A proposta de “sulear o olhar” serve para repensar o nosso caminhar a partir dos eixos culturais, regionais e vivências por meio de uma outra perspectiva fora da lógica imposta pela colonialidade. Inspirado pelo físico Marcio D’Olne Campos, o sulear enquanto princípio nos convida a abandonar a bússola eurocentrada. No nosso caso, como pessoas negras e afrodiaspóricas, estamos falando de um posicionamento que olha para frente, tendo a ancestralidade e quem veio antes como base de sustentação do nosso caminhar.
Cerca de quatro anos atrás, vi a gravação do show “Refavela 40”, que celebrava os 40 anos de lançamento do álbum “Refavela”, do mestre, compositor e grande cantor Gilberto Gil. Esse “disco” manifesta uma profunda perspectiva “suleadora” ao conectar musicalidade brasileira com ritmos e identidades africanos. O álbum foi inspirado na viagem que Gil fez para a Nigéria e atravessa fronteiras estéticas e ideológicas, rompendo com padrões eurocentrados ao trazer o candomblé, o ifá, o reggae, o funk e o samba como linguagens legítimas do Sul global.
As letras e arranjos dele fortalecem uma visão de mundo que valoriza as raízes nigerianas, africanas e as conecta à diáspora. Ele “suleia” a musicalidade e a coloca na vanguarda ao mesmo tempo.
Da mesma forma, a minha querida escola de samba Estação Primeira de Mangueira nos apresentou na avenida, neste ano, a rica presença viva da cultura banto, principalmente vinda de Angola, no Rio de Janeiro. A letra forte e lindíssima, revela como estamos conectados ao outro lado do Atlântico, o que nos serve de inspiração para pensarmos por outras óticas.
“Sou Luanda e Benguela
A dor que se rebela
Morte e vida no oceano
Resistência quilombola
Dos pretos novos de Angola
De cabinda, suburbano
Tronco forte em ribanceira
Flor da terra de Mangueira
Revela do Santo Cristo que condena
Mistério das Kalungas ancestrais
Que o tempo revelou no cais”
(À Flor da Terra – No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões)
Temos o direito de sulear nossas vidas e projetos ao invés de nos colocarmos sempre rumo ao caminho “norteador ou orientador”. Sulear não é apenas romper com modelos epistemológicos impostos: é reconectar-se com sentidos, afetos e temporalidades que resistem há séculos. É afirmar que nossas histórias, corpos e linguagens são fontes legítimas de conhecimento. É recusar a neutralidade do saber e reconhecer sua historicidade enegrecida.
Ao Sul, reencontramos a África como princípio, a Diáspora como potência e a Memória como ferramenta de libertação.
Glauco Figueiredo Santos é jornalista com 20 anos de atuação e consultor de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) com recorte pilar racial. Criador do perfil @omowale_br, é pós-graduado em “História da África e da Diáspora Atlântica”, Lato Sensu, do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN).
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Foto da Capa: IBGE

