Quando eu era criança, no “subúrbio nos melhores dias” do Rio de Janeiro, cantado em versos pelo saudoso João Nogueira, aprendi logo cedo uma regra que vigora até hoje: “dedo-duro não tem vez”. Dentro dos “multiversos” de criação de crianças e jovens, principalmente do gênero masculino, “dedurar” era algo indigno e passível da maior “pena” prevista entre grupos de crianças e adolescentes: o isolamento. Havia — e ainda há — uma espécie de código invisível de que não se deve entregar, de forma alguma, um amigo ou “parceiro”. Ser caguete era um vacilo “capital”. Ninguém queria fazer parte do “time da entregação”, como cantado nos versos do saudoso Bezerra da Silva.
Ainda na tenra idade, eu sabia que quem era “dedo-duro” era excluído das brincadeiras, dos grupos, por experiência própria, porque fiz isso mais de uma vez, fui do “time da entregação”, amizades deste tempo, poucas tenho. Essa regra valia primordialmente para quando alguém fazia algo errado — o famoso “deu mole”. E isso servia para tudo: quebrar uma janela com uma “bolada”, pegar escondido a bicicleta de um vizinho para dar uma volta e até não ser exposto em relação aos sentimentos de namorar com aquela “pessoa dos sonhos juvenis”. “Dedurar” te jogava em um “limbo da existência coletiva” — e isso acontece até os dias atuais.
No entanto, os anos passam. A gente cresce e amadurece — ou pelo menos deveríamos amadurecer. O senso de certo e de errado, dizem os cientistas, de alguma forma já se encontra dentro das nossas pequenas cabecinhas. Entender o que fazemos com isso e se devemos nos implicar, isso ainda como adultos seguimos tentando.
Seguimos respeitando o “código invisível”, mas, aos poucos, vamos tomando consciência do que significa “denunciar”. Ela não guarda qualquer relação com os aprendizados da infância de “caguetar alguém”, mas sim com o compromisso de preservação da vida — das mulheres, neste caso.
Um dos sentidos do verbo “denunciar” é “revelar(-se) à justiça; apontar alguém ou a si mesmo como autor de um crime ou delito”. É neste aspecto de correções de injustiças históricas que o verbo transitivo direto “denunciar” requer um objeto direto bem específico: a violência contra as mulheres e o combate ao feminicídio. O ato de denunciar não guarda relação com os aprendizados da infância de “caguetar alguém”, mas sim com a preservação da vida.
Denunciar também está diretamente ligado a uma necessidade urgente e permanente de mudanças nos comportamentos associados à masculinidade hegemônica. Precisamos rever nossas criações e como estamos educando nossas filhas e, principalmente, nossos filhos sob a ótica da igualdade de gênero. Entender que valorizar a agressão, o uso da violência física e o assédio moral e sexual contra as mulheres é inadmissível e isso deve ser eliminado da nossa forma de ser e existir no mundo por ser bruto, irascível e ignorante. A necessidade de “(re)”aprender é “pra ontem” — e os dados comprovam isso.
Apontar alguém implica estar presente, participar do ato, agir, fazer parte do que está posto e acontecendo, parte de um lugar incômodo, de tomar consciência de que aquilo que está sendo denunciado, para além de ilícito, nos traz inconformidade. Ainda mais no cenário em que as violências estão cercadas, entre muros, entre paredes, dentro das casas, dos lares. Sim, elas aparecem, saem das casas, nas roupas que cobrem os braços em um dia de calor, nos óculos escuros em dia de chuva. É fundamental reparar o entorno, importar-se, implicar-se.
Para isso, é preciso que haja a compreensão interna de que não estamos diante de algo que envolve a vítima, a conduta, a postura, o que foi feito por ela, porque essa foi a construção histórica que nos levou e nos traz aos números de hoje.
Segundo informações do Ministério da Justiça, em 2025, quatro mulheres foram mortas por dia no Brasil, totalizando 1.470 vítimas. Isso seria o equivalente a um pouco mais do que a capacidade total de um trem urbano.
De acordo com o portal Agência Brasil, “o sistema judiciário mostra que, em 2025, a Justiça brasileira julgou em média 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos — alta de 17% em relação ao ano anterior”. As informações apontam ainda que “foram concedidas 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 medidas por hora, segundo o Conselho Nacional de Justiça”. Ou seja: enquanto você lê esse texto, em um tempo médio de 6 minutos, cerca de 7 mulheres receberam medida protetiva.
No recorte de cor/raça, as mulheres negras são as maiores vítimas da violência letal. O Atlas da Violência 2025 apontou que, em 2023, 2.662 mulheres negras foram assassinadas, o que representa 68,2% dos feminicídios registrados naquele ano. Os dados são alarmantes. O documento ressalta ainda que muitos casos de violência doméstica e intrafamiliar contra mulheres e meninas no país ainda são subnotificados.
A morte começa na voz que te impede de sair com uma roupa, nas constantes perguntas e desconfianças sobre onde você está, nas discussões em que uma porta é batida, um murro na mesa, entre pedidos de desculpas e lágrimas, no empurrão contra a parede, nos novos pedidos de desculpa, na compra de um carro novo para compensar a dor, no tapa no rosto, nas mãos levadas ao pescoço, nas filhas que viram suas mães com braços marcados por manchas, que deglutem com dificuldade a resposta: “mas teu pai me ama”. O perigo não está na rua escura de um beco, as mulheres foram ensinadas a compreender o conforto e a segurança do lar e a cada dia aprendem o quanto perdem em não ver o que há lá fora. Senhoras e rainhas do lar, que estão morrendo das maneiras mais brutais, sob a justificativa do amor.
E os executores somos nós, homens. Precisamos mudar com urgência comportamentos herdados de uma construção patriarcal, misógina, homofóbica, transfóbica e racista contra as mulheres. Cabe a nós dar esse passo sem fingimentos e omissões convenientes. Precisamos, sim, “redesenhar” nossos modelos de criação com maturidade e responsabilidade.
Redesenhar juntos.
Mesmo que nós, mulheres, estejamos em coletivos, agindo, estudando, buscando ajuda, buscando novas formas de nos relacionar, denunciando, somos uma pontinha de uma grande pirâmide, cuja base segue afastada, isolada, acostumada e conformada com o contexto de necessidade.
Amigos, pais, filhos, tios, primos, de alguma maneira, todos os homens têm uma mulher nas suas vidas. Reparem no conteúdo das mensagens recebidas, nos e-mails. A oferta de um corpo em imagem nos transforma em produto, algo que pode ser possuído, retirado, excluído. Precisamos partir deste primeiro passo: compreender a gravidade da cultura heteronormativa e patriarcal internalizada nos homens.
A sensibilidade nunca foi feminina. A sensibilidade é humana, parafraseando a poeta Alda Merini, e a virilidade, por sua vez, é uma fantasia, como bem ensina Vinicius Lima, no livro Homens em Análise: Travessia da Virilidade.
Além disso, precisamos denunciar os casos de violência contra as mulheres. Em briga de homens contra mulheres, temos, sim, que “meter a colher” e denunciar pelo Ligue 180. É mais do que chegada a hora de abandonarmos de vez o antigo conceito de “ser macho” e não cairmos na confusão mental e antiquada de “caguetar”. Devemos agir e atuar como parte integrante do Pacto Nacional — Brasil contra o Feminicídio. Temos o papel de sermos homens e mulheres que atuam em prol da igualdade de gênero e do bem-estar da sociedade.
Glauco Figueiredo Santos é jornalista com 23 anos de atuação profissional e atua no segmento de Comunicação Corporativa. É estudioso e atuante da temática DE&I com recorte pilar racial, parentalidade e história afro-brasileira. Ele é o criador do perfil @omowale_br, é coautor dos livros “Diversidade e Inclusão e Suas Dimensões” volumes II e III e foi integrante da Comissão Antirracista do Colégio João XXIII (Porto Alegre). Glauco é pós-graduando em “História da África e da Diáspora Atlântica” Latu Sensu do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), em parceria com a FGE-SP.
Chris Baladão, bicho raro, formada e por coração advogada, na época em que o curso levava sociais em seu nome, escritora por necessidade de expor a palavra, bailarina porque o corpo exige, professora porque a experiência da vida precisa ser compartilhada.
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