Na semana passada, disse que falaria em um texto sobre os homens benignamente perigosos. E vou. Um pouco. São uma raridade. Conheço poucos. Mas antes, para deixar tudo mais preto no branco, tenho de falar sobre os malignos, categoria que poderia ser até sindicalizada tamanha a quantidade. Os membros desse grupo quase nunca se reconhecem como tal. É preciso um evento, por vezes dramático, para que comecem a considerar a possibilidade de não serem o que imaginam e enxergarem a ponta de seus narizes.
Nariz me faz lembrar do Pinóquio, projeto de homem salvo a tempo por uma fada madrinha, e de perfumes e de cheiros. O olfato talvez seja o meu sentido mais apurado. Enxergo longe com o meu, um aliado da minha condição de fêmea mamífera. Circunstância que me faz lembrar do livro Escute as Feras, da antropóloga francesa Nastassja Martin, que ignorou seus instintos e acabou com o rosto desfigurado. ‘Fareje as feras’ com frequência me digo. Não que seja necessário. Meu detector para o bem e para o mal não falha. Mas sabe como é: ‘o seguro morreu de velho e quem avisa amigo é’.
No Brasil, a expectativa de vida dos homens é um pouco menor que a das mulheres, as maiores vítimas do etarismo. Roupas, cabelos, hobbies, corpos, sexualidade, relacionamentos, quase tudo que for do mundo feminino é questionado. Segundo dados do IBGE, as mulheres vivem cerca de seis anos a mais que os homens. Claro que tem as azaradas. Minha mãe morreu na curva perigosa dos 50. Carlos Drummond de Andrade fala sobre essa fatalidade em um poema. E morreu 14 anos antes do meu pai, que conseguiu chegar aos 70.
Por enquanto, os homens vivem em torno de 73 anos e as mulheres uns 79, apesar da realidade social brasileira em que doenças decorrentes de estresse se multiplicam feito coelhos. A vida sexual dos coelhos é algo invejável sob o ponto de vista quantitativo. Já a maternidade das coelhas deve ser algo infernal. Se bem que ninguém as chama de velhas para serem mães ou de gordas e flácidas depois de parirem. Sentada sozinha em um café, ouvi duas jovens conversando sobre terem o quanto antes filhos para ficarem o quanto antes fora de forma sem se sentirem culpadas. Culpa é uma cruz. E falo em cruz porque o cristianismo se alimenta dela.
Mas voltemos aos números. Seis anos de diferença não pesam nada. Envolvem as pessoas que sabem exatamente o que sentimos quando falamos de um determinado show, um escândalo político e por aí vai. A mim, isso encanta. Faz com que eu me sinta em casa no tempo. De certa forma, que ele pare. Cazuza cantava que ele não para. É verdade. Porém, de vez em quando, ele se finge de morto. Ou a gente o mata para viver emoções padrão Ritchie, o cantor que eu só passei a gostar quando deixei de ser uma menina. Minha vida de mulher é muito mais interessante, generosa e erótica. Encontrei, na cama de um homem benignamente perigoso, embora o abajur fosse convencional, um edredom cor de carne e um lençol azul. O corpo nu ficou por minha conta.
O corpo das mulheres é algo que tanto os homens benignamente perigosos quanto os malignamente cobiçam. O primeiro grupo querendo sentir e dar prazer. O segundo, pensando só em si mesmo e em como fragilizar o sexo oposto. Eis a diferença maior entre eles e o tipo de perigo que trazem. Os benignos não têm a intenção de magoar e de expor uma mulher a riscos. Não há dolo em seus tropeços e nem crueldade. Essa divisão sempre me faz lembrar do livro Sobre Ratos e Homens, do John Steinbeck. Alguns, sem sombra de dúvida, não passam de roedores da felicidade feminina. Não precisaríamos ser feministas e nos defender se ela fosse respeitada.
As estatísticas de violência contra a mulher, incluindo o feminicídio, são altíssimas. É bem verdade que os homens se matam o tempo todo. A parte maligna vive de pulsão de morte. Por razões que nem Freud explica, se empenha na destruição de seus planos e afetos. ‘Os maus também amam’, dizem. Se pensarmos que o amor é um sentimento transcendente, temos de aceitar que ele pode mesmo surgir e se desenvolver em qualquer um, independentemente de suas muitas ou poucas virtudes.
No livro Pequeno Tratado das Virtudes, o filósofo francês André Comte-Sponville elenca dezoito tipos. Vou colocar aqui as cinco que marquei, no índice, em 1997, no dia 14 de março, um dia antes do último aniversário da minha mãe, como sendo as mais relevantes. Prudência, temperança, coragem, justiça e tolerância. Não lembro o porquê. Reconheço, no entanto, que investi bastante nelas. A compaixão e o humor, por exemplo, deixei de fora porque nasci com razoável dose. Bom humor é sinônimo de qualidade de vida. Nada me salva das minhas tristezas e problemas como o meu riso, um antídoto à infelicidade para a qual nunca tive vocação. Por livre e espontânea vontade, não a acolho. Tampouco quem tenta provocá-la e me punir. Os homens benignamente perigosos, ao contrário dos demais, não aplicam punições e, por isso, não é difícil gostar deles.
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