“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações…”, canta Chico Buarque em Vai passar. A canção, composta em 1984 logo após a rejeição da emenda Dante de Oliveira pela Câmara dos Deputados, em 25 de abril, traduziu o desalento de um país que via novamente adiado o sonho das eleições diretas. No ano seguinte, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi escolhido presidente do Brasil pelo voto indireto de um colégio eleitoral, com ampla vantagem. Porém, em 14 de março, na véspera da posse, adoeceu gravemente. Pouco mais de um mês depois, em 21 de abril, faleceu aos 75 anos.
O voto direto só retornou em 1989, com a eleição de Fernando Collor de Mello, afastado três anos depois em meio a denúncias de corrupção. Desde então, o Brasil tem atravessado sucessivos escândalos políticos, entre eles os ataques de 8 de janeiro de 2023 e a tentativa de golpe de Estado, visando não só tomar o poder, como matar autoridades nacionais. Apesar de, neste caso, os envolvidos já terem sido condenados, assusta a conivência de uma parcela da população que ainda defende e legitima ações que tentaram colocar em risco a nossa democracia, tão arduamente conquistada após décadas de ditadura militar.
São tempos sombrios! E, como sempre busco trazer um pouco de literatura aos meus textos no Sler, aproveito a ocasião para apresentar a nova antologia que organizei juntamente com Adeli Sell, Athos Miralha, Cássio Machado, Lígia Savio e Vera Molina. O livro Tempos Sombrios, publicado pela Editora Bestiário, nasceu da necessidade de alguns autores de escrever sobre situações que nos assaltam, ano após ano. A obra reúne poemas, contos, crônicas e textos reflexivos que exploram os desafios, medos e resistências do nosso tempo, oferecendo ao leitor diferentes olhares sobre uma realidade marcada por incertezas e tensões.
No texto The other side of my life, Ricardo Rodolfo Bueno diz: A palavra “sombrio” tem origem etimológica igual à de “sombra”, mas diferentemente da segunda— que até pode ter conotação positiva, como a da agradável sensação de alguém nela se abrigar, buscando aliviar-se do calor excessivo—, a primeira traz, sempre, um sentido de frio, escuridão, ausência de luz, talvez mesmo falta de perspectiva, ou, ainda, algo nebuloso, desconhecido, assustador, angustiante, apavorante— e, portanto, paralisante. É nesse sentido que a literatura se torna necessária. Em tempos sombrios, como os que atravessamos, escrever e ler não são apenas atos de criação ou entretenimento, mas formas de resistência.
Poemas, contos, crônicas e reflexões nos ajudam a nomear o medo, a compreender o desconhecido e a enfrentar a escuridão que ameaça nos paralisar, E, assim como Chico Buarque cantou em Vai passar, mesmo quando a pátria parece dormir distraída, a palavra tem o poder de despertar consciências e lembrar que a luta pela democracia, pela memória e pela justiça nunca deve ser esquecida.
Aproveitando o momento, faço o convite para o lançamento desta antologia que acontecerá no sábado 20/09 a partir das 11 horas no Chalé da Praça XI em Porto Alegre.
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