Todo novo começo traz em si um fim, um luto. Mesmo momentos felizes, como um casamento, uma formatura, lembram a gente de uma etapa da vida que se foi e não retornará, com todas as coisas positivas que deixamos para trás, mesmo que outras tantas a gente vislumbre.
Então, não é à toa que a gente precisa criar rituais para marcar esses momentos, cercar-se de pessoas e de circunstâncias para nos fortalecer para a próxima fase da vida. Acreditar na potência. Fortalecer-se na rede. Renovar as esperanças.
Daqui a pouco viveremos o Reveillon, ou virada do ano de 2025 para 2026, conforme o calendário gregoriano, aquele que utilizamos para nos guiar nos dias do ano e meses. Uma data que, no geral, é marcada por festa e celebração e muitos rituais. Confesso que adoto alguns: comer lentilha para prosperidade, não ter nenhum animal na ceia que “cisque para trás”, pular as sete ondas, se na praia eu estiver.
Ao redor do mundo, novos começos são marcados por diferentes tipos de cerimônias. Algumas são coletivas, outras individuais, nem todas acontecem na época do ano-novo do calendário gregoriano — mas a ideia de deixar o que não nos serve mais para trás e renovar os ânimos atravessa todas elas. Quem sabe alguma delas você pode adotar nesta virada de ano? Conheça algumas a seguir…
QUEIMAR AS LEMBRANÇAS RUINS
Prática que remonta tradições andinas e ibéricas, a queima dos bonecos chamados “años viejos” é comum em diversos lugares da América Latina, mas especialmente popular no Equador. Na noite do dia 31 de dezembro, os equatorianos ateiam fogo nas figuras feitas de palha, roupas velhas e papel machê para dar adeus ao que se quer esquecer do ano que passou. Já os povos nativos da América do Norte acreditam que queimar plantas como a sálvia é uma maneira de renovar a energia das pessoas e dos espaços.
O PANELAÇO LUSITANO
Se nos anos atrás os brasileiros acreditavam que bater panela nas janelas podia destituir governantes, para os portugueses fazer um panelaço na varanda ou pelas ruas é a tradição de fim do ano para espantar o mau olhado dos 12 meses anteriores. O barulhento ritual é mais comum no sul de Portugal.
OS RITOS DE PASSAGEM
Boa parte dos rituais dos povos indígenas do Brasil pode ser classificada como ritos de passagem — o que não deixa de ser uma forma de renovação: em geral, os protagonistas das cerimônias, como as crianças em ritos de iniciação, passam um tempo separados das outras pessoas antes de se transformarem socialmente. A festa Hetohoky do povo Karajá, por exemplo, marca a entrada dos meninos na vida adulta e a preparação inclui o isolamento por uma semana e lições de caça e pesca. As meninas da etnia Nambikwara, por sua vez, passam por um período de clausura antes da celebração Txawxãhaijausu, pela qual entram na vida adulta. Quem sabe um tempo de isolamento para meditar e pensar sobre o que se desprender de 2025 e levar para 2026?
MERGULHOS CONGELANTES PARA RENOVAR
Em países com invernos nada amenos, como a Rússia, o Canadá, a Alemanha e a Holanda, é comum nadar em lagos, rios ou no mar gelado no primeiro dia do ano para entrar no próximo ciclo do calendário com a energia renovada. Já na Tailândia (onde o clima é mais convidativo), os mergulhos fazem parte das celebrações da deusa hindu Saraswati: a cerimônia de se banhar em água corrente é feita com o objetivo de rejuvenescer física e espiritualmente.
LIMPAR A SUJEIRA QUE PASSOU
Nada de empurrar para debaixo do tapete: em vários lugares do mundo, é preciso tirar a sujeira de casa antes de entrar no novo ano. O Nowruz, ano novo do calendário persa que acontece no final de março em países como o Irã, o Afeganistão, a Turquia e o Iraque, começa com uma grande “limpeza de primavera”. Os dias que precedem o Ano Novo Chinês, comemorado pelo calendário lunar, também são reservados para afastar os maus espíritos, desinfetando a casa. Na Inglaterra, a faxina deve ser feita de preferência com uma vassoura nova e, no Japão, é praticada a tradição milenar do Oosouji, uma bela arrumação para renovar as energias do ambiente.
O PERDÃO JUDAICO
Na cultura judaica, o ritual de fechar um ciclo e abrir outro no Rosh Hashaná, feriado de ano novo, tem a ver com o autoaperfeiçoamento. Nessa época, os judeus refletem sobre o ano que passou e sobre os comportamentos que precisam ser mudados e pedem perdão às pessoas que magoaram.
O certo é que os rituais existem desde o princípio da raça humana no mundo e que eles organizam a vida, criam sentido, reduzem nossa ansiedade na medida em que nos trazem a tranquilidade de que, por meio deles, nosso futuro estará resguardado, proporcionam pertencimento e um ritmo para a vida em um mundo acelerado, ajudando-nos a reconectar com valores e identidades.
Não quero soar como aquelas pessoas conservadoras radicalizadas, mas no sentido de que pessoas e culturas guardiãs de seus ritos serão, provavelmente, mais saudáveis e longevas, porque sabem respeitar sua ancestralidade, legado e seguir para um futuro com uma identidade mais fortalecida.
Talvez você seja alguém que sinta que não precisa de rituais, e tudo bem. Ou será que você já possui um ritual só seu? Quem sabe é hora de pensar em um ritual para você?
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução do Youtube / Documentário Hetphoky

