Atualmente, quando guerras proliferam a rodo pelo mundo, disputas entre facções e milícias proporcionam as mesmas condições que uma guerra, redpill e incels invadem redes sociais, acontece o aumento de feminicídios, bullying virtual de crianças e adolescentes, ruína da democracia americana, emergências climáticas, entre outros fatos sombrios, muitas vezes, aterrorizantes, fico a me perguntar o quanto é efetivo trazer o tema da coluna de hoje.
Num tempo em que tudo nos puxa para a emergência e sinal do fim do mundo, a ponto de pessoas conhecidas terem se organizado com dinheiro vivo e compras na despensa porque estão à espera dele, falar de pessoa idosa, pra muita gente, “cheira a velho”, e traz a lembrança de algo ruim e a ser evitado. Então, para por aqui. Se é que começou a ler.
O envelhecimento é inevitável para quem está vivo. Mas estar velho é uma condição que poucos aceitam com alegria. E quando vejo a velhice sendo tratada nas mídias, na maioria das vezes, são aqueles 60+ que se parecem com “40”. Ou aqueles que superaram uma marca que poucos conseguiram, quem sabe praticando skate aos 100 anos, ou maratona aos 95, ou balé aos 84…
Estou dizendo para não exaltar esses modelos? Não! De forma alguma. Mas me preocupa quando a gente só se interessa pelo tema ao olhar pra esse lado bonito e inspirador. E isso cobra um preço depois. Evitar os problemas não faz com que eles desapareçam. É como observar algumas árvores em vez de mirar a floresta.
Com os modelos que citei acima, quando percebemos que o envelhecimento e a velhice podem nos proporcionar vida com perspectivas diferentes, novos propósitos, eles ajudam em nível individual a diminuir o auto-idadismo e o idadismo interpessoal (idadismo, etarismo e ageísmo são palavras sinônimas). Conseguimos entender que novas longevidades são possíveis e quebrar velhos paradigmas. Permitir que a gente se experimente e se lance em sonhos e planos que antes julgava ultrapassados e impossíveis por causa da idade.
Porém, essa abordagem não abrange os temas Coletivos. Necessária uma consciência coletiva a respeito do envelhecimento populacional brasileiro e suas consequências. E, mais do que nunca, de pressão para que esses temas sejam considerados prioridade:
· Desde a década de 70, o Brasil vem envelhecendo mais rapidamente. Conforme o Censo de 2022, temos 15% da população 60+, ou seja, 32 milhões de pessoas. A idade mediana atual do brasileiro é de 35 anos. Em 2050, projeta-se que 30% da população será de pessoas 60+.
· Mundialmente, o Idadismo com relação a pessoas idosas atinge uma em cada duas pessoas. Em países como o Brasil, onde o jovencentrismo é grande, esse é um preconceito ainda maior. O Idadismo é universal, pois atinge a todos que envelhecem e se sobrepõe a todos os demais preconceitos.
· O Etarismo no mercado de trabalho é crescente com as pessoas, especialmente para os 60+.
· No Brasil, 85% das pessoas 60+ moram com outras pessoas e 75% contribuem com 50% ou mais da sua renda para o domicílio, ou seja, são arrimo de família.
· Com a última alteração do regime da previdência, houve o surgimento do fenômeno dos “Sem Sem”, pessoas que estão sem a cobertura da aposentadoria e sem emprego (por conta do etarismo), ficando descobertas de qualquer renda.
· Mulheres têm maior expectativa de vida do que homens. Mas carregam mais doenças crônicas e renda mais baixa, resultando numa velhice de pior qualidade.
· A velhice da população negra, tanto feminina quanto masculina, tem menor expectativa de vida do que a velhice branca, com renda ainda mais baixa e piores condições de vida em função das desigualdades sociais.
· A velhice LBTQIAPN+ é marcada por mais preconceito e, muitas vezes, pela necessidade do “retorno ao armário”.
· O número de suicídios de pessoas idosas vem crescendo no país nos últimos anos.
· No Brasil, tem havido um crescimento no número de pessoas idosas (17.386) morando em condições inadequadas, como tenda, barracas de lona, plástico ou tecido, por exemplo, nos últimos anos.
· Apesar das dificuldades de contagem, pois o Censo não faz esse levantamento, pelo CADÚNICO sabe-se que existem mais de 30 mil pessoas idosas em situação de rua.
· O número de violações físicas, financeiras, virtuais, psicológicas, sociais contra a pessoa idosa ainda cresce em proporção inversa às condições de atendimento às denúncias.
· Em situações de emergência climática e conflitos, a população idosa é deixada para trás, pelas dificuldades de mobilidade. Senti isso na pele quando coordenei o Abrigo Emergencial 60+ na inundação havida em Porto Alegre em 2024.
· O Silver Marketing, ou seja, o consumo das pessoas acima dos 60 anos, foi de mais de R$ 1,3 tri em 2024. Na França, benchmark nessa área, o governo coordena comitês entre o primeiro, segundo e terceiro setor, e lida de maneira estratégica com respeito à Economia Prateada. Nos EUA, só a Economia Prateada representa o 3º maior PIB mundial. No Brasil, não temos política nem projeto sobre Economia da Longevidade.
São desafios presentes que estão afetando nossa sociedade e irão impactar de maneira decisiva nosso país e nossa população em diversas camadas, que precisam de articulações e soluções intersetoriais, multidisciplinares, com autoridade, agilidade e orçamento para tal.
Em nível federal, para tratar de grupos minorizados e vulnerabilizados, possuímos na gestão das políticas públicas o Ministério da Igualdade Racial, o Ministério das Mulheres, o Ministério dos Povos Indígenas. Frente a tudo que precisa ser enfrentado, onde está o Ministério da Pessoa Idosa? Pergunto a você: No seu estado e município, existe um conselho dos direitos e/ou uma secretaria da pessoa idosa?
Convencionou-se chamar esse mês de “Junho Violeta” com o objetivo de alertar sobre a importância de proteger os direitos e a dignidade das pessoas acima dos 60 anos, porque no dia 15 foi instituído pela Organização das Nações Unidas o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. E daí?
Ficar listando as diversas formas de violência e indignidades cometidas contra as pessoas mais velhas – como fiz acima – não irá resolvê-las. Conscientizar-se a respeito, entender que sem o bem-estar e desenvolvimento coletivo o individual é incompleto, pressionar e cobrar para que as soluções necessárias sejam implantadas, eu espero que você possa me ajudar a fazê-lo. Você topa?
Fontes: Atlas da Violência 2025, Relatório Disque 100 2025, FMI, Censo IBGE 2022; Perfil das Pessoas 60 Mais - DIEESE, Revista Mais 60 - Sesc SP – ed. 73 e 87; Relatório Mundial sobre Idadismo da OMS.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Marcelo Camargo | Agência Brasil

