Meu cachorro quase morreu. Bidu já não estava bem havia alguns dias, mas, em casa, ninguém conseguia entender o que estava acontecendo. Barriga inchada, gases, indisposição e pouco apetite eram sintomas recorrentes que logo passavam. Não pareciam graves. Até que, em um sábado à noite, o quadro se agravou e, quando vi que ele vomitava toda a água que bebia e havia sangue misturado às suas fezes, eu paralisei.
Desde que meu filho, ainda pequeno, teve crises de asma e precisamos levá-lo ao plantão de madrugada, eu não me sentia tão impotente diante de uma emergência de saúde. Com as clínicas e agropecuárias fechadas e nenhum veterinário disponível, meu primeiro impulso foi ligar para um atendimento de emergência. Apenas um aceitaria atender o Bidu, e somente no domingo pela manhã, o que, para mim, parecia tarde demais. Enviei, então, uma mensagem para a responsável pela pet shop que atende o Bidu há mais de dez anos. Ela aconselhou soro caseiro e dipirona, conselho que eu segui sem hesitar. Naquele momento, qualquer gesto era uma tentativa que poderia dar certo.
Meu filho tentava conter o choro. Dos seus dezesseis anos, quatorze foram vividos ao lado do Bidu. Cresceram juntos, e a ideia da perda se impunha de um modo que nenhuma explicação conseguia amenizar. Meu marido também não escondia a preocupação: dizia que, todas as vezes em que vira um cão naquele estado, no dia seguinte já não havia muito a fazer. Naquela noite, restava apenas oferecer algum conforto ao nosso bichinho e esperar que o dia seguinte chegasse com boas notícias.
No domingo pela manhã, a diarreia e o vômito haviam diminuído, mas não cessado. Fui a uma das poucas agropecuárias abertas no bairro e ouvi do atendente a recomendação de um vermífugo, além do alerta de procurar um veterinário com urgência caso não houvesse melhora. Voltei para casa confiante de que o Bidu sairia desta. Poucas horas depois do primeiro comprimido, ele começou a reagir e, para meu alívio, voltou a comer. Bidu estava fora de perigo. Claramente, o mal que o abateu foi causado por vermes e o remédio estava fazendo efeito. Ainda assim, o medo de perder o nosso bichinho assombrou a casa por mais alguns dias.
Embora saibamos que um dia isso vai acontecer, dói só de pensar em ficarmos sem o nosso poodle. Muito apegado a mim, costumamos brincar dizendo que sou a humana do Bidu, enquanto meu marido e meu filho são apenas substitutos para quando não estou por perto. Um dia ele vai me deixar e eu não o verei mais me seguindo pela casa. Não o terei aos meus pés pedindo colo enquanto escrevo. Meus retornos ao final do dia não serão mais recebidos com a mesma alegria. A casa ficará mais silenciosa, mais triste. Continuarei abrindo o portão, mas nada virá ao meu encontro. Eu aprenderei, aos poucos, a conviver com o vazio que talvez eu tentarei preencher com um novo filhote, mas nunca será a mesma coisa. Nenhum outro cão será o Bidu.
Retratada inúmeras vezes no cinema e na literatura, a amizade entre humanos e cães pode parecer simples a quem observa de fora. Para quem a vive, ela é uma presença que se infiltra na rotina e faz muita falta quando deixa de existir. Em O Amigo, romance da norte-americana Sigrid Nunez, publicado no Brasil em 2019 e recentemente adaptado para o cinema, o cão surge como uma herança inesperada após o suicídio de um amigo escritor. Apollo, um dogue alemão enorme, passa a dividir o luto com a narradora, ocupando, à sua maneira, o espaço deixado pelo homem que se foi.
A princípio, ela resiste. Enumera impedimentos como o tamanho do animal, o apartamento pequeno, a própria vida desalinhada. Com o tempo, acaba cedendo ao convívio e não consegue se desvencilhar do companheirismo de Apollo.
Um cão é um amigo que não nos abandona nos momentos de tristeza. Permanece quando o mundo se afasta e até quando nós mesmos nos tornamos difíceis de suportar. Deita a cabeça no nosso colo, acompanha com os olhos atentos cada gesto nosso. Fica ao nosso lado sem dar conselhos nem oferecer soluções. E muitos desses cães amáveis não têm um lar, sofrem perambulando pelas ruas em busca de comida e abrigo. Outros, mais sortudos, tornam-se comunitários e não têm apenas um dono, mas diversas pessoas que se preocupam com as suas necessidades. Estes cães são ainda mais dóceis, pois se acostumam a agradar para receber recompensas.
Há muitos cães comunitários no Brasil e muita gente disposta a cuidá-los. Assim vivia o cachorro Orelha na Praia Brava em Florianópolis até ser torturado por um grupo de adolescentes. Não vou repetir aqui as notícias que tomaram as mídias nas últimas semanas. Elas já cumpriram o papel de chocar, revoltar e dividir opiniões. Basta dizer que Orelha existia porque era cuidado por muitos. Não pertencia a ninguém e, justamente por isso, era de todos. Basta dizer que tamanha foi a minha indignação ao saber daquela crueldade na semana em que comemorava a resistência do meu cãozinho.
Bidu dormia tranquilo no canto da sala enquanto eu lia as notícias. Do outro lado da tela, o país pedia justiça por Orelha. As imagens se repetiam, os comentários se acumulavam, e os adolescentes responsáveis pela violência eram protegidos pelo dinheiro de suas famílias. Enquanto isso, Bidu respirava em paz. E eu entendia que amar um cachorro é também aprender sobre os limites da empatia humana. Alguns são protegidos a tempo. Outros se tornam notícia. Entre um e outro, seguimos tentando acreditar que a comoção não seja apenas um gesto passageiro, mas o início de uma mudança que impeça que outras histórias terminem do mesmo modo.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

