Avesso que sou a um dos sintomas preocupantes da contemporaneidade, a oferta abusiva da tal “autoajuda” em vários suportes semióticos (vide texto publicado aqui, Acerca das nuvens de autoajuda da contemporaneidade), lá vou eu me aventurar numa seara que, à primeira vista, pode vir a ser assimilada, justamente, a algum tipo de ajuda para quem anda meio cabreiro com a dificuldade de encarar as segundas-feiras… Tant pis, como diriam meus amigos gauleses…
É quase unânime a avaliação segundo a qual estamos, todos e todas, crescentemente adoecidos, no que diz respeito à saúde mental. Essa tendência contemporânea se agravou com a pandemia do COVID, e passada a fase mais crítica desse evento mundial, o problema parece ter-se agravado. O contexto de trabalho tem sido um dos que ampliaram muito a agressão à saúde e produção de doença mental. Burnout tornou-se termo conhecido nas mídias sociais correntes.
Para navegar nesse debate, é preciso certo recuo crítico em termos do que temos como razoavelmente estabelecido acerca do conceito de saúde mental. Num ato próximo à superficialidade intelectual, vou eleger tão somente dois, e não mais que dois aspectos para tentar contextualizar algumas ideias.
Em primeiro lugar, é temerário, para dizer o mínimo, circunscrever a doença mental ao indivíduo. Isso é facilitado pela linguagem corrente, pelas trocas de mensagens aludindo ao fato de que “Fulano está com burnout”, “Beltrano surtou”, “Sicrano está deprimido”. Com todo o devido respeito pelo mal-estar autenticamente humano que cada um desses personagens fictícios (mas inspirados na realidade) venha efetivamente a ter, é injusto circunscrever a eles uma condição que não se explica como algo DO indivíduo. Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico-psiquiatra catalão (naturalizado francês) François Tosquelles esteve a cargo da direção geral do Hospital Psiquiátrico Saint-Alban, em contexto de extrema escassez de alimentos, convulsão social e ameaça do programa de eutanásia imposto pela ocupação nazista, o “Aktion T4”, voltado à eliminação de pessoas com deficiências e doenças mentais. Face a tal contexto de guerra, Tosquelles optou pela liberação de pacientes internos, junto à população extra-hospitalar, e o que ele observou foi o quanto tais pacientes passaram desapercebidos, “invisíveis” em sua condição de loucos assim diagnosticados e internos no manicômio. Em outras palavras, o contexto social de convulsão social da guerra pareceu ter invisibilizado a loucura. Tosquelles observou que a psicopatologia não poderia ser concebida como algo inerente a um indivíduo, como uma doença clássica que acomete um ou mais órgãos do corpo, mas deveria necessariamente abarcar toda uma experiência vivida e compartilhada em contexto social. Um pensador de renome na contemporaneidade, Frantz Fanon, foi discípulo de Tosquelles, e produziu uma obra crucial para estas reflexões, “Os condenados da terra”, em que discorre justamente sobre o quanto estamos submetidos a contextos sociais e culturais que não podem ser deixados de lado na avaliação de nosso bem-estar ou mal-estar subjetivos, na avaliação de se, sim ou não, sofremos doença mental.
Em segundo lugar, a doença mental não pode ser assimilada a uma desconformidade a normas de comportamento usuais e dominantes – a ideia de que alguém mentalmente saudável é alguém “normal”, colado a uma norma, alguém que é como todo mundo é, que se comporta da maneira que se espera que todo mundo se comporte. Por esse raciocínio, o doente mental seria, fundamentalmente, um discrepante, estranho, esquisito, “anormal”. Nesse sentido, cabe lembrar a estupefação de Hannah Arendt, narrada em sua obra “Eichmann em Jerusalém: Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”. Arendt alude, em termos dessa “banalidade do mal”, à ideia de que atos terríveis poderiam vir a ser cometidos por pessoas comuns (“gewöhnliche Leute”, “people like us”), pessoas que dificilmente poderiam ser enquadradas na categoria de intrinsecamente más ou demoníacas, e que justificavam atrocidades cometidas em termos de tarefas institucionais e hierarquicamente estabelecidas. Uma ideia que está nas antípodas da perspectiva lombrosiana do “criminoso nato”, daquele que traz consigo, desde sempre, a inclinação para o mal, o germe do crime e da loucura.
Se é verdade que a insanidade mental vai trazer para o indivíduo atitudes e comportamentos diferentes dos demais, isso não é suficiente para caracterizar como elemento central da doença mental a dissonância em relação a um diapasão compartilhado. Se todo louco parece “diferente”, nem todo diferente pode ser considerado louco. Não raras vezes, a recusa aos padrões coletivos circunjacentes é indicativa de saúde mental, e não de doença.
O andamento dessa digressão nos conduz a uma encruzilhada desconfortável: se a doença mental não pode ser considerada como algo DO indivíduo, independente do contexto em que se insere esse indivíduo, como é possível conceber que se proponham iniciativas centradas no indivíduo (leia-se psicoterapias) para fazer face a seu suposto adoecimento mental?
Não se trata aqui de fazer explodir a oferta de escuta terapêutica a que recorrem as pessoas em situação de sofrimento psicológico, associável a comprometimento (em graus variados) de sua própria saúde mental. Tais pessoas relatam encontrar, em tais escutas, verdadeiro alívio (alívio esse, diga-se de passagem, que vem sendo referido como igualmente encontrável em contexto de escuta terapêutica proporcionada por sistemas de inteligência artificial, os “robôs psicoterapeutas” a que já nos referimos aqui nesse espaço). Quem ousaria se insurgir contra a larguíssima gama de ofertas de atenuação de sofrimento proporcionada pela cultura? A dor que nos inviabiliza, que nos imobiliza e eventualmente nos destrói é uma dor do indivíduo, é NELE que DÓI, e ele tem, portanto, o direito irrecusável de buscar todos os meios à mão para pelo menos atenuar esse sofrimento – pannis et circenses… Mas este mesmo indivíduo não pode se deixar responsabilizar, na onda contemporânea do culto à resiliência, pelo mal-estar que ele vivencia, mas que não é dele – é de uma civilização inteira – o “Mal-estar na civilização” a que aludiu Sigmundo Freud.
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Num tempo de vencedores (winners) e perdedores (losers), doença mental é fracasso. Resta saber se você vai passar recibo.

