Celular Sapiens. Se você próprio ou própria não é um, tome cuidado para não se tornar. Não sei se você tem escolha. Se ainda temos. Talvez alguns de nós ainda consigam ficar de fora do mundo dos telefones, pouco conectados ou desconectados, podendo sair por aí sem lenço e sem documento como um Homo sapiens qualquer. Sem documento ou com os errados é um perigo. Dependendo do país, de risco altíssimo. Eu, de vez em quando, dou umas voltas aqui pelo bairro em que moro sem nada nas mãos ou nos bolsos. Já pensou se me acontece algo? O máximo que poderão fazer por mim é me deixarem em um pronto-socorro. Anônima, sem eira nem beira. Não que o celular e a dependência que temos dele não nos tratem também dessa forma.
Quantas pessoas têm no seu catálogo telefônico? E nas suas redes sociais? Se tiver mais de 500, pode apostar que você não sabe quase nada de nenhuma. Nem mesmo o rosto reconhece na rua. Eu, que me vejo todos os dias, às vezes, me estranho. Quem é essa aí?, volta e meia indago. Certamente, uma boa parte das pessoas que me têm em seu telefone também se faz essa pergunta e, o que é pior, precisa dele pra saber quem é essa mulher. Ou simular que sabe.
O Celular Sapiens é alguém que passou a priorizar a vida pelo teclado, tornando-se uma espécie de simulacro ou um impostor quando se trata de relações humanas, um genérico dos cérebros e do coração. No amor, por exemplo, mesmo tendo uma parceria, costuma alimentar contatinhos e planos B. Tem de ter um ou mais massageadores de ego pra chamar de seu. Pessoas, é claro, que, quase sempre, não se importam de ser e que, se forem do tipo narcisista maligno, até gostam.
Eu divido o narcisismo em maligno e em benigno. Vez por outra, sei que eles se misturam. Mas, de modo geral, em cada um de nós, só um é o dono da festa. Não preciso dizer que prefiro o narcisismo do bem. Não suporto quem confunde gente com grama. Ou que está sempre de olho na grama do vizinho. Gente sem o sonho da causa própria, incapaz de ser legal com quem não espelha as suas frustrações e a sua infelicidade, focada mais na vida alheia que em qualquer outra coisa, dedicada a encher nossas vidas e inboxes de falsidades e pesadelos.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

