Eu gosto de viajar. Mas gosto mesmo é de viajar para aprender. E esta viagem está sendo uma verdadeira aula, principalmente sobre o tamanho da minha ignorância. Eu sabia quase nada sobre os povos polinésios, melanésios e micronésios. Não sabia que há evidências de que os polinésios estiveram na América séculos antes dos europeus e levaram a batata-doce de lá para suas ilhas. Uma visita a um museu em Auckland me fez entender perfeitamente a Moana, da Disney, aquela sua vontade de ir além do horizonte não é teimosia — é herança cultural. Como não me ligo no rugby, não sabia que os All Blacks, a seleção neozelandesa, fazem no início dos seus jogos a dança Haka, que é um grito de guerra dos maoris, com olhos arregalados e língua de fora, o que intimida os adversários pela sua agressividade.
Bueno, na coluna da semana anterior prometi que não faria mais “textões históricos”, então vamos ao que interessa: a vida no lado de cá, dentro de uma casa com rodas.
O primeiro desafio foi domar o cérebro brasileiro no volante do lado “errado”. Nos cruzamentos, é uma verdadeira rinha de neurônios: o motorista tupiniquim sussurra no meu ouvido: “entra nesta pista”. O neozelandês grita: “Cuidado! É contramão, vai na outra!” E eu fico hesitante, enquanto o carro de trás buzina. Hoje relaxei por alguns segundos numa estrada vazia… e de repente vinha um carro conversível na minha direção. O motorista levantou as duas mãos num gesto universal de “maluco, você está na contramão!”. Susto, correção de rota e mais um aprendizado: atenção nunca entra em modo férias. A Grace fica mais tranquila quando está dirigindo do que quando vai do lado esquerdo, vendo os precipícios bem ao seu ladinho. Tá sempre dizendo: “mais para lá, mais para lá”, mas as pistas são estreitas, não posso invadir a outra. Ah! Esqueci de contar que a VAN tem um multimídia muito bom, só que as informações são todas em mandarim!
Nesta primeira semana, fomos até Cape Reinga, no extremo norte da Nova Zelândia. Para os maoris, é dali que as almas partem para o mundo espiritual, mergulhando no oceano para encontrar os ancestrais. O mar é a estrada entre dois mundos. Soube que, quando os maoris se apresentam, eles citam os seus pais, avós, o rio e a montanha a que estão conectados. Não é lindo isso? Um enorme respeito com sua ancestralidade.
Nas proximidades de Cape Reinga, ficamos no camping Taputaputa, um lugar sem energia elétrica, sem lixeiras, com banheiro rústico e chuveiros ao ar livre. Cada pessoa leva embora o próprio lixo. Simples assim. O curioso é que, sem vendedores ambulantes, sem música alta e cada um respeitando o espaço do outro, a praia vira um santuário. E aí fica a pergunta: por que não podemos ter praias assim? Por que precisamos deixar montanhas de lixo nas nossas praias? Por que não conseguimos cuidar do que é tão lindo?
Em outro camping, ganhamos um “crédito” de banho: sete minutos. E sabe que sobrou tempo? Descobrimos que eficiência é uma habilidade subestimada. Falando em habilidades, um vizinho no camping nos pediu fósforo, disse que o acendedor do seu fogão não estava funcionando. Me prontifiquei para ajudá-lo, coloquei uma proteção contra o vento e o acendedor funcionou. Nunca subestime a capacidade de resolver problemas dos brasileiros… kkk. Outra mudança de mentalidade: quando vamos a algum lugar, pensamos em “levar um casaco?” Ou “o que colocar na mochila?”. Logo lembramos: tudo o que temos já está conosco, na nossa Campervan! Não há malas para fazer, Uber para chamar e nem horários rígidos para cumprir. Apenas estrada, autonomia e a liberdade de mudar de endereço quando der vontade. Claro, aqui não se pode estacionar e dormir em qualquer lugar, os campings fazem parte da logística da liberdade.
E aí vem a pergunta central: a sua casa caberia numa VAN? Você conseguiria passar uma semana? Um mês ou talvez um ano nesse ritmo nômade? Parece impossível, né? A primeira reação é imaginar a falta de espaço, desconforto, sensação de aperto. Mas pense no outro lado: todos os dias, uma paisagem nova na janela. Montanha hoje, praia amanhã, floresta depois. É como trocar o papel de parede da vida diariamente. Então surge outra pergunta: por que precisamos de mais do que algumas roupas, poucos objetos pessoais e um pequeno estoque de comida? O que, de fato, é indispensável?
Muitas vezes atribuímos a falta de grana para não viajar. Lembrei daquela figurinha: “Não tenho dinheiro, mas tenho interesse!” Aqui, vejo jovens, famílias com crianças e muitos idosos caminhando, pedalando, praticando esportes e respeitando a natureza. E me pergunto: por que no Brasil, com tantas belezas naturais absurdas, não cultivamos mais esses hábitos?
Agora, estamos na deslumbrante península de Coromandel, aqui fica a Cathedral Cove (um enorme arco de pedra que parece cenário de filme) e a Hot Water Beach, onde basta cavar a areia para brotar água quente natural. Tudo isso e também as nossas palhaçadas, descobertas e vistas de tirar o fôlego estão registradas nas fotos e vídeos que compartilhamos no Youtube.
Pensando bem, talvez a melhor pergunta não seja se a sua casa cabe numa van, mas quanto dela é realmente essencial e quanto é apenas um peso que você se acostumou a carregar. Não é preciso viajar para tão longe para se aventurar e para descobrir coisas interessantes. A gente precisa aprender com os maoris a “ter coceira nos pés”, vontade de se mover, de enfrentar desafios e, quando menos se espera, abrem-se janelas e um novo jeito de ver o mundo. Vamos nessa!
Ps.: Nossos agradecimentos a Bruna, uma brasileira que mora em Auckland. Nos conhecemos no aeroporto e ela tem sido nossa “personal travel”, uma queridona!
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

