Neste momento, estará trazendo consigo seu corpo, que já foi objetificado e hipersexualizado, assim como a sua história de escravização, maus-tratos, humilhação e abandono, entre outros atos desumanos. Esse histórico produziu uma ferida psíquica difícil de dimensionar, e que ainda se encontra aberta. O transtorno provocado por tais situações muitas vezes pode ser visto como um transtorno individual ou entendido como a expressão de uma dor histórica e coletiva.
O racismo impacta diretamente na saúde mental da população negra, gerando sofrimentos emocionais: ansiedade, depressão profunda, síndrome de pânico, estresse crônico, entre outros. Além dessas, conforme dados do Ministério da Saúde, o índice de suicídios entre adolescentes e jovens negros é mais de 45% maior do que entre os brancos, e nos últimos anos o risco aumentou 12% entre a população negra, enquanto entre brancos permaneceu estável.
Não raras vezes, a pessoa negra vai à procura de ajuda especializada para entender e enfrentar os seus medos, as suas inseguranças e tudo o mais que lhe traz inquietações (discriminações na escola, no trabalho, na vida social), mas não encontra o que foi buscar. Muitos profissionais da saúde mental não estão familiarizados com o tema Racismo, desvalorizando ou tentando inverter o olhar que o paciente traz sobre o assunto, e que atinge sobremaneira sua existência material e emocional.
Como último questionamento, gostaria que você, leitor(a), não importa qual sua atuação profissional, respondesse: que práticas a psicologia pode adotar para que os profissionais possam acolher esta demanda?
Eu tenho as minhas respostas, mas quero deixar esta provocação.
Leiriane Teresinha Barbosa Maria é psicóloga clínica, militante no Movimento Negro, referência na Articulação Nacional de Psicólogas Negras e Pesquisadoras/RS. Membro da Coordenação da Marcha de Mulheres Negras em 2025. @leirianebarbosapsi
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