San Francisco, 2015. Congresso Americano de Reumatologia. No programa: perspectivas para o tratamento de enfermidades reumáticas pela modificação do microbioma. Primeira palestra, fatores dietéticos e componentes nutricionais, a responsabilidade de alimentarmo-nos por trilhões de micróbios residentes em nossos intestinos; a seguir, uma variante da popular vitamina S (de sujeira) que deixaria crianças mais imunocompetentes, o uso do material proteico de nematoides, sim, vermes, como tratamento (também em nosso meio, objeto de pesquisa do colega cearense Francisco Airton da Rocha); e, por último, o mais inusitado, transplante fecal em doenças humanas, proposta de suplemento de bactérias quando condições adversas e/ou antibióticos acabam com a “população local”.
Enfezado, o palestrante anuncia: — em breve, nos supermercados, o balcão de iogurtes oferecerá mais do que potinhos enriquecidos com polpas de frutas e lactobacilos, sendo esses últimos um prenúncio do proposto.
A figura lembrou-me a história de outro médico norte-americano, John Harvey Kellogg (1852-1943), diretor de um sanatório em Battle Creek, Michigan, que utilizava métodos holísticos, com foco principal em nutrição, exercícios e enemas. Os pacientes submetiam-se a lavagens intestinais de rotina, uma prática que ainda hoje tem seus adeptos e que retorna em ondas de modismo. Na contramão do que ora se apresenta, já que elimina indistintamente mocinhos e bandidos entre os habitantes do condomínio intestinal.
Por falar em “contramão”, o Dr. Kellogg também preconizava uma cruzada contra a masturbação, por ele denominada “o vício solitário”. A causa, ainda segundo ele, de males variados, câncer, impotência, epilepsia, insanidade e outras debilidades mentais e físicas. Propunha punições: homens e meninos deveriam ser “tratados” mediante a costura de seus prepúcios com fio de prata; não dando resultado, circuncisão sem anestesia; às mulheres e meninas, clitóris queimados com ácido carbólico. Perversão travestida em pseudociência.
Flocos de cereais, hoje sinônimos de seu nome, foram criados também na convicção de que seriam eficazes no combate ao onanismo, deram-lhe fama e fortuna. No ato 2, cena 2, de Hamlet, o príncipe afirma: “Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito…”. Se Shakespeare tivesse conhecido esse inventivo Dr. Kellogg talvez substituísse a casca de noz por uma caixa de sucrilhos. Haja presunção e onipotência!
Cabe reflexão e serve de paralelismo. Bom senso versus dogmas. Pretendemos o domínio e a verdade absoluta, sem medir consequências. Nós, ínfima porção de uma cadeia que depende de harmonia e equilíbrio. Míopes dessa visão ecológica, tão simples de compreender. Não toleramos a diferença. Dizimam-se países, povos e culturas em nome da ganância e atribuindo a fé. A vingança é fortemente destrutiva, com o fanatismo e seus excessos. Da mesma forma, o que deveria ser apenas natureza e fisiologia, pelo abuso, descaso e negligência, torna-se barro impuro, lama tóxica, caudais envenenados.
Continua atual o aforisma de Hipócrates (460-370 a.C.): “Somos o que comemos”. Contudo, ponderação. Reféns do equilíbrio e do valor que damos aos nossos universos externos e internos, meros circunstantes nas entranhas do planeta. Viajantes do tempo, mágicos reis do infinito, inconscientes de que tudo cabe numa casca de noz, seguiremos na corda bamba.
Todos os textos de Fernando Neubarth estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução

