Frequentemente, tenho me deparado com pessoas que lançam ao mundo um olhar cada vez mais desprovido de esperança. Sentem que o processo irreversível da globalização ampliou a distância entre uma minoria extremamente rica e populações mergulhadas na miséria. Percebem que o isolamento imposto pela pandemia da Covid-19 abalou valores fundamentais — como o da vida em família —, corroídos por tragédias recorrentes: feminicídios, estupros, violência doméstica e, em casos extremos, pais tirando a vida dos próprios filhos. Enxergam uma juventude que parece desnorteada diante dos apelos sedutores do mercado e do universo digital. E manifestam receio quanto ao futuro, especialmente diante da rápida expansão da chamada “inteligência artificial”. São elementos que compõem um cenário inquietante, capaz de nos convocar a refletir sobre duas questões urgentes: teria a educação fracassado em seu propósito de formar os jovens, promovendo valores e conhecimentos que favoreçam uma vida mais humana e digna? Que mundo estamos construindo — e legando — aos nossos filhos?
Primeiramente, é preciso entender que a educação não se vincula, precipuamente, à transmissão de um conhecimento acumulado, mas à ação concreta do ser humano no complexo cotidiano de sua vida. Com isso, quero dizer que educamos mais pelo que somos e fazemos, efetivamente, do que pelos nossos bem-intencionados discursos. A propósito, cresci escutando que “de boas intenções o inferno está cheio”.
Culpar os mais jovens pela falta de limites e valores, tachá-los de egoístas e despreparados para a lida diária, tê-los como pouco afeitos ao prazer da leitura e ao labor dos estudos, julgá-los como indisciplinados e desrespeitosos… não exigiria, antes, indagarmos sobre o tipo de presença educativa que nós, pais e adultos, estamos mantendo com e entre eles? Educar é abrir-se para o outro, é manter uma atitude permanente de aprendiz, de respeito, de diálogo; é cultivar a vigilância preventiva de quem sabe que o plantio não floresce sem o trabalho abnegado do agricultor. Educar não é tirar-lhes a voz, o direito de expor suas razões, o acesso à ponderação, o privilégio do argumento. É saber que as pessoas são diferentes umas das outras não por escolhas próprias, mas pela marca de sua natureza e cultura. É perceber-se diferente na busca de alcançar o outro na sua mesma diferença. Ao meu franco entender, se há algum fracasso a ser enfrentado no âmbito educacional, esse diz respeito, em primeiríssimo lugar, ao esfriamento do calor humano, do valor da vida, do diálogo como condição de presença. Vizinhos que não se dizem sequer um “bom dia”; colegas de escola que quase se esbarram ao transitar pelas mesmas vias e não são capazes de acenar, ainda que timidamente, com o cumprimento cordial de quem segue para a mesma atividade; pessoas que só enxergam os seus pares…
Todos nós aspiramos a um mundo melhor. Todavia, não percebemos, ainda, que nossos sonhos são minados pela incapacidade de ver para além das necessárias preocupações com o bem-estar material e os afazeres profissionais. Almejamos um espaço de realização e felicidade para nós e nossos filhos — eis a questão: nós e nossos filhos! Queremos, contudo, impor velhas lições que não contam sequer com a coerência dos nossos hábitos, pois nem sempre acreditamos nelas. Não estaria na hora de revermos nossos valores? Senão eles, ao menos sua expressão concreta em nossa vida? Não seria agora — creio, sinceramente, ainda haver tempo — o momento de assumirmos nossa corresponsabilidade com aqueles que geramos, pela busca da felicidade, da paz e da justiça na construção de um mundo melhor?
Um mundo que ignora o valor e a dignidade do ser humano, que convive com o absurdo do desperdício num contexto de miséria, do apagamento do outro, da devastação das riquezas naturais. Ocupar-se de si não é uma sinecura, ocupar-se dos cuidados consigo e com o outrem é um exercício obrigatório para que a vida possa ser plena e feliz.
Não! Definitivamente, não basta financiar o melhor colégio nem frequentar os mais famosos cursos. A aquisição da mais sofisticada tecnologia e o patrocínio de viagens “além-mar” não são suficientes, ainda que importantes. É hora de reinventar os relacionamentos tecidos no cotidiano da vida, de deixar aflorar o amor que se traduz no abraço, no cheiro, no sorriso… Simples como o girassol, que, extraordinariamente, brota despreocupado e faceiro. A educação não é um molde exterior a nós. É nossa própria condição de ser. Sem ela, somos “animal larvar”, que não pode lançar-se à ventura de construir a vida e o seu correspondente sentido, peculiar a cada ser. A humanidade não é um a priori que nos é dado via fecundação. É uma construção fundada em relações concretas, forjadas ao longo da vida. É, pois, a educação uma mediação de construção do humano em nós.
Alguns existem que advogam que a tarefa educativa se restringe ao trabalho que a escola desenvolve. Não é verdade! A escola é tão somente uma limitada agência educacional. Pode e deve, parece certo, contribuir com a formação humana de nossos filhos à medida que lança mão de componentes cognitivos como chave de leitura do mundo, de ressignificação de signos, de apoderamento da vida, de assenhoreamento de si. Paradoxalmente, pode também atrapalhar, quando se estrutura mediante uma prática conservadora e/ou centralizadora, que não explicita para seu corpo social as motivações profundas de sua ação, nem estabelece uma salutar convivência com o contraditório. Entretanto, nós, os pais, vislumbramos uma escola que, pura e simplesmente, viabilize a aprovação dos filhos em processos de ingresso ao Ensino Superior. Nós, a família, somos os educadores primeiros de nossos filhos. Essa tarefa é, primordialmente, nossa. Sem uma raiz existencial profunda, sem um chão fértil de princípios e valores, sem um caráter bem formado — que tipo de homens e mulheres serão os nossos filhos? E em que mundo estarão plantados seus ideais? Não é demais lembrar: todos estamos, continuamente, em processos de formação. Não somos frutas que se cristalizam; somos gente que se constrói. Assim, parece que seremos tanto mais educadores quanto mais formos capazes de aprender uns com os outros.
A capacidade de educar os filhos, dessa forma, passa pela capacidade de deixar-se educar por eles. Assim, a educação na escola não é um apêndice, um anexo — é parte integrante da nossa vida (nossa!). Daí a necessidade de interagirmos com a escola, entendendo ser ela, inclusive, um espaço igualmente nosso. Cada uma dessas terríveis atrocidades que têm manchado nossos mais sagrados sonhos pueris parece ser, na verdade, marca da desilusão, característica de gerações inteiras que perderam a capacidade de acreditar em si, de amar o outro e de abrirem-se ao além de si. Façamos, pois, de nossa vida uma arquitetura de relações tecidas no encontro amoroso, na entrega generosa e no exercício responsável de quem professa o desejo de tornar este mundo melhor — e não tem receio de almejar a felicidade.
Em contextos de incertezas e vínculos combalidos, educar é mais do que ensinar conteúdos: é estar presente de forma ética, sensível e comprometida. A verdadeira educação nasce do encontro entre seres humanos que se reconhecem em sua incompletude e aprendem juntos a construir sentido. Certamente a construção de um mundo de justiça e paz, passa pelo reencantamento das relações vividas a cada dia. Ser presença educativa é, antes de tudo, um gesto cotidiano de responsabilidade afetiva com a vida.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e vô da pequena Ara. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (1999). Tem alguns livros publicados, participou da organização de vários outros. Publicou diversos capítulos de livros e artigos sobre Filosofia da Educação e Ensino de Filosofia.
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