Finalmente estava chegando em casa depois de um dia cansativo de trabalho.
O porteiro não veio abrir o portão como normalmente fazia, e olhou pra ele com cara de desconfiança. Quando conseguiu entrar no prédio, tentando e tentando convencer o reconhecimento facial que ele era ele, foi recebido pelo Seu Nivaldo na portaria com uma pergunta estranha.
– Qual apartamento vai e quanto tempo pretende ficar por lá?
– Poxa seu Nivaldo, sou eu, o Jorge do 303, marido da Luciane.
– Eu sei Seu Jorge, estou apenas fazendo meu trabalho. Tem muita gente estranha entrando e saindo aqui, agora tenho que perguntar e até barrar morador com atitude suspeita e cara de latino.
Jorge não entendeu nada, achou que talvez Seu Nivaldo tava ficando meio totoca da cabeça e pegou o elevador.
Parou em frente à porta do seu apartamento e, por vários minutos, tentou todas as chaves do seu chaveiro, mas nenhuma abriu a porta. Deu um passo pra trás, já meio desconfiado de que alguma coisa estava errada, e conferiu o número.
Sim, 303, era a casa dele. Cansado, resolveu apertar a campainha.
Luciane perguntou, com a porta fechada, qual era a senha para entrar.
Jorge, já num estado Angry Birds de irritação, disse que precisava ir ao banheiro e não conseguia entrar em casa porque todo mundo no seu caminho resolveu enlouquecer.
⁃ Só me deixa entrar, Luciane. Depois a gente conversa.
⁃ Ahhhhh não, Jorge, aqui não é a casa da mãe Joana. A partir de agora, tem senha pra entrar, e a senha é mostrar os memes do seu telefone.
⁃ Não tô acreditando, Luciane, abre essa porta de uma vez, não tem graça essa brincadeira, parece criança, e mimada.
⁃ Brincadeira nada, Jorge, agora tudo mudou, estou botando ordem na casa.
⁃ Do que você está falando?
⁃ Agora vai ser assim, não pode entrar e sair a hora que quiser, tem que passar pelo Seu Nivaldo com todas as informações. Depois tem que mostrar seu telefone pra poder entrar no apartamento, e só entra se não tiver nenhum meme ofensivo contra mim ou minha família.
⁃ Que palhaçada é essa, Luciane?
⁃ Baixa o tom, senão vai ter o visto de entrada no prédio revogado. Continuando… tudo aqui agora vai ser taxado. Largou a pasta no sofá, tirou os tênis na sala ou jogou a roupa no chão, vai pagar tarifa de 50%.
⁃ Que tarifa, Luciane? Sobre o que, qual o motivo, que valor?
⁃ Deixa eu falar, Jorge! A tabela de tarifas está em preparação e, assim que estiver pronta, será publicada na porta da geladeira. Não me levar pra jantar fora uma vez por semana também tem taxa, assim como deixar a tolha molhada na cama e o prato sujo na pia, serão mais taxas sobre taxas.
⁃ Não tô acreditando nessa besteira, Luciane.
⁃ Bom, Jorge, você botou minha família de castigo porque apareceram de surpresa na casa de praia e quebraram umas coisinhas, lembra? Eu não tive culpa… eu não sabia que eles iam ficar semanas acampados lá.
⁃ Isso não se discute, Luciane, não vai ter perdão pra sua família baderneira.
⁃ Acho bom se acalmar, porque enquanto você continuar agindo assim, só vou cobrar mais e mais taxas, você vai ter que negociar comigo.
⁃ Luciane, minha filha, não me ameace!!
⁃ Ok, Jorge, vai lá chorar com a Dona Carmen então.
⁃ A nossa vizinha? O que tem a Dona Carmen a ver com isso, Luciane?
⁃ Ahhh, ela me olhou de cara feia e não gostei, então propus na reunião de condomínio taxar ela em 30% também.
⁃ Luciane, chega! Você passou dos limites. Vou te internar.
⁃ Ahhh não, Jorge, não vai dar, porque nosso plano de saúde foi cancelado e esse final de semana vou jogar golf com azamiga em Xan-Gri-Lago.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

