Lembro de um primeiro dia do ano, na casa da minha mãe, na praia. Estávamos ali para relaxar. Enquanto preparamos o almoço, minha filha de quatro anos estava na sala e a televisão estava ligada. De longe, eu ouvia as notícias, uma sequência de catástrofes, assaltos e tragédias, servindo de trilha sonora involuntária para as nossas conversas. Quando entrei na sala, ela me olhou e perguntou, com a simplicidade desarmante das crianças:
— Por que estamos vendo isso? Querem começar o ano mal?
Ela tinha toda razão.
Faz tempo que deixei o hábito de assistir ao noticiário. Cansei. Cansei porque sei que o mundo é mais do que as manchetes que vendem medo. Conheço tantas histórias de pessoas comuns, coletivos, educadores, empresas e iniciativas silenciosas que transformam realidades — mas raramente ganham espaço. No máximo, entre uma denúncia e outra, surge o nascimento de uma girafinha no zoológico, como um respiro simbólico antes da próxima enxurrada de violência e corrupção.
Não que o ruim não exista. Mas há tanto de bom, de construtivo, que simplesmente não é colocado na pauta. Antes, o Jô Soares ainda oferecia algum alento, entrevistando gente interessante — mesmo que muito tarde da noite. Agora, nem isso. Por sorte, os podcasts e programas de internet assumiram esse papel de abrir janelas para o que constrói, ainda que também exista muito conteúdo vazio, falando bobagem. Mas o meu algoritmo já aprendeu do que eu gosto — e está tudo certo.
Sempre gostei de experimentos antropológicos. Talvez por isso o urbanismo me fascine tanto: é o campo em que o humano e o social se encontram, em que a cidade se torna o espelho construído dos nossos valores. O mais belo — e o mais desafiador — é que as cidades, como as pessoas, podem se reinventar. Podem mudar, melhorar, renascer. Mas, para isso, precisam ser reimaginadas coletivamente. É preciso coragem para transformar. E essa coragem se enfraquece quando nosso imaginário está inundado de notícias ruins, quando o medo toma conta até do que sonhamos.
Sou professora de urbanismo e, em algumas aulas, proponho discutir o tema SEGURANÇA. Peço aos alunos que escrevam as palavras que lhes vêm à cabeça — tanto os problemas quanto as possíveis soluções. As respostas aparecem em uma nuvem de palavras: quanto maior a fonte, mais citada é a ideia.
Faça o exercício você também, antes de seguir lendo. Reflita sobre o que vem à mente.
Em geral, o resultado é o seguinte:
falta de iluminação – policiamento – medo – rua – bandido – transporte público – assalto – roubo de celular – falta de liberdade – vontade de morar fora – fugir – grades – alarme – violência – periferia – centro – controle tecnológico – tráfico – vidro blindado – repressão – desigualdade – reconhecimento facial.
Poderíamos, a partir dessas palavras, discutir dimensões analíticas: “falta de iluminação” e “policiamento” como infraestrutura e serviço público; “medo” e “vontade de morar fora” como percepções sociais; “grades” e “alarme” como respostas privadas; “reconhecimento facial” e “controle tecnológico” como soluções estratégicas; “tráfico” e “desigualdade” como causas estruturais. Seria uma boa análise crítica.
Mas, na verdade, toda vez que faço essa atividade saio reflexiva. Porque ninguém, absolutamente ninguém, menciona o que eu realmente esperava debater:
Segurança pública, num país que fechou 2024 com cerca de 35 mil homicídios dolosos.
Segurança alimentar, quando 24% dos lares brasileiros enfrentam algum grau de fome.
Segurança habitacional, num país com 6,5 milhões de moradias faltantes ou inadequadas.
Segurança educacional, em que 93% das crianças estão na escola, mas nem sempre com condições e qualidade adequadas.
Segurança sanitária, quando 49 milhões de brasileiros ainda vivem sem esgotamento adequado.
Segurança de acesso à saúde, já que quase dois mil municípios dependem apenas da rede pública e nem sempre há infraestrutura e profissionais suficientes.
E é isso o que mais me inquieta. O fato de essas questões nunca surgirem diz muito sobre o que povoa o nosso imaginário. Estamos condicionados a olhar apenas para o que nos ameaça, como se também tivéssemos algoritmos internos moldando nossa visão. Vemos as consequências, mas não as causas. Observamos o medo, mas não o que o sustenta.
Vivemos em uma sociedade desigual, que naturaliza o desamparo daqueles que sustentam o nosso cotidiano — e isso, sim, é perigoso.
Se quisermos cidades mais seguras, precisamos enfrentar as violências que não aparecem no noticiário — aquelas que nascem da fome, da falta de moradia, da escola precária, do saneamento ausente e de um sistema de saúde que não dá conta.
Há caminhos possíveis. Medellín conseguiu reverter a condição de uma das cidades mais violentas do mundo por meio do Plan Maestro de Servicios Bibliotecarios Públicos de Medellín, iniciado em 2004, que resultou, dois anos depois, na inauguração da primeira biblioteca-parque. Esses e outros equipamentos voltados à população de baixa renda qualificam entornos vulneráveis, transformando o panorama urbano, e até hoje a cidade mantém a redução progressiva das taxas de violência.
No Brasil, os COMPAZ (Centros Comunitários da Paz), criados em Recife a partir de 2016, mostram resultados semelhantes. Voltados à prevenção da violência, à inclusão social e ao fortalecimento comunitário, já somam cinco unidades em funcionamento — as chamadas “fábricas de cidadania”. Desde então, Recife subiu dezenove posições no ranking nacional de segurança pública.
Se alguém ainda acredita que iniciativas como essas “não dão lucro”, vale perguntar: quanto custam as operações policiais, a segurança privada, os muros que enfeiam nossas cidades e as câmeras que tentam nos devolver uma falsa sensação de paz? Sem falar da vida de inocentes, vítimas destas circunstâncias.
Investir no futuro é investir em oportunidades que trazem dignidade — e é dela que a cidadania é feita.
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Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil

