Não é fácil buscar inspiração para escrever algo engraçado, bonito ou edificante para apresentar a você, leitor ou leitora.
Especialmente quando estou desanimado ou oprimido pela passagem do tempo.
O tema da inspiração é recorrente nas minhas colunas e nas de tantos outros cronistas.
Mas dessa vez a conversa não é bem essa.
Confesso que não sou muito dado a questionamentos sobre o que fiz ou deixei de fazer.
Geralmente, não me arrependo das decisões que tomei.
A vida é uma obra de teatro, onde infelizmente não temos a chance de ensaiar antes, já disseram alguns pensadores. Nas redes, a frase é geralmente atribuída a Chaplin, mas a vi em outra fonte, de sabedoria, com outras palavras mas a mesma essência, no fundamental “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera: “a vida humana acontece uma só vez e nós nunca poderemos verificar qual teria sido a melhor decisão, porque em todas as situações nós só podemos decidir uma vez, como se estivéssemos condenados a agir sem ensaio, como um ator que entra em cena sem nunca ter ensaiado.”
É claro que estou falando das decisões importantes.
Não das cotidianas.
No dia a dia, não foram poucas as vezes em que saí da mesa com o clássico:
– Eu não deveria ter comido tanto!
Dias atrás, repeti o mantra ao devorar uma lata de leite condensado (não a lata, obviamente). Tive tempo para evitar o delito. Lembrei-me de onde escondi a tentação; em um canto da cozinha escolhido justamente para não encontrá-la. Abri a porta do armário e vasculhei entre as latas de milho, ervilha e sardinha. Achei a “moça” e coloquei-a no freezer.
Poderia ter congelado a ideia e a vontade, mas, após 30 minutos, conscientemente retirei a lata do freezer. A sangue frio, peguei o abridor. Depois, busquei na fruteira uma banana nanica (que em Porto Alegre chamamos de caturra), cortei-a em rodelas, coloquei-as na latinha e devorei tudo, colher a colher, raspando cuidadosamente todo e qualquer resquício do doce.
Pouco depois, disse para a Maria, que preparava uma salada para o que seria, dentro de uma hora, o nosso jantar light:
– Eu não deveria ter comido toda a latinha do leite condensado!
Nessas coisas convivo com culpas, mas, como dizia, não sou de remoer sobre as grandes decisões tomadas.
Não sabemos o que aconteceria se tivéssemos feito o que deixamos de fazer. Ou se não tivéssemos feito o que fizemos!
Aquele emprego que não aceitamos teria mesmo me conduzido ao sucesso?
Não haveria um acidente na volta do trabalho para casa?
Eu teria um infarto fulminante no fechamento de uma reportagem?
O reconhecimento no jornal teria trazido a felicidade?
Eu teria deixado de conhecer a Maria, o amor da minha vida?
Deixemos as coisas como foram, do jeito que foram.
Há uma crônica fantástica, “Versões de Mim”, do notável – apesar de colorado – Luiz Fernando Veríssimo, em que o personagem vai a um boteco, chamado “Imaginário”, e começa a beber para esquecer o que não fez.
Aí se senta ao seu lado um homem que tinha a sua idade, a sua cara, “o mesmo desconsolo” e se apresenta.
– Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.
A conversa prossegue:
– Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?
– Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia…
– Eu sei, eu sei… – diz alguém sentado ao lado dele.
Eles olham para o intrometido. Tinha a cara, a idade e a cara de ambos. E a cara, como esclarece o cronista, não parecia ser mais feliz do que a deles.
Esse novo personagem prosseguiu:
– Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
– Como é que você sabe?
– Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me atirei… Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…
– Ele chutaria para fora!
Quem falou isso, esclarece o primeiro personagem, foi outro sósia, que logo depois também se apresentou.
– Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…
Na crônica de Veríssimo, as três versões dele mesmo indagam, ao mesmo tempo, o que aconteceu.
Ele responde:
– Lembra aquele avião da Varig que caiu na chegada em Paris?
– Você…
– Morri com 28 anos.
– Bem que tínhamos notado sua palidez.
– Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…
– E ter levado o chute na cabeça…
O primeiro personagem diz que foi melhor ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. E lamenta: “Ah, se eu tivesse passado….”
Mas alguém sentado à esquerda diz:
– Você deve estar brincando!
Esse que agora fala também tinha a cara dos personagens, mas parecia mais velho e desanimado.
– Quem é você?
– Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.”
(A crônica prossegue magistralmente com outros “eus” ocupando todas as banquetas do bar. Vale a pena procurá-la em livros ou nas redes)
Caro leitor, prezada leitora da minha coluna na Sler: não sabemos o que seria de nós se tivéssemos ou não feito isso ou aquilo.
O “se” não entra em campo nem no futebol nem nas nossas vidas.
Mas, claro, apesar de tudo o que escrevi até agora, há dias em que nossas angústias e questionamentos são mais fortes do que aquilo que somos ou pensamos.
Dias atrás, a questão do tempo estava me deixando um tanto angustiado e, querendo ou não, vieram à mente algumas decisões e indecisões que poderiam ter sido diferentes.
– Tudo bem, Airton – disse para mim mesmo – o que passou, passou. – Não dá para sentir culpa ou lamentar. Mas é preciso saber que o que ficou para trás agora é tarde para tentar!
Sem inspiração para escrever uma crônica ou mesmo ler qualquer coisa, liguei a televisão. Estava passando o “Jornal Nacional”. Foi aí que descobri Iolanda.
Iolanda!
Iolanda!
Iolanda!
Tudo se iluminou!
Meus olhos e espírito momentaneamente cansados se depararam, ao final do programa, com uma belíssima matéria sobre Iolanda Ribeiro Conti, nascida na cidade mineira de Piranguçu e residente em Guarulhos, na Grande São Paulo, que agora, aos 91 anos de vida, ingressou na faculdade.
Iolanda foi analfabeta até os 84 anos. Aos 85, realizou seu grande sonho: aprendeu a escrever o próprio nome, após ter passado quase toda a vida autenticando documentos com o próprio dedo. “Até mesmo na certidão de casamento!”
Pegou gosto pelo estudo. Concluiu o Ensino Fundamental em 2023. E o Ensino Médio em 2024. Recebeu a notícia de dois professores do ensino básico de que havia recebido uma bolsa para estudar Nutrição na Universidade de Guarulhos (UnG).
Não pense que foi por falta de vontade que Iolanda demorou tanto para aprender a ler e escrever. Ela começou a trabalhar ainda muito menina, aos oito anos de idade, na roça, com os pais. Além de trabalhar muito, ainda tinha que cuidar dos irmãos. Aos 11 anos, a garota se mudou para São Paulo. Foi com uma família que prometeu a seus pais que cuidariam dela e, o mais importante, a colocariam em uma escola.
Mas quem disse que promessa feita é promessa cumprida?
Essa família só explorou Iolanda, que trabalhou, trabalhou e trabalhou.
Mesmo assim, se casou e teve três filhos. Foi uma mãe presente, sem nunca deixar de trabalhar: em lavanderia, em padaria, com faxinas.
Sempre sem saber ler.
Sempre sem saber escrever.
Sempre rubricando documentos com a própria digital!
Agora a vejo iluminada e sorridente, como se a vida tivesse sido sempre fácil, afirmando orgulhosa para a televisão!
– Fiquei surpresa por ganhar a bolsa. Vou estudar o dia inteiro a Nutrição. Querer é poder e vou conseguir. Não sabia nem assinar o meu nome quando entrei na escola. A professora pegava na minha mão até eu aprender. Hoje, escrevo com caneta em qualquer lugar e gosto muito de ler. É uma bênção de Deus.
Emocionado e à procura de mais detalhes, revi depois essa e outras reportagens em televisões e, também, pesquisei em jornais e portais.
A história toda de Iolanda é belíssima. Sua filha, fisioterapeuta graduada, largou o emprego noturno para acompanhar Iolanda diariamente nas aulas do Ensino Médio:
– Minha mãe sempre disse que queria muito estudar e aprender a ler e a escrever. Foi por isso que a matriculei em uma escola – disse Vera Lúcia Conti, que acrescentou: – Valeu muito a pena. Faria tudo de novo, já que ela fez muito por mim. Sou adotada por ela e muito grata. Se preciso, irei agora com ela nas aulas da faculdade, para ajudar, porque ela merece!
Fiquei comovido e motivado com Iolanda, de 91 anos. Ela, que até há pouco nem sabia escrever o próprio nome, mas que sempre foi sábia, não permite que eu não seja resiliente, que eu desista de alguns sonhos.
Pego emprestadas as palavras de “Yolanda”, feita pelo cubano Pablo Milanês para sua então esposa, Yolanda Benet, quando ela estava grávida da primeira filha do casal (uso a versão “Iolanda”, feita em português por Chico Buarque), para reverenciar aqui essa grande mulher brasileira que ainda nem começou a faculdade, mas já nutriu meu coração, minha mente e o corpo inteiro, com energia, motivação e esperança:
“Se alguma vez me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Iolanda, Iolanda, eternamente Iolanda…”
Todos os textos de Airton Gontow estão AQUI.
Foto da Capa: Iolanda Conti / Reprodução do Instagram