Na semana passada, ouvi o podcast da revista Gama chamado “Podcast da semana”, que teve como convidada a psicanalista Vera Iaconelli. O episódio tinha como tema análise e escrita, e, ao longo do episódio, a psicanalista falou sobre o lançamento do seu mais recente livro, “Análise”, onde compartilha sua história pessoal, familiar e de seus processos de análise, despertando várias perguntas e inquietações. A condutora do podcast, que aliás está excelente não somente nesse, mas em seus vários outros episódios que eu já ouvi, faz uma pergunta que me despertou interesse e sobre a qual a resposta trouxe para refletir.
Qual o impacto da pessoa que deseja saber mais da Psicanálise, enquanto está em seu processo terapêutico, estudar mais sobre e querer conhecer e – no caso da convidada que expôs sua vida pessoal e seus próprios processos de análise – estudar teoricamente sobre e saber da vida de seu analista? Ela respondeu de uma maneira tão interessante, comentando que hoje de fato a teoria psicanalítica está muito mais acessível em podcasts, programas, perfis de Instagram. Porém, isso não adianta nada quando se pensa no analisar-se de fato. Estudar sobre os mecanismos e método analítico não antecipa nada, não acelera um processo que justamente vai na contramão de uma lógica de produtividade, eficácia e resultado. Então, Vera usou uma analogia que ela própria, no episódio, pareceu satisfeita com a ideia e até comentou que usará mais vezes (e eu agora também), que foi comparar o processo analítico ao amor.
O amor, apesar de nos ser transmitido por alguém, em relação, não é algo que se aprenda teoricamente. Não basta eu ler livros sobre romantismo, sobre a capacidade de amar, ler poemas ou ouvir músicas de amor para que então eu aprenda a amar. Amar se aprende amando, sendo amado, acertando e errando, sendo que o certo e o errado não estão contidos em cartilha alguma.
A psicanálise ensina que amamos e aprendemos a ser amados conforme arranjos de forças que foram se formando e reformulando à medida que nos desenvolvemos e aprendemos com nossos modelos parentais, referências para o que esperar. Isso, por si, torna a experiência do amor algo absolutamente singular. A pergunta que cabe é se aquele amor que dou e recebo me traz satisfação, lembrando que isso nem sempre é igual a ser feliz. A satisfação de uma pessoa pode ser a frustração de outra, no que concerne a experiências amorosas, e vice-versa. O que funciona para um casal, partindo de engrenagens inconscientes, obviamente, só serve àquele casal.
A Psicanálise por sorte é menos subjetiva do que o amor. Ela tem uma teoria que a embasa, um método que a norteia. Ainda assim, cada dupla analítica funcionará mediante certas experiências que serão pautadas e conduzidas pela profundidade que o ou a analista alcançou em seu próprio processo e a capacidade e necessidade do analisando ou analisando de mergulhar na experiência. Não há manual, receita, compêndio, que ensine alguém a analisar-se a si próprio. Caso isso fosse possível, os próprios psicanalistas estariam liberados de seus próprios tratamentos (ainda que muitos infelizmente pensem assim, não é o que acontece).
Amar se aprende amando, analisar-se se aprende sendo analisado. Em ambos os casos, é preciso uma dose de coragem, tempo, tolerância à frustração e uma parceria capaz de mergulhar nesses universos, que talvez de fato nem sejam tão diferentes assim, já que amamos com toda nossa bagagem neurótica (com sorte) e nossos padrões inconscientes.
Que não desistamos de nenhuma dessas jornadas, caso contrário, a vida fica pobre demais.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

