Recentemente, fomos tomados por notícias tristes com relação a acidentes com brasileiros em momentos que supostamente deveriam ser de aventura e diversão. Um voo de balão numa cidade catarinense tradicionalmente conhecida pela prática do balonismo terminou numa trágica queda após o balão pegar fogo durante seu voo. Oito pessoas perderam a vida, especialmente as que, segundo relatos do piloto sobrevivente, não pularam do mesmo. As imagens daquele cesto em chamas dominaram as redes sociais e eu fui capturada por elas, mesmo causando extremo desconforto e angústia. Eu nunca andei de balão, muito mais por falta de oportunidade do que por opção, mas conheço várias pessoas que já fizeram essa prática. Sou bastante insegura quanto a esse tipo de aventura, até montanha-russa me gera medo e ansiedade. Mas fiquei me imaginando naquela situação e me perguntando, nas inúmeras vezes que assisti ao vídeo da queda, se eu teria coragem de pular, mesmo o piloto afirmando categoricamente – como deve ter feito – que pular seria a melhor saída. Teria eu paralisado? Eu conseguiria ter a coragem de pular? Mesmo de uma grande altura, seria a única chance de sobreviver. Talvez eu fosse uma das 8 pessoas que infelizmente perderam a vida.
Nos últimos dias também tivemos notícias de Juliana, uma brasileira que escorregou e caiu numa caminhada por um vulcão na Indonésia. Infelizmente, eu estava com esse texto pronto para encaminhar ao editor quando veio a notícia de que o corpo da jovem foi encontrado sem vida. Mais uma vez, a internet nos inunda de fotos da jovem e de cenas de drones que a mostravam num pequeno “refúgio” em meio àquelas montanhas. Fico imaginando a força mental que a jovem precisou mover em si, o frio e a fome, e a dor. Infelizmente, o governo da Indonésia falhou em prestar socorro adequado, falhou, pelas informações obtidas, em orientar que aquela trilha seria de alta dificuldade, e falhou o guia que deixou a jovem para trás quando ela afirmou que precisava parar para descansar.
Esses últimos acontecimentos fazem pensar: qual é a necessidade do ser humano de desafiar seus limites e, em maior ou menor grau, dependendo do perfil de personalidade, desafiar a morte e arriscar a vida? Certamente muitos dirão que estar vivo já é um risco. Dirigir um carro, andar à noite sozinha (especialmente se você for uma mulher), mas me refiro aqui a essas aventuras mais escancaradamente perigosas. Andar de balão já não é mais uma experiência que ofereça grandes perigos. Uma trilha, dependendo do seu grau de dificuldade e da capacidade do participante em saber seus próprios limites e condições físicas para tal empreitada, também não. Juliana estava realizando um sonho. Morrer realizando um sonho não é para qualquer um, ainda que isso não precisasse ter acontecido. Mas o que acontece é que risco sempre há. A questão é: como cada pessoa gerencia os riscos em sua vida? Tem coragem para enxergá-los? Tem onipotência de achar que pode vencê-los ou dele livrar-se?
O ser humano é feito de pulsões que o movem, que desacomodam. Não fosse isso, não teríamos tantas descobertas na ciência, na aviação, na construção civil. Nosso ímpeto por desafiar limites, ir mais alto, mais longe, quebrar recordes, trouxe inúmeros avanços, mas claro, cobra seu preço. Como saber qual é o limite? Certamente eu não me sentiria preparada para uma caminhada de mais exigência física ao redor de um vulcão, mas certamente aceitaria (desafiando meu medo infantil) andar de balão. Acidentes acontecem, arriscando-se ou não. As probabilidades estão aí, mas a vida também.
Nós, curiosos humanos que somos, ao assistir vídeos desse tipo sem parar, ao mesmo tempo em que não se quer, que diminuímos a velocidade para olhar um acidente na rodovia mesmo que não queiramos ver, somos os mesmos humanos que, ao testemunhar esse tipo de acidentes, pensam, mesmo que inconscientemente: ufa, que bom que não era eu, imagina se eu tivesse lá? Acontece que ver a vida de fora não basta. Não estou dizendo que devemos fazer todo tipo de esportes radicais, mas o que eu digo é que precisamos saber de nossos sonhos e, dentro do possível, persegui-los, independente do risco, ou calculando o risco dentro do possível. Mas a vida é isso, trilhas difíceis, fogo, pistas escorregadias, aviões em falência.
Um salve à Juliana e a todas as jovens corajosas que ousam realizar seus sonhos. Um salve a quem não tem coragem também e prefere não voar, não caminhar nas alturas e vê na vida cotidiana já uma grande aventura de risco.
Eu não sei se eu pularia do balão, eu não sei se eu não escorregaria numa trilha. O que eu sei é seguir desejando voar.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

