Ao longo de 2025, produzimos nesta coluna uma série de textos voltados ao letramento racial do cotidiano. Textos que buscavam denunciar violências naturalizadas, desmontar práticas racistas aparentemente banais e oferecer instrumentos mínimos de leitura crítica da vida social e das políticas públicas no Brasil. Esse percurso foi necessário, mas ele também revelou um limite importante: falar de racismo no Brasil sem enfrentar a colonialidade do pensamento que o sustenta é tocar superficialmente o problema.
O selo Terra Mãe nasce exatamente desse deslocamento. Não se trata de abandonar o letramento, mas de aprofundá-lo. Ir além da denúncia dos efeitos do racismo para interrogar suas bases epistemológicas. Questionar as “opiniões prontas” que vamos formando no decorrer da vida sobre o mundo em que vivemos e, sobretudo, sobre mundos que não vivemos, mas acreditamos conhecer.
A ignorância, neste caso, não é atributo individual, falta de cultura e nem falha moral. Ela é estrutural. Atravessa pessoas negras e não negras, acadêmicas e não acadêmicas, viajadas ou aficionadas por reality shows. Ela se constrói diariamente por informações outras com compromissos de manutenção de privilégios, diferenças sociais e opressões. Por isso, não se inaugura este selo para falar a partir de um suposto lugar de saber pleno. Fala-se desde a consciência do não saber e da necessidade de escuta, especialmente da escuta das vozes africanas.
Terra Mãe não como metáfora, mas como conflito
Terra Mãe não surge como metáfora poética ou do senso comum. Ele emerge de uma experiência concreta de escuta, como a que foi vivida por nós, em novembro passado, em Porto Alegre, durante a visita da rainha do Congo, Diambi Kabatusuila. Em sua fala, a África aparece como a terra que gerou a humanidade. Um dado histórico e antropológico conhecido, mas raramente elaborado em suas consequências políticas e simbólicas, portanto sociológicas.
Se todos descendemos da África, o que significa tratar esse continente como atraso, carência ou fracasso? O que revela uma civilização que rejeita a própria mãe?
A rainha provoca ainda mais ao tensionar a ideia de “mãe” em si. Outra metáfora romantizada em que nem todos veem a maternidade como algo positivo. O mundo ocidental moderno, que inventou e radicalizou o patriarcado, construiu uma relação violenta com o feminino. Há séculos, subjuga corpos, expropria territórios, hierarquiza vidas. Faz com a África algo semelhante ao que faz com as mulheres: explora, silencia, desqualifica e, ainda assim, exige que continue dando ao mundo filhos como respostas.
Segundo Diambi Kabatusuila, não há armas nucleares produzidas por africanos porque, em muitas cosmologias do continente, a vida é um valor inegociável. Salientou: “A vida dos iguais e a vida dos diferentes!” Essa afirmação, longe de ser idealização, é uma interpelação direta a um mundo à beira de conflitos globais, capaz de investir bilhões em tecnologias de morte enquanto proclama discursos vazios de paz, progresso e civilização.
África não é ausência, é presença recusada
Pensar África desde o Brasil exige abandonar comparações fáceis e gestos folclóricos. Não se trata de alinhar comidas, religiões ou cores de pele, muito menos de comparar um país com um continente. Trata-se de reconhecer que o Brasil é um território profundamente afrodiaspórico, estruturado por povos africanos diversos, oriundos de dezenas de regiões, línguas e cosmologias.
A redução dessa pluralidade à figura genérica do “africano escravizado” não foi um acidente histórico. Foi um projeto colonial e capitalista que precisava apagar diferenças para administrar corpos, territórios e saberes. O resultado é um Brasil que se pensa europeu, latino ou ocidental, mas resiste em se reconhecer como extensão viva da África. E essa recusa não é apenas simbólica. Ela organiza as desigualdades, legitima violências e empobrece nossa imaginação política.
Pensar unidade sem apagar diferenças
O novo selo também propõe uma crítica às ideias ocidentais de unidade, tão frequentemente confundidas com homogeneização. Diversas filosofias africanas e experiências políticas afrodiaspóricas ensinam que é possível articular pertencimento comum sem destruir singularidades. União com diferenciação, não unificação para hierarquizar. Vamos pormenorizar essa ideia nos nossos próximos encontros aqui, na Coluna Odabá. No entanto, é importante salientar que esse aprendizado é urgente num mundo que transforma diferença em ameaça e diversidade em problema a ser gerido. O Brasil tem muito a aprender com essas formas de pensar o coletivo que não passam pela exclusão.
Este texto inaugura uma série mensal que não pretende oferecer respostas fechadas. Terra Mãe será um espaço de escuta, confronto e elaboração. Um convite a deslocar o centro do pensamento, a suspender certezas confortáveis e a encarar o quanto de colonial ainda estrutura nossas formas de ver, sentir e interpretar o mundo, principalmente aquele que sempre nos foi descrito pela mão do colonizador.
Pensar África desde o Brasil não será um exercício de curiosidade, mas um gesto político-cultural que recusa o esquecimento de um passado e aposta num futuro que talvez já esteja sendo imaginado há muito tempo, justamente por aqueles que aprendemos a não ouvir.
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)
Foto da Capa: Freepik

