Para dar conta de uma cartilagem do meu ofício (essa ainda não é uma parte óssea), me deparei com a obrigação de atualizar meu currículo vitae, que requereu achar as devidas comprovações do que tinha posto ali. E é aqui que começam minhas angústias: o chato não foi rememorar e revisitar as coisas que já fiz, o aflitivo se instaurou quando as vi amareladas. A fixação do óxido no papel couché de meus certificados jogou, imediatamente, para um passado longínquo aquilo o que ainda parecia estar a quase ontem. Naquele instante, aquilo cuja atualidade se vivenciava na memória se tornou passado, se transfigurou em ação finda.
São certificações de alguma escrita lida, de certas palavras ditas, de um tanto de letras impressas, de um bocado de ação cumprida, de determinada certeza professada, de uma crença qualquer palestrada. O problema, então, não é viver eternamente escrevendo, lendo, dizendo, fazendo, ministrando e acreditando em algo: certamente há crédulos cuja fé é poder, na eternidade, escrever, ler, dizer e fazer o que sempre gostaram. O aborrecimento é a exigência da credencial comprobatória para a ação instauradora do que efetivamente somos: o atestado impresso é a realidade do que não está sendo.
A declaração descorada arremessa lá para trás o momento em que estava aqui comigo. E, diante da sequência de registros, percebo que estou sempre em moto-contínuo: a sucessiva produtividade do que possa ser conferido.
Isso é uma condenação. Sempre terei que estar renovando o estoque de coisas a serem lançadas ao passado: o nunca consumado consumo do tempo.
Feliz é meu compadre, que mora nos cafundós de Gravatá (PE), que não tem que comprovar nada e cujo tempo é regido por verões e invernos, principalmente pelas invernadas, que é época de São João. Foram a três São Joãos que ele vendeu dois bois de meia, foram a quatro festejos juninos que comprei o par de nelore e acertei com ele, foram a seis que arrumou a casa para nossos amigos da cidade, foram a dez arraiais que um boi morreu e ele enterrou a carcaça na terra mole da vazante do açude. Enquanto isso, eu apinhava o cadastro da minha carreira…
Meu compadre não tem que comprovar nada, não tem que provar que criou o boi e que vendeu: ele cuida, vende e compra outro (ele só não pode deixar de dar satisfação à comadre Zefinha).
A vida no sítio segue em ciclos que se fecham e se renovam. Em Recife, não: aqui se produz continuamente, se reproduz. Mas, no Cafundó, meu compadre cria: vê chegar, crescer e partir. Aqui, invernia e estio não nos passam, mal se vê a passagem do matutino para o noturno; já para o pai do meu afilhado, dia é dia, noite é noite.
Quando me deparei diante das certidões encardidas, me dei conta de que o andamento do relógio não descontinuou; porém, percebi também que não havia me dado conta de que estou sempre num eterno presente obsolescente, meus dias não se renovam em ciclo, o meu tempo não se renova em estações.
Em Recife toda, se aviam as mesmas coisas de chuva a sol. Contudo, nos cafundós de Gravatá, meu compadre, no calor, faz umas coisas e, no frio, faz outras. No inverno, colhe o milho, pendura bandeiras coloridas e faz fogueira do São João. Todo ano a fogueira é diferente, o lugar nunca é o mesmo. E ele não tem que comprovar nada depois: o que foi feito, foi feito, outras coisas virão a serem feitas…
E, em toda vida, um São João nunca é igual ao outro.
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Foto da Capa: Joédson Alves / Agência Brasil

