“Em tudo o que se segue, adoto, portanto, o ponto de vista de que a inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e autossubsistente, e retorno à minha opinião de que ela é o maior impedimento à civilização”, Sigmund Freud diz em O Mal-Estar na Civilização, livro que reli uma vez e penso em reler mais. Não que eu tenha tempo. De uns poucos anos para cá, me vejo obrigada a fazer mais escolhas do que antigamente. Talvez porque eu tenha assimilado que a finitude é mais que uma ideia ou uma possibilidade.
Assim como minha mãe, minha avó e todas as mulheres da minha família, em um dia qualquer, mais perto do que eu gostaria, irei desaparecer, o que, se levarmos em conta que todas as formas de vida cumprem um ciclo, não acho injusto. Injusta me parece a violência intrínseca à existência, tenha ela ou não sido criada por uma inteligência maior ou divina, como muitas pessoas acreditam. Como Protágoras, eu acredito que “o homem é a medida de todas as coisas”. E aqui, quando falo ‘homem’, tal qual na frase de Freud, me refiro ao ser humano de norte a sul, leste a oeste, cromossomo X ou Y que habita o planeta.
O planeta é redondo, ainda que alguns o vejam plano. O planeta, apesar de nomeado Terra, é cheio de água e de lágrimas. Choramos. Uns mais que os outros. Uns só em causa própria, o que lamento em diversos níveis. Se esses tivessem mais boa vontade com os outros e julgassem menos ou condenassem menos aos demais, deixando de considerar tudo o que os desagrada ou que não concordam, por vezes, porque não entendem, como ofensa e criminoso, provavelmente não usariam de tanta artilharia e perceberiam, imagino, o tamanho de sua presunção, um dos caminhos mais em linha reta para a pobreza de espírito e para a barbárie.
Em O Idiota, um dos meus romances favoritos do Dostoiévski, portanto, um livro em que marquei muitos trechos, uma personagem diz: “Não julgue se não tem experiência”. Frase que conversa com o parágrafo de abertura de O Grande Gatsby. “Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou”, F. Scott Fitzgerald escreve. Vivemos em uma sociedade de desmemoriados ou de memória seletiva, com um bocado de gente que prefere emitir os seus juízos a guardá-los para si, pensando-se, talvez, autêntica ou honesta. Em nome dessas duas virtudes, muita mesquinharia, maldades e injustiças foram feitas. A história, seja como tragédia, seja como farsa, está aí, todo dia, para nos provar o quanto a nossa festa é a da insignificância e a Terra, com tudo o que parece importante, não passa de um Pálido Ponto Azul.
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