Para quem acompanhou, como eu, parece que foi ontem, mas percebo agora que se está completando, agora no dia 27 de fevereiro, 15 anos da morte de Moacyr Scliar. Como muitos antes e muitos depois de mim, fui conhecer Scliar pelos livros bem antes de ter oportunidade de vê-lo ou falar com ele. Já havia lido seus textos no colégio (o primeiro deles foi o conto Pausa, incluído em um livro-texto de Literatura no primeiro ano do então 2º Grau. Não digo que entendi de cara a proposta, mas havia algo ali, no tom ao mesmo tempo leve e preciso da prosa, que me fisgara). Já havia lido outras obras indicadas pelo colégio, como A Balada do Falso Messias. Já havia lido seus livros simplesmente porque eles estavam ali na biblioteca da cidade, como Os Voluntários. Já havia, em suma, lido muito de sua obra quando o vi pela primeira vez, de longe, sentado a uma mesa no café do térreo da Casa de Cultura, numa tarde amena de 1992 – não apostaria um pila nisso, mas arrisco que era setembro ou outubro, eu recém havia mudado para Porto Alegre. Depois disso, eu o vi em palestras da Feira do Livro, em debates abertos na UFRGS, em diversas situações para as quais volta e meia escritores são solicitados – e era fácil ver Scliar nessas ocasiões. Com a gentileza que ele sempre teve, mas que na época eu não sabia que ele tinha, ele sempre aceitava.
Anos se passaram, Scliar escreveu outros livros depois daquela tarde que o vi de longe em 1992, muitos deles foram imediatamente incluídos entre suas grandes obras, como Sonhos Tropicais e A Mulher que Escreveu a Bíblia. Nesse meio tempo, eu me formei, comecei a trabalhar como jornalista e fui parar na redação da Zero Hora, primeiro como repórter de Geral. Scliar era um frequentador constante da editoria de Geral, onde também se fazia o Caderno Vida, para o qual ele era colunista. Pelos seus livros, Scliar sempre passou a impressão de ser um humanista gentil. Nem sempre essa impressão se confirma quando estamos diante do escritor de carne e osso – e nem é para confirmar mesmo, a melhor vida de um escritor é nos livros. Mas, em casos raros, o escritor em pessoa corresponde integralmente à impressão que se forma em sua leitura. Scliar era gentil, não negava conversa, era um narrador de causos, comentava pesquisas recentes que havia lido sobre saúde – uma vez no bar, me disse algo sobre ser preferível tomar ou café solúvel ou em pó, passado, mas eu confesso que não me lembro mais o que era, então se estou fazendo a coisa errada há uns trinta anos não é por culpa dele.
Escrevendo sobre Scliar
No jornal, fui parar na área de Cultura e, depois de algum tempo, estava escrevendo sobre livros. E meu contato com Scliar aumentou. Viajado e muitíssimo bem-informado, nos retornos sempre tinha uma palavra sobre algo que havia visto, lido, perguntava se tínhamos intenção de falar sobre algo nas próximas edições, senão ele mesmo poderia escrever – e escrevia. Lia rápido, escrevia mais rápido ainda. Era uma constante pedirmos seus “grifos”, para usar o jargão que definia textos opinativos especializados, que eram publicados em itálico (também chamado “grifo”) para demarcar graficamente seu caráter de opinião, ao contrário do material principal, que seria reportagem – duvido muito que qualquer leitor não vinculado ao jornalismo profissional sacasse essa diferença, mas a imprensa escrita sempre se consolou com essas pajelanças inócuas para não admitir que em seus espaços muitas vezes o leitor não consegue distinguir jornalismo, opinião e às vezes publicidade. Mas divago: pedíamos muitos grifos a Scliar porque ele, sempre que topava, entregava o texto com uma rapidez impressionante.
Mas eu dizia que foi nessa época que cheguei a ser um interlocutor de Scliar – não, não estou querendo dizer que era seu amigo, continuei chamando-o de “professor” sempre, uma reverência da qual nunca abri mão, embora ele próprio me tratasse com muita informalidade. A questão é essa: Scliar era tão gentil e acessível que podia fazer alguém sentir-se próximo a ele. Era uma personalidade calorosa, sempre com uma palavra cordial e elegante. Dizem que a morte torna as pessoas mais bem lembradas, e é verdade. Mas, no caso de Scliar, as muitas manifestações feitas na época de apreço por sua obra e por sua pessoa tinham boa probabilidade de serem sinceras. Ele era o que seus livros eram: humanos, divertidos e argutos. No futuro, penso que Scliar será lembrado muito como Érico é ainda hoje: alguém que parece não ter feito inimigos ao longo da vida. Talvez porque não tenha mesmo.
Viagens literárias
Scliar era um escritor viajante, um peregrino que não recusava participação em eventos internacionais ou nacionais – uma rotina que, ao contrário de muitos de seus pares, não o impedia de escrever. Scliar levava um laptop e escrevia em qualquer lugar, até mesmo na sala de embarque do aeroporto. “Eu escrevo em qualquer lugar, não conheço o tão famoso ‘branco’, para mim a escrita flui, é praticamente fisiológico”, me disse certa vez em uma entrevista em sua casa por ocasião da passagem de seus 70 anos.
Mais do que um escritor viajante, poderíamos dizer que um escritor de viagens – não no sentido dos livros de não ficção relatando viagens físicas. Mas uma menção ao fato de que, em duas dezenas de romances escritos ao longo de quatro décadas de carreira, Scliar várias vezes levou seus personagens a cenários distantes tanto no tempo como no espaço.
A primeira parte de Na Noite do Ventre o Diamante se passa na Holanda do século XVII, tendo como personagem o filósofo Baruch de Spinoza. A Estranha Nação de Rafael Mendes tem uma de suas partes protagonizada por Maimônides, filósofo e médico judeu do século XII. Os Vendilhões do Templo vai aos tempos bíblicos enfocar o período de pregação de Jesus pelo olhar de um comerciante colhido por uma das poucas explosões de ira registradas nas narrativas oficiais da vida de Cristo. Em A Mulher que Escreveu a Bíblia, Scliar recua mais ainda, contando a história pela voz da concubina mais feia do harém do mítico Salomão, o terceiro rei de Israel.
Essas viagens no tempo também vasculharam o passado do Brasil, em Porto Alegre ou fora dela. A imigração judaica para o Rio Grande do Sul foi tema de romances como O Exército de um Homem Só, O Centauro no Jardim e A Guerra no Bom Fim. A Revolta da Vacina de 1904 – um tipo de delírio distante que demoramos a entender como aconteceu até chegarmos em 2020 e a revolta dos reacionários à vacinação contra a Covid nos demonstrar direitinho como aquilo foi possível – é o clímax de Sonhos Tropicais, assim como a renúncia de Jânio Quadros e a instabilidade política que se seguiu são cruciais na trajetória do protagonista de Mês de Cães Danados. O último romance publicado por Scliar, Eu Vos Abraço, Milhões, é um acerto de contas com a utopia esquerdista com a qual o próprio escritor comungou na juventude, ambientado no representativo 1930 da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder.
Romance da História, não histórico
Pois, com tantos mergulhos ficcionais na História, Scliar não era um romancista histórico, ao menos não no sentido comumente aplicado ao gênero desde Walter Scott até seus exemplares modernos como Bernard Cornwell ou Robert Harris. Scliar era, isso sim, um satirista, ao modelo clássico de Swift – sabia usar a história mais como pretexto do que como cenário. Como o Gulliver que viaja por várias terras que nada mais são que uma caricatura da Inglaterra do século XVIII, os personagens de Scliar, por mais que se movimentem no passado, estão na verdade em nosso presente, comentando a realidade contemporânea que o autor via e vivia.
Em vez de buscar a máxima verossimilhança na ambientação, nas ações e mesmo na linguagem, Scliar abraçava deliberadamente o anacronismo como um elemento de humor, pelo estranhamento que produziam em seus livros conceitos de nosso mundo transplantados para o passado. Em apenas um de muitos exemplos possíveis, o “vendilhão” que protagoniza a primeira parte de Os Vendilhões do Templo, no ano 33 da era cristã, é retratado como um protocapitalista cheio de projetos mirabolantes para expandir seu negócio – a venda de pombos para sacrifício na entrada do templo de Israel: uso de réplicas de madeira no lugar de aves de verdade, diversificação do uso dado aos pombos, automação do abate ritual e até um grande “congresso internacional de vendilhões”.
E é de uma hilaridade inegável ler esse comerciante do primeiro século cristão empregar termos de “otimização de negócios” tão populares nesta era capitalista: “O aperfeiçoamento de recursos humanos seria um objetivo importante do evento. O despreparo na área era evidente e propiciava situações grotescas, constrangedoras. O vendilhão do Templo tinha observado que muitos de seus colegas maltratavam os pombos: vai morrer mesmo, resmungavam, melhor descarregar a raiva numa ave idiota do que na família.”
Romances x contos
Aqui neste texto decidi falar só dos romances porque nos contos Scliar operava com outro modelo, embora com o mesmo humor e os usos dos mesmos recursos, como os já citados anacronismos e a repetição de frases e sequências em contextos diversos para obter efeitos cômicos. Nos contos, Scliar buscava uma narrativa mais semelhante à parábola bíblica ou às elipses de Kafka. Nos romances, a estrutura narrativa se tornava mais complexa. Em muitos deles, Scliar evitava a terceira pessoa totalizante, utilizando truques que acrescentavam novas camadas à arquitetura narrativa. Sonhos Tropicais é narrado por um médico desempregado que espera a chegada de um eminente pesquisador estrangeiro interessado na vida de Oswaldo Cruz. Enquanto o visitante não chega, o narrador reconta a história do sanitarista a uma curiosa segunda pessoa, falando sozinho com o próprio Cruz. A Majestade do Xingu enfoca a vida do naturalista Noel Nutels, um dos grandes indigenistas do Brasil, pelo ponto de vista de um fictício imigrante judeu que vem da Bessarábia no mesmo navio de Nutels e passa as décadas seguintes acompanhando a trajetória do sanitarista enquanto vive os conflitos de sua própria vida.
Curiosamente, os dois romances são biografias de figuras reais – nos quais Scliar repete, com variações, a mesma estratégia: seguir de perto os acontecimentos cronologicamente registrados da vida do personagem, mas entregando a subjetividade da narrativa a um personagem fictício com o qual o autor podia brincar e extrapolar à vontade.
Em Manual da Paixão Solitária, o ponto de vista pelo qual a trama é contada oferece uma chave que torna possíveis os anacronismos intencionais: a história dos irmãos Er, Onan e Shelá, filhos do patriarca bíblico Judá, é narrada alternadamente por dois especialistas em estudos bíblicos que apresentam, em um congresso de pesquisadores, trabalhos muito pouco científicos e bastante literários. Passar por esta premissa um tanto fantasiosa para a primeira moldura da trama é, no fim, o grande desafio do leitor – porque, quando envereda pela narrativa bíblica propriamente dita, Scliar conduz seus leitores com a destreza habitual, discutindo na desértica Israel centenas de anos antes de Cristo questões de individualidade e gênero que afligem nossos dias no século XXI.
Em uma nota correlata, me dou conta de que esse “anacronismo intencional” nos romances históricos de Scliar ecoa, de certo modo, é um procedimento usado por outro autor da mesma geração de Scliar e com uma larga fatia de seu trabalho dedicada a romances ambientados no passado histórico: Luiz Antonio de Assis Brasil. Em uma entrevista concedida a mim em 2013, ao comentar características específicas de sua obra, Assis Brasil resumiu um pouco a sua forma de abordar o tema:
“Esse personagem com mentalidade de hoje tem condições de organizar o que está vendo em uma perspectiva meio desconfiada, meio cética, meio cínica, que é típica do período em que estamos vivendo. Acho uma pena que, por vezes, as pessoas não descobrem isso, ficam pensando: este é um romance histórico. Na verdade, eu estou discutindo o próprio romance histórico. Essa cabeça organizadora obedece a critérios nossos, contemporâneos.
Ou seja: Para Assis Brasil, bem como para Scliar, vale o famoso lema de Benedetto Croce: “toda História é contemporânea”.
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Foto da Capa: Reprodução do YouTube / Fronteiras do Pensamento

