Cada novo ano nos convida a pensar sobre prioridades, planejar onde vamos investir energia e perceber que muitos projetos dos quais fazemos parte demandam atenção prolongada e somente se tornam possíveis em movimentos coletivos.
Você já pensou em que idade terá em 2050? Quais os projetos farão sentido neste ano? O que as ações que você promove hoje irão influenciar nessa caminhada?
Desde setembro de 2024, a Odabá – Associação de Afroempreendedorismo integra o projeto Cenários Futuros para População Negra no Brasil. Como associada e representante da instituição nessa ação nacional, posso dizer seguramente que a temática idealizada por Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, não contém idealizações do que é projetado para 55,5% da população brasileira até 2050.
Em nosso grupo diverso, formado por 35 lideranças de entidades da população negra no país, de várias unidades federativas, diferentes setores da sociedade, territórios, realidades e áreas de conhecimento, ponderamos, por mais de 12 meses, sobre situações concretas e analisamos contextos históricos para traçar caminhos emancipatórios.
Após pontuarmos sobre realidades políticas, econômicas, de mercado de trabalho, de assistência social e de educação, entre tantas questões que surgiram, elaboramos quatro cenários denominados com os Adinkras correspondentes. Mas você sabe o que são Adinkras? Acredito que cabe um parêntese aqui.
Adinkra é um antigo sistema africano de escrita, legado das etnias acã, grupo étnico da África Ocidental. São mais de 80 símbolos destacados pelo conteúdo que trazem como ideogramas. Essas representações estética e idiomaticamente tradicionais incorporam, preservam e transmitem aspectos da história, da filosofia, dos valores e das normas culturais dos povos africanos, especialmente da região de Gana.
Os Cenários Futuros da População Negra no Brasil e os respectivos adinkra escolhidos foram:
Cenário Aya – Justiça Racial: trata-se de devolver ao negro aquilo que lhe é de direito e que lhe foi sequestrado. O adinkra “samambaia” representa resiliência, perseverança, força e orgulho.
Cenário Sankofa – Ascensão Econômica: a população negra vivencia os frutos da maior qualificação, mas ainda existem estruturas que dificultam a mobilidade real. O adinkra “sankofa” busca a sabedoria na ancestralidade para ressignificar o presente sem esquecer do passado.
Cenário Umoja – Educação Antirracista que Transforma: se a educação é uma porta para o futuro, o negro é a chave. O adinkra “umoja” simboliza unidade, solidariedade e harmonia entre as pessoas e enfatiza a colaboração, apoio mútuo e construção de laços fortes.
Cenário Nkyinnkyim – Sobrevivência e Resistência: Brasil é território de dor, apesar de tudo, a luta racial está presente e o movimento negro segue vivo. O adinkra “nkyinkyim” significa torcer, virar, trata da natureza incontrolável da vida e da necessidade de resistência, versatilidade e dinamismo para prosperar nela.
O lançamento oficial dos Cenários Futuros para População Negra no Brasil aconteceu em novembro de 2025, em Salvador, durante a Feira Preta, sob a benção da sua fundadora Adriana Barbosa e da nossa Griô Benilda Brito. Agora, precisa seguir seu caminho.
Juntas, as lideranças que construíram esse projeto somam 470 anos de resistência, mais tempo do que os 400 anos – que nunca terminam – de escravidão no Brasil. Cada passo dado por quem luta por nós (e ao nosso lado) é parte de uma trajetória que vem de longe. Mas a pergunta que fica é: o que vamos fazer com esse legado?
O futuro que queremos só será possível se começarmos agora!
Em novas edições da Coluna Odabá, trarei mais detalhes sobre os quatro cenários, ampliando a discussão e o entendimento para que possamos concretizar esse plano. Vamos juntos?
Sobre os participantes e a iniciativa:
A temática dos Cenários Futuros para População Negra no Brasil foi idealizada por Vitor Del Rey. O Instituto Guetto é uma instituição sem fins lucrativos que desenvolve pesquisa e indicadores, consultorias e treinamento nas áreas de inclusão e diversidade, direitos humanos e capacitação profissional, com vistas a combater as iniquidades raciais e de gênero no ambiente institucional.
A construção do projeto adotou a metodologia da Reos Partners, organização internacional focada em grandes questões sociais, atuando na construção de cenários futuros e transformação. Além dos citados, são parceiros dos Cenários: Frente Nacional Antirracista, Ashoka Brasil, Fundação Itaú, Fundação Lemann, Instituto Unibanco, Instituto GOL, Banco do Brasil Sede I, Malala Filmes e Samara Cruz.
LEIA AQUI as informações completas sobre os cenários.
Denise Ribeiro Denicol é entusiasta da saúde mental no ambiente de trabalho e tem se ocupado de provocar esse cuidado também com o recorte racial. Sempre disposta a conversar sobre temáticas relacionadas ao fortalecimento de mulheres, maternidade, trabalho e dinheiro, é Advogada Trabalhista, Diretora Jurídica da ODABÁ - Associação de Afroempreendedorismo e parceira do escritório Baladão e Fagundes.
Todos os textos dos membros da Odabá estão AQUI.
Foto da Capa: Samara Cruz / Divulgação

