Começo dizendo que nunca estive na Hungria. Já zanzei mundo afora. Por vezes, entrei em apuros. Corri até certo risco de vida. Vulcões, helicópteros caindo aos pedaços, antigos e labirínticos mercados no Oriente Médio conhecem os meus pés. Mas Budapeste não. Por que motivo eu não consigo responder? Há coisas sem respostas. Falta de vontade de ir certamente não está entre elas. Em setembro de 2003, quando li o romance homônimo do Chico Buarque, pensei que seria um bom momento, mas meu filho tinha só três anos, e o meu instinto materno maternava até a mim mesma. Aí, fiquei em casa me acalentando na cadeira de balanço que herdei da minha avó até 2005, como se eu fosse também minha mãe.
Nesse ano, com a entrada dele no Jardim de Infância, decidi fazer pós-graduação em Literatura na mesma universidade em que eu havia feito jornalismo. No dia da inscrição, entre os prédios de um curso e o outro, encontrei uma professora de rádio, mídia para a qual eu tinha talento, e ela, curiosa, se aborreceu por eu não estar de volta para o ‘lugar certo para mim’. Não há um lugar certo para mim, pensei em dizer a ela, mas me dei conta de que poderia soar antipático ou depressivo, duas coisas que não sou, embora eu tenha, é claro, uma ganguezinha de desafetos. Gente que pode ser que eu exponha neste texto. Por ora, volto a falar da Hungria, ou do que eu conheço um pouco dela, a literatura.
Pois, frequentando as aulas de Literatura, li então, pela primeira vez, um autor húngaro: Ferenc Molnár. Seu romance Os Meninos da Rua Paulo, até onde sei, é considerado o livro húngaro mais conhecido no mundo. E aí, porque uma coisa leva à outra, comprei O Fiasco, do Imre Kertész. Pelo Kertész, me apaixonei. Ele havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura em 2002 e estava começando a ser traduzido aqui no Brasil. Ele e o Sándor Márai, de quem, a partir de 2008, a Companhia das Letras publicou vários títulos. Dizem os entendidos (eu me declaro, tal qual o poeta Mario Quintana, autodidata: ignorante por conta própria) que a glória literária do Kertész tem suas raízes no legado literário do Márai. É provável. Na arte, como na vida, está tudo interligado, ainda mais entre talentos de uma mesma origem. Portanto, não me surpreendi com a vitória do László Krasznahorkai agora no último nove de outubro. E, mais do que isso, fiquei feliz pelo seu Sátántangó estar disponível no nosso idioma. Livros me fazem feliz.
Sim. Livros bem escritos (os ruins evito falar e deixo desaguarem, como merecem, ralo e tédio abaixo) me fazem feliz em diversos níveis, ainda que os melhores me joguem na lama como estão, não só metaforicamente falando, as personagens do Sátántangó, o livro quase razão desta coluna, que é para ser longa mesmo em tempos de fragmentação e de preguiça por parte dos leitores. Eu tenho verdadeiro pavor de gente preguiçosa. Para mim, o pior dos pecados capitais é esse de se jogar em uma rede ou em um sofá e ficar macunaimando um “aí, que preguiça”. Conheço gente que me diz que não lê livros por falta de tempo. Falta de tempo é o argumento número um desse pessoal, incluindo entre eles escritores e escritoras. Esse meio não é o que parece. A Fogueira das Vaidades, nome do excelente romance do Tom Wolfe, volta e meia fala mais alto que a ética e que o amor pela escrita e, por consequência, pela leitura. Tem quem escreva para ter um pouco de fama e um cordão de puxa-sacos. Presume-se que, em um prêmio literário, o que esteja em jogo seja a qualidade de um livro. Se for um prêmio sério, será. Se não for…
Se não for, por exemplo, entre a comissão julgadora, encontraremos colegas de grupos de estudo, de clubes de leitura, de sala de aula e até amigos e amigas íntimas de concorrentes. Profissionais que deveriam se declarar impedidos, como fazem os juízes ou procuradores do Estado quando conhecem alguém envolvido em um litígio. Mas não. Colocando-se acima dos mortais, acreditando-se acima de qualquer tipo de julgamento inconsciente ou mesmo se aproveitando da faca e do queijo que têm nas mãos, aplicam seus próprios critérios de justiça. No Sátántangó, há uma passagem espetacular sobre justiça. Recomenda uma personagem revestida de autoridade sobre as demais, todas em desolação após a queda de um regime político, que elas se acostumem logo com uma vida mais severa dentro da lei, a que uma pergunta “que lei” e que a autoridade? Responde: “A dos mais fortes”. Ou, no caso, dos mais canalhas.
Canalhice não é, mas deveria ser pecado capital. Eu não sei como uma pessoa pode deitar a cabeça no travesseiro e dormir depois de ter favorecido profissionalmente alguém por estima, como também não sei como alguém decente aceita ser privilegiado por uma circunstância dessa natureza. No ano passado, ano em que um livro escrito por mim estava habilitado para concorrer a prêmios, só o inscrevi em um aqui no Sul e quase o retirei quando soube que uma amiga faria parte do júri. Ou ela renunciava ou eu saía da concorrência. Ela renunciou. No prêmio de repercussão nacional em que eu o havia inscrito e em que ele foi selecionado como finalista, eu não tinha vínculo com ninguém, o que conferiu verdadeiro sentido de vitória à minha escrita, porque, se tem algo terrível, é, mais do que enganar aos outros, enganar a si próprio, inventando versões insustentáveis sobre o seu talento. Ao fim e ao cabo, quem diz se um livro é bom é quem o lê, e quem o lê não é necessariamente quem compra o exemplar ou o divulga.
Uma quantidade expressiva de pessoas está comprando o Sátántangó em função do Nobel de Literatura. Eu tentei comprá-lo no dia em que foi anunciada a vitória. Durante o processo de compra dentro do site, as vendas se encerraram. Aí, comprei, aguardando a reimpressão. Coisa de poucos dias. A quinta é a do meu exemplar. Eu demorei mais de uma semana para lê-lo. Li com calma, como ele pede, ou não. Como a minha mente pediu. E o li estudando e analisando sob diferentes aspectos. Há algum tempo, eu havia lido uma resenha escrita por um livreiro bloguista em que ele dizia que, em cada um dos 12 capítulos, há apenas um enorme parágrafo. Não. Já no segundo, o texto se quebra, ou melhor dizendo, se alquebra em novas linhas. Três. E por aí vai. Na segunda parte, primeiro texto, número 6, intitulado Irimiás faz um pronunciamento, nem se fala. Assim, por cima, dá para se dizer que há, no mínimo, uns doze.
E por que penso e escrevo sobre isso?
Talvez porque eu tenha perdido a paciência. Talvez porque, ao contrário do personagem Irimiás, não estou em uma situação difícil e não passei a noite vomitando silêncios. Posso me expressar. Cresci em uma família em que a democracia sempre foi mais do que uma mera palavra. Lá pelas tantas, o narrador do Sántántangó diz: “Onde está o número capaz de esmagar esse inútil desmesurado, esse pilantra demoníaco? Indigno de confiança? Irreconhecível? As palavras faltaram. Todo o conceito parecia fraco. Não era de palavras que ele precisava. Mas de força. De quem pudesse golpeá-lo! Precisava de força, não de conversa mole!”. Conversa mole não me pega. Literatura húngara me pega ao infinito. Literatura ruim me faz lembrar do filme Casablanca. Só não a desprezo porque já não perco mais tempo com ela.
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Foto da Capa: László Krasznahorkai por Miklós Déri / Wikipedia / Montagem

