Há criações humanas que me abalam. Às vezes por uma surpresa agradável; geralmente por uma curiosidade de “mas como pode isso?”. Nessa curiosidade, venho há algum tempo esperando a chegada do teletransporte, tão aguardado em lugares de Porto Alegre. Imagino se haverá placas, limites de passageiros, tempo certo para embarque, pontos de parada livres ou fixos. O que sei é que convivo com espaços que estão incompletos, aguardando e dependendo dessa modernidade para o pleno funcionamento.
Praticamente todas as vezes que chego de carro em grandes centros comerciais ou mercados, percebo a preparação do espaço e a concepção de mobilidade futurística. É chegar, achar uma vaga e aguardar ser abduzido do estacionamento para dentro da loja. Não há nada, nenhum plano ou pista, de como ir do carro para o estabelecimento a pé. Só pode ser uma preparação, a estrutura pronta para o teletransporte. Pegue o ticket, guarde o veículo e “plin”, estás seguro dentro do seu comércio preferido (ou necessário, meu caso nesses aglomerados de gente).
E são milhares de pessoas diariamente. Com crianças, são idosos, com tralhas, com dificuldade de locomoção, de visão e por aí vai. Impossível conhecer todos os desafios que uma pessoa enfrenta ao andar 10, 50, 100 ou mais metros entre carros, em movimento ou estacionados, lombadas, “olhos de gato” ou outros obstáculos feitos para uma máquina, e não para um humano. E, na verdade, não precisa nem chegar motorizado; há lugares onde, para se caminhar, é necessário atravessar o templo sagrado dos veículos.
Acho, na verdade, um total descaso com o cidadão, uma lógica que não percebe o humano como parte separada de seus bens. Já vi melhoras, tentativas, como faixas de segurança que levam da porta de um carro para outra, sem começo nem fim. Mas um espaço para se andar tranquilamente é incrivelmente raro. Parece pouco não caminhar entre carros, mas é o reflexo de uma postura diante do mundo, ações que passam despercebidas para quem quer solução fácil.
São muitos outros espaços preparados para a chegada do teletransporte, como estádios de futebol, parques e grandes espaços públicos. Sugiro que se preste atenção sobre quando a preocupação é contigo ou com o que tens no bolso. Não é difícil pensar grande, mas ter o cuidado como meta dá mais trabalho e custa mais. Nesse caso, se pagaria com menos vagas, reservando espaços para o ex-motorista e momentaneamente pedestre ter também o direito de circular seguro.
André Furtado é, por origem, jornalista; por prática, comunicador, de várias formas e meios. Na vida, curioso; nos Irmãos Rocha!, guitarrista. No POA Inquieta, articulador do Spin Música.
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