Quase todos reclamam da polarização Lula x bolsonarismo na disputa da Presidência da República em outubro. Mas quando não foi assim, polarizada, essa disputa? Com exceção do Brizola que, em 1989, perdeu a vaga no segundo turno para o Lula por escassos 454.656 votos, nunca tivemos três candidatos competitivos no primeiro turno.
Até 2018, a polarização era Lula x PSDB. Os tucanos ganharam em 1994 e 1998 com Fernando Henrique. Lula ganhou, pessoalmente, duas revanches contra o PSDB: em 2002, derrotou José Serra. Em 2006, ganhou de Geraldo Alckmin.
Em 2010 e 2014, a polarização entre tucanos e petistas continuou. Lula elegeu Dilma contra Serra e Aécio. E foi naquelas eleições que apareceu uma terceira candidatura com relativa. Nas duas campanhas, Marina Silva teve 19% e 21% dos votos no primeiro turno.
Aí veio a excepcionalidade de 2018: o impedimento da Dilma, a Lava Jato com seus méritos e defeitos empurraram o eleitorado a eleger Jair Bolsonaro menos por acreditar no projeto político dele – que, aliás, nunca existiu – e mais para impedir a vitória de Fernando Haddad, candidato de Lula.
Pois agora, quando as pesquisas indicam que quase 30% dos eleitores prefeririam votar em alguém que não seja nem Lula ou lulista, nem Bolsonaro ou bolsonarista, aparece um partido candidato à terceira via.
Gilberto Kassab apresenta o seu PSD como a alternativa buscada por brasileiras e brasileiros.
Mas que alternativa é essa? O PSD, há muito, integra a polarização. E dos dois lados… coisa que só a geléia ideológica que sustenta nossos partidos políticos permite. O partido de Kassab apoiou o governo Dilma, esteve na administração do Bolsonaro e tem três ministérios no governo Lula.
Kassab acaba de juntar três governadores no PSD, três autodeclarados pré-candidatos a presidente da República: Eduardo Leite (RS), Ratinho Jr. (PR) e Ronaldo Caiado (GO). Um desses três ocuparia o lugar de terceira força. O risco de botar mais três carros nessa estrada já meio congestionada e transformar a terceira via em faixa auxiliar da direita.
Uma coisa assim como aquela faixa extra em trechos de subida nas rodovias. A pista da direita fica livre para os veículos mais pesados e os demais brigam para ver quem chega primeiro no final da subida.
Kassab pode estar criando uma barreira para Flávio Bolsonaro seguir com segurança ocupando a faixa da direita. Enquanto não escolhe um dos três pré-candidatos, Kassab atrapalha Flávio, criando dúvidas no eleitorado.
Na pista da esquerda, o comboio do Lula vai tranquilo.
A terceira faixa acaba no dia do primeiro turno. Depois, seguimos em duas pistas até a estação final da eleição. E o pessoal que corria ali pelo meio tem que buscar espaço numa delas.
Por enquanto, é difícil crer que um terceiro candidato ocupe uma das vagas no segundo turno. Lula segue como favorito, apesar da rejeição alta. Com o favoritismo confirmado, Lula vai ao segundo turno com a caneta recarregada.
Outro dia, peguei a pesquisa Atlas/Intel/Bloomberg publicada pelo portal 360 e fiz uma brincadeira provocativa: se a direita bobear, Lula ganha no primeiro turno. Foi assim:
Sonho e pesadelo na mesma pesquisa… Lula pode ganhar no primeiro turno. Nos cinco cenários de primeiro turno da pesquisa Atlas/Intel/Bloomberg publicada hoje pelo Portal 360, Lula só perde em um para a soma dos votos de outros candidatos. Além de Lula, foram mostrados aos pesquisados os nomes de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Ratinho Jr., Renan Santos, Aldo Rebelo e Eduardo Leite.
No cenário 1, sem os nomes de Michelle e Eduardo Leite, Lula tem 48% das intenções de voto. Os outros sete candidatos, somados, têm 50%. Veja que nesse cenário estão Flávio Bolsonaro e o governador Tarcísio de Freitas.
No cenário 2, sem Tarcísio, Michelle e Eduardo, Lula aparece com 49% dos votos. A soma dos outros seis fica nos mesmos 49%.
NO cenário 3, ficam fora Tarcísio, Flávio, a madrasta dele e Eduardo Leite. Nesse, Lula chega na frente com 49% contra 45% dos outros somados.
No quarto cenário, com Michelle representando o bolsonarismo e com Ronaldo Caiado e Renan Santos representando o resto da direita e Eduardo Leite na meia direita, Lula perde de 49% a 48%.
No cenário 5, com Caiado, Ratinho Jr., Zema, Renan e Aldo na parada, Lula ganha por 45% a 40%.
Para quem sonha com a vitória no primeiro turno, a margem de erro é um ponto para cima ou para baixo. Aumentem um ponto para o Lula e tirem um ponto da soma dos outros candidatos…
Ah! Se servir para amenizar o pesadelo, a mesma pesquisa indica que 49,7% dos eleitores dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum.
Volto ao texto de hoje: com esses números na reta final da corrida, para que lado vão ser ligados os pisca-pisca do pessoal que corria pela faixa auxiliar da direita em busca de chegar à bandeirada com voos suficientes para serem chamados naquelas conversas de vésperas do segundo turno? Para a esquerda da caneta cheia, ou para a direita que ainda busca uma caneta?
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Foto da Capa: reprodução

