São várias sete e quinzes ao mês. Mesmo que nem sempre exatamente quinze. Às vezes vinte, vinte e cinco, já foi vinte e sete, até. Nunca mais do que isso, pois, se tem uma área em que o pouco de traços obsessivos que essa personalidade aqui contém reside, é no cuidado com os horários.
É sempre nas manhãs em que levo minha filha à escola que passo, então, ao redor das 07:15 da manhã, por uma das tantas pontes que conectam um lado ao outro da Avenida Ipiranga, em Porto Alegre. Sempre que passo pela ponte, faço uma foto com o mesmo cenário, apontando para o riacho e a cidade, no sentido sul-norte, ao fundo, e posto nos meus stories do Instagram.
Começou despretensiosamente, numa manhã em que achei o céu lindo, fiz a foto e postei, colocando o horário. Então, dias depois, tive vontade de fotografar novamente o mesmo cenário, e então surgiu a ideia de fazer isso sempre às 07:15 nas manhãs em que levo minha filha à escola (em média 3x por semana).
Acontece que isso foi ficando interessante e as pessoas que acompanham minha rede social começaram a reagir, dar o tal like, mas também nos comentários inbox e muitas vezes presencialmente, dizendo “adoro tuas fotos da ponte”. Amigas começaram a sugerir que, ao final do ano (e esse já é o plano), eu faça um tipo de retrospectiva do cenário ao longo do ano com diferentes temperaturas, céus, luzes, chuva, nuvens, sol.
A primeira questão a se apontar é o fato de que a mesma foto, com o mesmo cenário, no mesmo horário, nunca fica entediante ou repetitiva pelo simples fato de nunca uma ser igual à outra. O arranjo de nuvens, o volume de água no riacho, gotas no vidro do carro, a posição da árvore que fica no canto esquerdo da cena.
Mas há também uma outra coisa que, a meu ver, faz com que esse meu hábito torne-se interessante a quem me acompanha. Essa coisa envolve justamente a palavra hábito. Precisamos e gostamos do hábito, do previsível; em contrapartida, uma vida e um tempo que passam, imprevisíveis. Uma amiga uma vez me escreveu: “Tô sentindo falta das tuas fotos da ponte, cadê? Eu adoro!” Ainda me surpreende uma reação como essa, porque eu gosto de fazer essa brincadeira pelo meu próprio hábito. A psicologia bem sabe que a rotina é um organizador externo que ajuda a organizar um interno, mas não pensei que esse meu hábito passaria a ser um pouco hábito de quem me segue.
Já estamos em setembro, a primavera já está mudando o cenário das minhas pontes quase diárias. Logo o ano acaba, eu farei essa retrospectiva de pontes, sem talvez conseguir compreender tão bem quanto gostaria tudo que passou de um lado ao outro do riacho. Só sei que o cenário muda, minha filha sentada ao meu lado nesse trajeto também cresce e muda sutilmente, naquele truque do tempo que Nana Caymmi cantou. Não quero perder os sete e quinzes que tenho com ela, mesmo sabendo que é inevitável que se escapem pelos dedos à medida que esse tal tempo passa. Mas é preciso lembrar que, de novo, é Nana quem canta; o tempo também se rói de inveja, querendo aprender como morremos de amor pra tentar reviver. Enquanto isso, sigo morrendo e vivendo de amor, clicando sete e quinzes pelas pontes várias da minha vida.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

